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Crianças e adolescentes sofrem efeitos do isolamento social

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28.06.2020 - 08:16:48
Carolina Pessoni
 
Goiânia – A pandemia do novo coronavírus trouxe desafios enormes para os adultos, como preocupações com saúde, emprego, finanças e economia. Mas nem só os grandinhos sofrem os efeitos deste período. Especialistas alertam que é preciso entender como lidar com as crianças na quarentena.
 
As escolas e creches fechadas fizeram com que os pequenos passassem mais tempo com a família no período de isolamento social. Enquanto alguns pais precisam continuar trabalhando fora e precisam de ajuda para cuidar dos filhos, outros precisam conciliar o home office com os cuidados com as crianças.
 
A psicóloga Karla Cerávolo (ao lado), especialista em Psicologia e Maternidade, diz que para as crianças estarem bem emocionalmente é importante, primeiramente, que os adultos estejam bem também. Ela explica que as crianças sempre refletem o que estão vivendo em casa e, por isso, é importante validar o que estamos sentindo. "Nós estamos ansiosos, preocupados com o que está por vir, então é importante a gente validar para que a criança consiga colocar para fora os sentimentos dela", diz.
 
Ela explica que as crianças menores têm mais dificuldade de se expressar e, por isso, os sentimentos surgem através das brincadeiras, dos desenhos e pinturas. A psicóloga destaca que é preciso observar como está o sono da criança, a maneira como ela está brincando, como ela lida com os brinquedos e com as pessoas em casa. "Já as maiores têm mais discernimento, então devemos falar com elas sobre a importância de usar máscara, de ficar em casa, do nosso papel para que tudo isso passe logo, com cada um fazendo sua parte para voltarmos ao normal", afirma.
 
Se as crianças precisam de mais atenção, os adolescentes necessitam de mais espaço, como explica a psicóloga especialista em adolescentes Grisiele Silva. Ela diz que é importante entender que o grupo social é algo muito forte na vida do adolescente, porque ele está numa fase que tem a necessidade de um certo distanciamento da família para encontrar sua identidade. "A criança se vê como pessoa através de sua família, já o adolescente precisa se ver como indivíduo, por isso ele se afasta do grupo familiar e tem necessidade de aproximação com o grupo dos iguais, das pessoas da mesma idade, que é onde ele vai se ver como pessoa", diz. 
 
Ela explica que, por conta do isolamento social, estar distante desse grupo tem um impacto muito grande, então é importante que as pessoas que convivem diariamente com o adolescente entendam a dificuldade que ele está sentindo por estar distante, mesmo com o contato online, e acolher essa necessidade para que ele sinta que isso tem um espaço no lugar onde ele vive. "É importante ouvir, perguntar como ele está, mas também dar espaço pra que ele esteja um pouco só, mergulhado no mundo dele, e evitar as críticas para que ele não se afaste ainda mais", ressalta.
 
Uma dica importante que a psicóloga destaca é perceber se o adolescente tem algum potencial criativo, descobrir algum talento, propiciar situações em que ele possa fazer o que gosta. "Estar ocupado com alguma coisa é muito bom, porque desvincula o medo e a ansiedade com relação à doença que nos cerca. É bom ter um momento de todos estarem juntos, criar o programa da família, que o adolescente goste", diz. 
 
Grisiele (ao lado) diz que é preciso também evitar falar somente de coisas negativas, tomar cuidado com o excesso de notícias, porque traz esse sentimento de medo e angústia, que não é benéfico para ninguém, principalmente para crianças e adolescentes que ainda não têm maturidade para lidar com isso.
 
Para que este período não seja traumático, a psicóloga destaca que é preciso construir boas recordações que ficarão para o futuro. "Os adultos precisam ter habilidade de criar essas situações para que esse momento que enfrentamos deixe também marcas positivas nas pessoas que estão se desenvolvendo – tanto crianças como adolescentes – para que quando forem falar sobre a pandemia no futuro, tenham também boas lembranças", afirma.
 
