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Criolo: ‘Sou operário. Somos todos operários’

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16.09.2011 - 12:06:28


Raisa Ramos

 

– Alô, Criolo?
– … É…
– Oi, aqui é do jornal A Redação, de Goiânia, tudo bem? Nós temos uma entrevista marcada para agora. Você pode falar?
– … Ahan…
 
Assim, monossilábico e arredio, Criolo conversou com o AR, com voz de quem não estava com muita vontade de falar sobre si mesmo. Talvez o rapper tenha cansado de protagonizar tantas matérias em veículos especializados nos últimos meses. Em julho, ele e sua mãe, Maria Vilani Cavalcante Gomes, estamparam as páginas da revista Bravo! e surpreenderam os leitores com a história de vida dos dois. Quando o pequeno Kléber, então com 14 anos, foi se matricular no colegial da Escola Estadual Professora Esther Garcia, o menino insistiu para que sua mãe, com quase 40 anos, voltasse a estudar junto com ele. O pedido foi atendido com desconfiança, mas mudou completamente o futuro da dona Maria, que deixou de ser dona de casa e hoje, exibe dois diplomas de pós-graduação, sendo um em filosofia e outro, em língua, literatura e semiótica. Kléber tentou seguir os passos da mãe, mas abandonou as duas faculdades que tentou cursar e investiu na carreira de rapper. E foi assim que Kléber virou Criolo, um dos mais elogiados artistas atuais.
 
O engraçado é que, depois de mais de 20 anos de carreira dedicada ao rap nacional, o rapaz já tinha desistido de levar a música adiante. Houve até a gravação de um DVD de despedida, em 2008, que ficou engavetado durante um tempo. "Ficava pensando 'até que ponto estou contribuindo?'. Queria parar de protagonizar os palcos", confidenciou. É nessas horas que é quase impossível não acreditar em destino. Depois da "aposentadoria" do hip hop, um amigo convidou Criolo para fazer algo diferente, um registro de músicas de outros ritmos, mostrando o lado do rapper que o público não conhecia ainda, cantando outros gêneros que não o rap. Esse foi o pontapé inicial para o "Nó na Orelha", álbum lançado no primeiro semestre deste ano, responsável por várias indicações a prêmios e pela volta de Kléber ao mundo musical. Sua aposentadoria não durou muito tempo. Ainda bem.
 
Prêmios
O nome artístico, ele explica: "Deve ser por conta do meu pai, que é um negro maravilhoso, e da minha mãe, que é uma branquinha linda". Apesar do jeito seco e da má-vontade em conceder a entrevista, é perceptível a simplicidade, tranquilidade e humildade do cantor, que reconhece a importância do seu último disco. "É um registro muito pessoal. Tem muitas músicas ali naquele álbum eu escrevi há mais de 10 anos". O trabalho, não à toa, concorre ao prêmio VMB de melhor disco do ano. Além disso, o rapper também disputa o troféu nas categorias Revelação, Melhor Música – com "Não Existe Amor em SP" -, Artista do Ano e Clipe do Ano – com o recém-lançado "Subirusdoistiozin".
 
Tantas categorias fazem com que, este ano, Criolo seja líder de indicações à premiação, juntamente com Marcelo Jeneci, que também concorre a cinco títulos. Sobre a sensação de se sentir tão prestigiado, o rapper reflete: "Fico feliz pelo reconhecimento, mas não consegui nada sozinho. Tudo o que acontece é graças aos amigos que estão ali comigo, que me conhecem, sabem a minha essência, sabem do que eu gosto". Ele completa: "Acho que só de estar ali é um prêmio, já que há tanta gente talentosa concorrendo comigo. Me sinto uma pessoa privilegiada por ter tanta gente me ajudando". Pé no chão e serenidade. Esse é o Criolo.
 
Influências
Filho de nordestinos, Kléber cresceu ouvindo músicas regionais, samba e discos de serestas, que o pai tinha guardados na estante. O resultado disso é uma pessoa apaixonada por música brasileira, sem preconceito de ritmos e com vontade de misturar todos os gêneros no seu trabalho. "Não sou um estudioso da área, nem tocar um instrumento eu sei, mas gosto de tudo na música brasileira. É muito maravilhosa", derrete-se. Talvez por isso encontrou no hip hop seu lar artístico, estilo que, segundo ele, já nasceu de uma mistura. "O rap junta um pouco do estilo do grafite, das técnicas do DJ e outros elementos, mas, ao mesmo tempo, tem seus traços muito fortes. É uma mistura positiva".
 
Nascido em família humilde, no Grajaú, distrito pobre da zona sul de São Paulo, Criolo diz que o sucesso ainda não mudou em nada sua vida: "Sou de uma família guerreira. Continuo humilde, só que agora eu trabalho. Sou operário, somos todos operários". Nas gravações de "Subirusdoistiozin", alguns elementos de sua infância ajudaram a ilustraram o vídeo, mas não quer dizer que a história ali contata seja biográfica, apesar de o rapper fazer uma confusão ao diferenciar o que é ou não realidade no clipe. "Não sei dizer se é ou não biográfico. O que eu sinto é real, então não pode ser ficção. Talvez seja biográfico, mas não ao pé da letra". E com a mesma má-vontade de conversar do início da entrevista, Kléber agradeceu e desligou o telefone.
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por Redacao Jornal

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