Logo

Cuidados paliativos

WhatsAppFacebookLinkedInX
02.10.2025 - 08:39:43
Em outubro, quando se celebra o Dia Mundial de Cuidados Paliativos, costumo voltar a uma pergunta simples: de que forma queremos ser cuidados quando a vida pede mais acolhimento do que intervenção? Talvez a resposta não esteja em grandes protocolos, mas na decisão diária de aliviar o que dói, ouvir o que preocupa e oferecer clareza sobre o que é possível.
 
Os cuidados paliativos são isso. Uma abordagem que coloca o alívio de sintomas, o conforto e a qualidade de vida no centro da conversa, desde o diagnóstico de uma condição que ameaça a continuidade da vida, e não apenas nos últimos dias. Não substituem tratamentos, somam. Não significam desistência, significam prioridade ao que importa.
 
No Hugol, essa conversa acontece onde a urgência é regra. Em um pronto socorro, chegam pessoas com dor intensa, falta de ar, medo e dúvidas. É nesse cenário que a lógica paliativa faz diferença. Quando ajustamos a dor de forma efetiva, quando explicamos o plano terapêutico com honestidade e linguagem acessível, quando perguntamos ao paciente e à família o que é essencial para eles, o cuidado muda de patamar.
 
Desde junho de 2017, nossa Comissão de Cuidados Paliativos atua para fortalecer esse olhar. O objetivo é simples e ambicioso ao mesmo tempo: disseminar princípios que tornem o cuidado mais humano, coordenado e transparente. Isso envolve formação contínua das equipes, integração entre especialidades, rotinas de comunicação clara e construção de planos de cuidado que respeitam valores e preferências de cada pessoa.
 
Há barreiras, claro. Uma das maiores é a associação automática entre paliativo e fim da vida. Esse equívoco impede que pacientes se beneficiem mais cedo de controle de sintomas, apoio emocional e decisões compartilhadas. Quando desatamos esse nó, a experiência muda. Vemos famílias mais informadas, pacientes com menos sofrimento e equipes mais alinhadas.
 
Também aprendemos que tecnologia e humanização não competem. Elas se somam. Prontuários bem preenchidos, registros objetivos de dor e de evolução clínica, escalas de sintomas e canais ágeis de comunicação entre equipes ajudam a garantir continuidade e segurança. Mas nada substitui a escuta atenta, a palavra que orienta sem confundir e o cuidado que se ajusta à singularidade de cada caso.
 
Para avançar, precisamos falar mais do tema com a comunidade. Campanhas educativas, rodas de conversa e informações claras ajudam a quebrar paradigmas. Dentro do hospital, investir em capacitação, em protocolos que respeitem escolhas e em indicadores que meçam o que realmente importa é o caminho para entregar valor em saúde.
 
No fim, cuidados paliativos não são sobre escolher entre tratar ou confortar. São sobre tratar melhor porque confortam, e confortar melhor porque tratam com propósito. É um convite para que profissionais, pacientes e famílias compartilhem decisões com honestidade e esperança realista.
 
Se pudermos levar desse outubro apenas uma ideia, que seja esta: cada pessoa merece um cuidado que alivie a dor, reduza a ansiedade e ofereça sentido ao tratamento. No Hugol, é por isso que trabalhamos todos os dias. Porque qualidade de vida não é detalhe. É direção.

*Heloise Medeiros é gerente médica no Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol).
 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Heloise Medeiros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]

Sabrina Garcez
29.10.2026
Outubro Rosa: prevenir o câncer de mama é cuidar da vida

O Outubro Rosa é uma campanha mundial de conscientização realizada anualmente, com o objetivo de informar e sensibilizar a população sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento adequado do câncer de mama. No Brasil, algumas iniciativas também ampliam o debate para a prevenção do câncer do colo do útero. Mais do […]

Fábio Prudente
28.10.2026
O que os cavalos ensinam sobre liderança — e por que isso importa para a gestão 

Ao longo da história, o cavalo acompanhou o ser humano na guerra, no trabalho, na cultura e na terapia. Hoje, seu comportamento também inspira uma reflexão sobre gestão: ele responde menos ao discurso do que à postura de quem o conduz. O cavalo percebe o ambiente, capta sinais e reage ao estado emocional de quem […]

Ives Gandra da Silva Martins
28.10.2026
A eleição presidencial: três observações e uma sugestão

A primeira observação é a de que o Tribunal Superior Eleitoral passou a ser, efetivamente, uma casa de tertúlias acadêmicas. O TSE estabeleceu as regras da eleição, e essas regras foram alteradas, com o jogo em andamento, por um ministro da Suprema Corte vinculado ao candidato que acabou vencendo — que o indicou para o […]

Paulo Lima
27.10.2026
Cidades das regiões metropolitanas são os novos polos de desenvolvimento do Brasil

Durante décadas, o crescimento econômico e social do Brasil esteve concentrado nas grandes capitais. São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e outras metrópoles atraíram investimentos, infraestrutura e mão de obra qualificada. No entanto, o cenário atual mostra uma transformação silenciosa e poderosa. As cidades que estão localizadas em regiões metropolitanas estão se consolidando como […]

Manoel Barbosa
26.10.2026
Depois das urnas, a conta da educação chega aos municípios

O segundo turno terminou. Os palanques serão desmontados, as bandeiras guardadas e, nesta segunda-feira, escritórios, prefeituras e escolas voltam à rotina. É justamente agora, com os ânimos ainda quentes, que vale fazer uma pergunta que atravessa qualquer preferência partidária: que educação os municípios brasileiros conseguirão oferecer nos próximos anos? Independentemente de quem venceu, os desafios […]