Lucas Almeida
Goiânia – “Os meus rótulos eram simples, feitos no computador pela minha filha. Quando o Sebrae Goiás entrou na minha vida, tudo começou a mudar.” A frase da apicultora Neusa Maria Ferreira Bandeira resume um dos principais desafios enfrentados por milhares de pequenos empreendedores brasileiros: transformar um negócio artesanal em uma marca profissional e competitiva.
O apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Goiás foi decisivo para que Neusa profissionalizasse a produção de mel, melhorasse a apresentação dos produtos e conquistasse novos clientes, impulsionando as vendas e ampliando a visão do próprio negócio.
Para o consultor empresarial Neto de Paula, credenciado pelo Sebrae e que acompanha a apicultora há mais de uma década, é comum encontrar empreendedores rurais que dominam o processo produtivo, mas ainda enfrentam dificuldades na gestão financeira e no posicionamento de mercado. “Muitos se enxergam apenas como produtores rurais. Existe uma barreira para entender que eles também são empreendedores do agronegócio e que aquilo que produzem é um produto que precisa ser gerido, valorizado e vendido”, explica.
Profissionalizar o próprio negócio sempre foi um dos principais desafios dos empreendedores, sejam eles microempreendedores individuais (MEI), proprietários de microempresas ou de pequenas empresas. Só em 2025, o Brasil registrou recorde de abertura de pequenos negócios, com mais de 4,6 milhões de novos MEIs, micro e pequenas empresas. Apesar do crescimento, a informalidade e a falta de gestão ainda são gargalos. De acordo com o próprio Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), a profissionalização passa por pilares que auxiliam a estruturar o negócio: digitalização, controle financeiro, capacitação em gestão, marketing, inovação e planejamento.

