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José Israel Sanchez Robles (Foto: divulgação)

Crianças e remédios para obesidade

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13.05.2026 - 12:41:26

O uso de medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, presentes em produtos como Wegovy e Ozempic, entre crianças e adolescentes já é uma realidade e expõe uma contradição preocupante da sociedade contemporânea: estamos cada vez mais eficientes em tratar doenças fortemente influenciadas pelos hábitos e pelo ambiente em que vivemos. A discussão sobre essas medicações, inicialmente voltada ao controle do diabetes tipo 2 e da obesidade, deixou de ser um debate restrito aos consultórios e passou a ocupar o centro das discussões sobre saúde pública, alimentação e infância.

Os resultados clínicos apresentados até o momento são relevantes. Crianças e adolescentes submetidos ao tratamento têm demonstrado melhora do controle glicêmico, redução do peso corporal e diminuição de fatores de risco cardiovasculares. Em muitos casos, trata-se de jovens que já convivem com hipertensão arterial, resistência à insulina, esteatose hepática e limitações físicas e emocionais ainda no início da vida.

Ao mesmo tempo, é impossível não reconhecer a inquietação que acompanha esse avanço terapêutico. Ainda sabemos pouco sobre os efeitos prolongados do uso dessas medicações em organismos em desenvolvimento. Os dados de longo prazo em população pediátrica ainda são limitados, especialmente em relação a possíveis impactos no crescimento ósseo, na formação muscular, na puberdade, no comportamento alimentar e na saúde mental dessas crianças e adolescentes.

Mas talvez o ponto mais importante dessa discussão esteja sendo deixado em segundo plano. O crescimento acelerado da obesidade infantil não aconteceu por acaso, tampouco pode ser explicado apenas por escolhas individuais ou pela falta de disciplina familiar. Trata-se de uma condição multifatorial, influenciada por fatores ambientais, comportamentais, metabólicos e socioeconômicos.

Quando uma sociedade normaliza que crianças precisem de terapias medicamentosas avançadas para controlar doenças relacionadas à alimentação antes mesmo da vida adulta, estamos diante de um desafio coletivo de grandes proporções. O tratamento é necessário em muitos casos, mas jamais substituirá a prevenção. Nenhuma medicação conseguirá resolver sozinha aquilo que foi construído ao longo de anos por mudanças no padrão alimentar, forte influência do marketing de alimentos ultraprocessados e ausência de políticas públicas consistentes.

É evidente que crianças com obesidade grave e diabetes precisam de assistência médica adequada, inclusive com terapias medicamentosas quando houver indicação clínica. O erro está em imaginar que a solução definitiva virá apenas da farmacologia. É necessário ampliar a discussão sobre a qualidade da alimentação escolar, educação nutricional e acesso real a alimentos saudáveis.

A medicina avançou de maneira extraordinária, mas talvez o maior desafio atual não seja desenvolver medicamentos cada vez mais potentes. O verdadeiro desafio é construir um ambiente em que as crianças não precisem deles tão precocemente.

*José Israel Sanchez Robles é médico nutrólogo e intensivista

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por José Israel Sanchez Robles

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