Logo

Curta goiano “Casca de Ferida” narra a invisibilidade social

WhatsAppFacebookLinkedInX
08.10.2024 - 12:52:10

A Redação

Goiânia – O curta goiano de 12 minutos "Casca de Ferida" narra a invisibilidade social e traz provocação e perspectivas sociais. O filme teve apoio da Lei Paulo Gustavo. 

 
Todo ferimento no corpo que gera uma ferida precisa de cuidados para evitar que germes penetrem no organismo e causem infecções. O processo de cicatrização dessas feridas cria cascas que aparentam ser a cura. Quando a ferida começa a cicatrizar, é comum acreditar que a formação de cascas é um bom sinal. Afinal, parece que a ferida está se curando, certo? Bem, na verdade, a tal casquinha é composta por tecidos mortos que precisam ser liberadas pelo organismo para permitir a renovação celular e a formação de um tecido novo e saudável. E cutucar essa casca é fazê-la sangrar. A casca de ferida é invisível a quem não a carrega. Só quem tem sente o incômodo e a dor quando ela é tocada ou cutucada.
 
Essa é a analogia perfeitamente criada pelo curta-metragem “Casca de Ferida”, vídeo de 12 minutos de duração, produzido a partir do conto do roteirista, produtor e escritor Rodrigo Rocha, com roteiro e direção da também produtora Kellen Casara. “O filme retrata uma realidade que está em todo lugar. Basta abrir a janela e olhar para o mundo”, resume Rocha. A roteirista e diretora do curta, Kellen Casara, apostou na sensibilidade do conto de Rodrigo para apresentar, em 12 minutos, o impacto do racismo ante àquele que recebe a mensagem. “Motivada a instigar pela sensibilidade do conto a necessidade de falar das nossas mazelas, anseio de fazer alguma diferença e ajudar na luta contra o racismo e a desigualdade”, pontua a diretora.
 
Uma visão de Brasil que todos nós conhecemos ou já presenciamos, mas poucos enxergaram. Um script realista sobre invisibilidade social que, em tempos de vídeos curtos e mensagens menores ainda, instiga o expectador a querer um tempo a mais para algumas reflexões: Quantos invisíveis vi por aí? Quantos eu deixei de ver? Quantos eu realmente enxerguei? O que eles me ensinaram?
 
Com notas claras do cotidiano brasileiro, o curta-metragem mostra o Brasil que encarcera e julga os que estão inseridos na cor da desigualdade e na necessidade da ajuda do próximo. Segundo o último Censo (2022), o Brasil tem mais de 90 milhões de pessoas pardas e mais de 20 milhões de pessoas pretas, parcela que enfrenta a invisibilidade e a exclusão, vivendo de muitas formas uma violência real e dolorosa, que ceifa sonhos e faz o silêncio machucar quando a ferida é cutucada. O curta Casca de Ferida é como uma janela aberta para unir vozes, fazer muitas outras abrirem a porta para entrar na sala da disparidade e vivenciar que a miséria tem cor e classe social, que a violência se volta à cor e que a separação social segue o fio: a cor preta.
 
“Não há como não pensar nas marcas coloniais, escravocratas, que se reatualizam cotidianamente. Se incorporam”, provoca Camilo Braz, doutor em Ciências Sociais e professor de Antropologia na Universidade Federal de Goiás (UFG). “Ninguém enxerga o homem preto caminhando pela rua, cambaleando, ensanguentado. Ninguém pára a fim de oferecer ajuda. Ele está no lugar certo aos revirados olhos brancos – o problema não é tanto sua ausência, mas quando sua presença não corrobora com o estereótipo”, detalha o professor. Camilo também vai além e vê a situação como uma espécie de patologia social. “O Brasil dual se reforça em estruturas, materiais, simbólicas, cotidianamente. Somente em um país onde impera o racismo e a aporofobia a existência de elevadores sociais e de serviço, ou quartos de empregada, faz sentido”.
 
O ator Baale, que interpreta o personagem Pedro no curta, tem um olhar sobre a personalidade de Pedro e que é presente em milhões de brasileiros pretos e pardos. “As cenas não tinham palavras e davam o recado através das imagens e metáforas, como a da carne sendo moída”, relembra Baale. Emiliano Amaral, que interpreta outro personagem importante à trama, sentiu o quanto a invisibilidade ainda é presente naquele que não carrega a dor. “Ao saber do meu personagem, a princípio fiquei um pouco incomodado e pensativo por ter que me passar por mais um homem branco no mundo que se acha superior e tendo atitudes racistas. Mas, durante o ensaio com o pessoal nos conhecemos e nos possibilitamos essa atuação. Ao final só queria abraçar a todos”, conta emocionado.
 
Para o professor Camilo Braz, o filme desperta o peso de processos históricos, econômicos, sociais, políticos e culturais que envolvem o racismo e a aporofobia. “A expectativa de que um homem preto, pobre, trabalhador possa voltar para casa após um dia de trabalho e de enfrentamento com variadas formas de opressão para trazer carne moída para a esposa grávida deveria ser uma cena trivial. Se fossem personagens brancas”. Mas, segundo ele, a espera, no filme, não se converte em uma pedagogia não do esperançar. “Acredito que isso nos leva a refletir como discutir esses temas é falar sobre o que Achille Mbembe nomeia como necropolítica. Um ‘fazer-morrer’”. O antropólogo também lembra outro ponto apresentado no filme: as fake news que, nesse caso, “assemelham-se às fofocas, que são um fenômeno sociológico e antropológico – produzem e reproduzem relações sociais e, dentre elas, a falácia de que a culpa por processos desumanizantes e mortíferos é da vítima”, sentencia.
 