Da produção artesanal à gestão digital
Ao acompanhar Neusa e o marido no programa Transformação Digital, Neto observou um cenário recorrente entre pequenos negócios rurais: o crescimento das vendas muitas vezes acontece mais rápido do que a estrutura de gestão consegue acompanhar. O casal, que transformou a produção de mel em sua principal fonte de renda, ainda realizava boa parte dos controles de forma manual, com registros em papel e acompanhamento limitado das finanças.
A partir da consultoria, ferramentas digitais passaram a fazer parte da rotina da propriedade. O controle financeiro passou a ser organizado por meio de sistemas online de fluxo de caixa, permitindo o acompanhamento das entradas e saídas, além das contas a pagar e a receber. Paralelamente, o trabalho também incluiu orientações para fortalecer a presença digital da marca, utilizando as redes sociais para mostrar os bastidores da produção, compartilhar depoimentos de clientes e ampliar a conexão com consumidores.
“Depois do apoio do Sebrae, os indicadores do meu negócio melhoraram muito. Eu tinha muita dificuldade em controlar as vendas, porque eu vendia, meu marido vendia, meus filhos também, e no fim eu não conseguia ter uma visão real do que estava sendo comercializado. Foi aí que o Sebrae entrou com orientação prática e acessível, me mostrando uma forma mais simples de organizar tudo isso. Hoje eu consigo ter controle do que produzo, do que vendo, do meu faturamento e também tenho mais proximidade com os clientes”, explica a apicultora.
A necessidade desse processo de profissionalização é confirmada por dados observados pelo próprio consultor em estudos realizados com propriedades rurais do interior goiano. Segundo ele, pesquisas aplicadas em municípios como Pires do Rio, Catalão, Ipameri, Silvânia e Alexânia identificaram que cerca de 80% das propriedades avaliadas não possuíam uma gestão financeira efetiva.
“Não basta produzir bem. O produtor precisa saber quanto custa produzir, quanto custa levar o produto até a feira ou até o mercado e, principalmente, se aquilo que está vendendo gera lucro ou prejuízo”, afirma.
Além da gestão financeira, a digitalização tem se tornado um passo cada vez mais necessário para quem deseja ampliar mercados. Embora ainda exista resistência, especialmente entre produtores mais tradicionais, Neto observa que o uso de ferramentas digitais já avança no campo. Muitas vezes, o primeiro passo acontece de forma simples, por meio do WhatsApp e da divulgação da produção nos próprios status.
Para ele, o maior ganho desse processo é a mudança de mentalidade. Quando o produtor passa a compreender seu produto como uma marca e seu trabalho como um empreendimento, a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a integrar o crescimento do negócio.
Enquanto, para produtores como Neusa, a tecnologia representou uma forma de organizar a gestão e ampliar mercados, especialistas apontam que a transformação digital passou a ocupar um papel cada vez mais relevante para a competitividade dos negócios.
O Sebrae Goiás oferece consultorias gratuitas e subsidiadas para quem deseja abrir um negócio ou aprimorar uma empresa já existente. O processo envolve um diagnóstico inicial do negócio, seguido por planos de ação práticos para áreas como finanças, marketing e gestão.
Para Bruno Lyra, analista técnico do Sebrae Goiás, a digitalização deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar uma exigência do mercado. “Quem não é ponto com é ponto fora”, resume. Segundo ele, independentemente do porte da empresa, estar presente no ambiente digital é hoje uma condição básica para manter a competitividade.
“Hoje, com a digitalização do meu negócio, consegui expandir e explorar novos horizontes a partir dos subprodutos da apicultura, como própolis, cera e apitoxina, que se tornaram matéria-prima para cosméticos naturais e produtos voltados ao bem-estar. Isso abriu portas para novos mercados e fez com que os meus produtos chegassem até fora do Brasil. Recentemente, estive em Portugal realizando uma oficina para brasileiros que vivem lá, apresentando esses produtos naturais e sustentáveis. Hoje, o consumidor procura mais qualidade de vida, produtos biodegradáveis e naturais, e foi justamente nessa direção que o meu negócio cresceu”, pontua Neusa.
Tecnologia e mudança de mentalidade
A digitalização dos pequenos negócios no Brasil alcançou, em 2025, um dos maiores níveis já registrados de uso de computadores, aplicativos e internet. Segundo pesquisa do Sebrae, 76% dos empreendedores (MEI, micro e pequenas empresas) contam com computadores em suas atividades, o que representa um crescimento de seis pontos percentuais desde 2022, igualando o pico registrado há 10 anos.
Apesar do avanço, o processo ainda enfrenta obstáculos. O principal deles, segundo Lyra, não está necessariamente no acesso à tecnologia, mas na mudança de mentalidade dos empreendedores. Muitos ainda enxergam a digitalização como algo complexo, caro ou distante da sua realidade. Outros se sentem perdidos diante da grande quantidade de ferramentas disponíveis e não conseguem identificar quais soluções realmente fazem sentido para o seu negócio.
“O desafio não é apenas implementar tecnologia. É entender qual tecnologia utilizar e em qual momento”, afirma.
Neusa conseguiu ver os resultados da digitalização além da organização. “Quando comecei, cheguei a ter meses com vendas de R$ 800 e, em outros períodos, faturava cerca de R$ 1,2 mil. Hoje, minha média mensal varia entre R$ 14 mil e R$ 23 mil. Claro que existem meses mais fracos, como janeiro, fevereiro e março, mas em nenhum momento fiquei no vermelho. As vendas cresceram muito, o faturamento melhorou bastante e essa parceria fez toda a diferença para o meu negócio.”
A lógica, segundo Bruno Lyra, é evitar que o empreendedor invista em soluções complexas antes de organizar as bases da própria empresa. “Não existe uma receita única. A digitalização precisa acontecer de forma gradual, respeitando a realidade de cada negócio e resolvendo primeiro os desafios mais urgentes”, destaca.

“Os meus produtos têm um diferencial porque são naturais, livres de petrolatos, feitos com matérias-primas nacionais e com produtos das abelhas do meu próprio apiário. Eu estou sempre buscando conhecimento para melhorar. Fiz cursos presenciais, online, participei de capacitações em vários estados e recentemente fui para São Paulo estudar formulação para aprimorar ainda mais meus produtos. Hoje consigo desenvolver novas fórmulas, melhorar embalagens, agregar ativos e entregar mais qualidade ao consumidor”, afirma a empresária.

“Nada disso seria possível sem o apoio que recebi ao longo desse processo. O Sebrae esteve presente em momentos importantes da minha trajetória, contribuindo para transformar uma produção artesanal em um negócio estruturado e profissional. Assim como as oportunidades surgiram ao longo dos anos, também vieram novos desafios, e o suporte recebido ajudou a preparar o negócio para cada etapa desse crescimento”, conclui a empreendedora.
