Logo

Cuidado não se programa

WhatsAppFacebookLinkedInX
05.08.2025 - 11:39:35
A inteligência artificial (IA) vem transformando diversos aspectos da vida moderna — incluindo a forma como praticamos medicina. De modo promissor, já contribui para diagnósticos mais ágeis, análises de imagens com maior acurácia e até no desenvolvimento de fármacos. No entanto, é fundamental distinguir o uso da IA como ferramenta de apoio da tentativa de substituição da prática médica por algoritmos ou autodiagnósticos digitais
 
É inegável que sistemas avançados, criados por grandes empresas de tecnologia, têm demonstrado capacidade de identificar patologias complexas com elevado grau de precisão. Ainda assim, a eficiência de um algoritmo não equivale à compreensão integral do paciente. A inteligência artificial não reconhece antecedentes emocionais, nuances clínicas individuais nem o impacto dos determinantes sociais sobre a saúde de cada pessoa.
 
A utilização indiscriminada dessas tecnologias por pacientes, sem supervisão profissional — como ocorre com aplicativos que propõem “diagnósticos” ou com o uso irrestrito de buscadores para questões médicas — representa um risco real. Uma interpretação equivocada, uma automedicação inadequada ou a omissão de sinais de alerta pode resultar em desfechos adversos. Medicina não é uma ciência exata com respostas únicas.
 
Reconhecer a IA como aliada da medicina, e não como sua substituta, é essencial. Profissionais sobrecarregados podem se beneficiar de sistemas que auxiliem na organização de dados clínicos, cruzamento de informações e formulação de hipóteses diagnósticas. Contudo, a decisão clínica deve permanecer sob a responsabilidade de quem possui a formação necessária para avaliar o contexto e arcar com suas implicações.
 
A formação médica, por sua vez, também precisa se atualizar. O médico contemporâneo — e o do futuro — deve conhecer não apenas os fundamentos da fisiopatologia, mas também compreender os limites da tecnologia, os riscos de vieses algorítmicos e os dilemas éticos do ambiente digital. Mesmo diante da sofisticação tecnológica, a centralidade do cuidado humanizado precisa ser mantida.
 
A IA tem potencial para transformar a prática médica. Mas ela ainda não escuta com empatia, não compartilha da angústia de um diagnóstico e não responde legalmente por uma falha. Enquanto isso permanecer assim — e talvez sempre permaneça —, o papel do médico continua sendo indispensável. A tecnologia pode ser poderosa, mas não cura sozinha.
 
*José Israel Sánchez Robles é médico intensivista e nutrólogo
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por José Israel Sánchez Robles

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Karina Picon
08.10.2026
Quem cuida de quem cuida?

Olhar para uma tomada cheia de adaptadores e cabos ligados ao mesmo tempo ajuda a entender o que acontece com a gente no dia a dia. Quando o cansaço bate forte, a gente costuma achar que a nossa força simplesmente acabou ou que não estamos dando conta. Mas quase nunca paramos para olhar o principal: […]

Rimene Amaral
08.10.2026
A riqueza não sobrevive à vida

A notícia de uma doença misteriosa que matou uma funcionária do Instituto de Pesquisa sobre a Peste Irkutsk (uma peste pneumônica), na Sibéria, colocou uma pulga atrás de muitas orelhas. A funcionária, de 28 anos, morreu na última semana devido a uma pneumonia, e as autoridades não divulgaram mais informações sobre a morte. O Rospotrebnadzor, […]

José Mário Schreiner
06.10.2026
Agro conectado, economia integrada

Durante muito tempo, era natural que os setores primário, secundário e terciário tivessem seus próprios espaços de discussão, negócios e exposição. Isso porque cada atividade tem suas particularidades, desafios e oportunidades. Mas a realidade mudou. As cadeias produtivas estão cada vez mais conectadas, e as fronteiras entre os setores, menos nítidas. É nesse contexto que […]

Sam Cyrous
06.10.2026
O que faz uma vida (e uma história) significativa?

Recentemente colegas e amigos têm pedido que explique o que o tal do StoryTelling — uma moda dos últimos anos no Brasil, e algo algo com o qual trabalho desde 2007. Pensei muito se escreveria sobre a minha formação com Peseschkian, o autor do clássico “O Mercador e O Papagaio”, a minha participação ativa com […]

Marcos Spadoni
05.10.2026
AVC em jovens: o risco também se constrói nos hábitos do dia a dia

Fast food em excesso, consumo frequente de bebidas alcoólicas, cigarro, sedentarismo, noites mal dormidas, estresse constante e ganho de peso. Hábitos que parecem fazer parte da rotina de muitos adultos jovens podem, ao longo do tempo, criar um terreno perigoso para a saúde vascular. Isso porque favorecem condições como hipertensão, diabetes, obesidade e alterações no […]

Ana Carla Abrão
03.10.2026
O país na segunda-feira

Ana Carla Abrão Há mais de dois mil anos, Aristóteles escreveu que nenhuma comunidade política se sustenta apenas sobre leis e instituições. Para que uma cidade exista de fato, dizia ele, é preciso haver entre seus cidadãos alguma forma de amizade. Não a amizade que nasce do afeto, da intimidade ou da afinidade. Mas aquilo […]

Lucas Almeida
01.10.2026
Antecipação do plantio de soja em Goiás: oportunidade de calendário exige disciplina de risco

A safra 2026/27 começa em Goiás com uma mudança relevante no planejamento operacional. Em caráter excepcional, a Instrução Normativa Agrodefesa nº 5/2026 antecipou a data permitida para presença de plântulas de soja emergidas no campo; a data final do calendário permanece em 2 de janeiro de 2027. São cinco dias que, isoladamente, parecem pouco, mas […]

Letícia de Araújo Morais
01.10.2026
Letramento em saúde ajuda idosos a proteger a respiração na variação do clima

Depois de semanas de ar seco, as primeiras chuvas trouxeram alívio a Goiânia. O descanso, porém, durou pouco: o tempo seco e as altas temperaturas voltaram, e agora a previsão é de nova queda nos termômetros. Essa alternância entre umidade e secura exige adaptação do organismo e costuma agravar quadros de doenças pulmonares crônicas, especialmente […]