Sobre o filme
Pedro, o personagem central, reúne todos os elementos que sustentam a dor da invisibilidade social brasileira. E ele provoca inquietação. É o recorte de uma esquina, a presença real em cenas de cidade vividas pela periferia, é a voz de milhões de pessoas que, assim como ele, sentem o direito roubado de ser pessoa. É o chão. São 12 minutos que te fazem grudar na tela e parar para ver, para comentar e criar outros finais. E pode haver dezenas deles. Há sempre um desejo de virar a história, de contar sob outra perspectiva. É assim que o filme se une ao expectador para atingir o objetivo: provocar.
 
Com apoio da Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar n° 195, de 2022, criada para incentivar a cultura e garantir ações emergenciais), o filme foi contemplado pelo edital Nº 3/2023 como produção curta metragem, obra seriada e telefilmes de ficção ou animação.

Leia mais:

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Caroline Louise

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Humor
03.11.2026
Murilo Couto apresenta “Novo Show” e abre sessão extra em Goiânia e Anápolis

A Redação Goiânia -O comediante Murilo Couto chega a Goiás em novembro com o espetáculo “Novo Show”. Em Goiânia, as apresentações são no dia 7 de novembro, às 19h e 21h (sessão extra), no Teatro Goiânia. Já em Anápolis, a apresentação é no dia 8 de novembro, às 18h, no Teatro São Francisco. Na nova […]

Lazer
03.11.2026
Sesc Centro reúne música, teatro, dança, artes visuais e cinema na programação de novembro

A Redação Goiânia – O mês de novembro será marcado por uma programação cultural diversificada no Sesc Centro, em Goiânia. Ao longo do mês, o público poderá acompanhar espetáculos de teatro e dança, apresentações musicais, exposições, feira de artesanato e uma mostra dedicada ao cinema italiano. As atividades contemplam diferentes linguagens artísticas e faixas etárias, […]

03.11.2026
Longa “Leite em Pó” abre o IV Festival Internacional de Cinema de Goiânia

A Redação Goiânia – O Festival Internacional de Cinema de Goiânia (Giff) ocorre entre os dias 18 e 23 de novembro no Multicine do Bentivi Shopping e no Cine Cultura, ambos em Goiânia. A abertura do festival terá a exibição de “Leite em Pó”, filme destaque do 54º Festival de Cinema de Gramado (2026), com […]

Educação
03.11.2026
Biblioteca Braille em Goiânia recebe versão acessível do livro Maria da Penha nas Escolas

A Redação Goiânia – O livro em quadrinhos do projeto Maria da Penha nas Escolas ganhou uma versão em braille, que já está disponível na Biblioteca Braille José Álvares de Azevedo, unidade do Governo de Goiás, em Goiânia. A iniciativa busca ampliar o acesso ao conteúdo educativo e contribuir para a inclusão de pessoas com […]

Arte
03.11.2026
Pirenópolis recebe mestres da cultura popular brasileira em curso gratuito de formação

A Redação Goiânia – Pirenópolis será palco de um importante encontro de saberes, ritmos e tradições da cultura popular brasileira. A cidade recebe, a partir de novembro, o projeto “Tessituras do Brincar: dos Quintais às Ruas”, uma formação gratuita que reúne mestres e mestras de diferentes regiões do país para compartilhar conhecimentos e fortalecer as manifestações […]

Tecnologia
03.11.2026
Senac Goiás lança documentário inédito e gratuito sobre inteligência artificial

A Redação Goiânia – O Infinito Digital, documentário original do Sistema Fecomércio Sesc e Senac Goiás, está disponível gratuitamente no canal do YouTube da instituição abordando os principais impactos e transformações causados pela inteligênica artificial. Apresentado pela professora, palestrante, mestre e especialista em NLP, Christianne Pimenta, o documentário foi desenvolvido em parceria com um dos maiores […]

Teatro
03.11.2026
Cia Os Melhores do Mundo celebra 30 anos com espetáculo “Sexo” em Goiânia

A Redação Goiânia – A Cia. de Comédia Os Melhores do Mundo chega a Goiânia com o espetáculo “Sexo”, em uma apresentação que integra a trajetória de 30 anos do grupo. As sessões serão realizadas nos dias 28 de novembro, às 20h, e 29 de novembro, às 18h, no Teatro Goiânia. Com humor crítico, improvisos […]

Cultura
03.11.2026
Pirenópolis abre na 5ª sua Festa Literária e a exposição sobre a construção de Brasília

Jales Naves Especial A Redação Goiânia – Dois eventos marcarão a quinta-feira, dia 5, na cidade de Pirenópolis, GO: a abertura da 16ª Festa Literária – a Flipiri 2026, com atividades gratuitas em espaços como o Theatro Sebastião Pompeu de Pina, o Cine Pireneus e o Centro Histórico; e a instalação, no Cine Pireneus, da […]