Rotina
Karla Cerávolo explica que é preciso ter rotina organizada e adequada com as crianças, mesmo que diferente do que era antes. "É preciso ter o momento da tarefinha, de brincar, da televisão, e o momento de não fazer nada – que também é importante. Se a criança tem horários específicos para fazer tudo, isso ameniza a birra, a agressividade, a agitação", ressalta. 

Ela diz que muitas crianças não estão sentindo falta da escola por conta dessa rotina em casa e de terem os pais mais próximos, então se esse período está sendo traumático, significa que o clima em casa está muito ruim. "Se você lida com a realidade, fala com seus filhos de forma coerente e de forma concreta sobre o que está acontecendo, de acordo com a idade deles, tudo isso ajuda a concretizar e amenizar o impacto do sofrimento", afirma. 

 

A psicóloga Karla Cerávolo afirma que é preciso que as crianças tenham rotinas estabelecidas (Foto: Divulgação)

 
Por isso, a rotina é importante. "É preciso manter a qualidade nessa rotina, com momentos de diversão mais lúdicos. Agora está acabando o período de aulas online e é importante que as crianças tenham as suas férias, seu descanso, e que os pais estejam com os seus filhos de verdade, que façam parte da vida deles", enfatiza Karla.
 
Grisiele destaca que manter uma ocupação interessante ajuda na saúde mental de todos. Ela ressalta que viver só para a obrigação, principalmente quando ela não é muito agradável, não faz bem para ninguém. "O modo de estudar em casa, por exemplo, não está fácil de se adaptar, mas o adolescente não precisa estudar o tempo todo, e sim cumprir suas atividades e ter tempo de fazer coisas que ele goste e ache interessante", explica.
 
De um modo geral, os adultos estão muito sobrecarregados com todas as preocupações com a manutenção da família. Por isso, Grisiele lembra que só é possível cuidar bem das pessoas se estiverem bem consigo mesmos. "Não precisamos ser perfeitos o tempo inteiro, mas sim fazer o que é possível dentro das condições que temos. Por isso, é importante estabelecer prioridades e a prioridade agora é que esteja bem, mentalmente falando. Exercício físico, boa alimentação, dormir bem, por exemplo, são fundamentais para descansar e cuidar das outras pessoas", exalta a psicóloga.
 
Mãe e filhas em casa
A empresária Ana Gabriela Torres é mãe da Ana Beatriz, de 15 anos, da Ana Cecília, de 8 e da Ana Sofia, de 6 (ao lado). Ela, que tem uma escola de dança, manteve o trabalho com as aulas online e conta com a ajuda de uma funcionária para cuidar da rotina da casa e das filhas. "Continuo trabalhando em casa e na escola. No início, minha funcionária ficou de férias por 30 dias e atualmente ela vem três vezes por semana, mas não de ônibus. Esse é um cuidado que temos com ela e com a gente, afinal ela cuida do bem mais precioso que tenho: minha família", diz.
 
Para ela, a quarentena proporcionou mais união e vivências em família, como comer à mesa juntos em todas as refeições, brincar, assistir filmes. Entretanto, ela diz que percebeu que um aumento na ansiedade das filhas. "As pequenas amam a escola e é de fato o que elas mais sentem falta. Falta de brincar, de correr, de amigos, da rotina frenética", diz.
 
Ana Gabriela afirma que uma das partes mais importantes é acompanhar as atividades escolares das filhas. "Acompanhar a escola é vivenciar a importância dela na vida dos nossos filhos, a rotina é essencial em tempos de quarentena. Às vezes é natural eles não terem a vontade das aulas, precisamos saber dosar e respeitar, mas alertando sempre da importância em manter uma vida regular em momentos de pandemia, afinal voltaremos ao normal um dia", afirma.
 
A empresária destaca que o próprio isolamento mostrou a importância da família, que o trabalho não precisa vir em primeiro lugar. "Ter uma união dentro de casa já é o suficiente para mantermos um lugar de amor, companheirismo e união. Nem tudo são flores em vida familiar, mas aqui em casa estamos passando de maneira tranquila a esse desafio."
 
Filha de Ana Gabriela, Ana Beatriz, conhecida artisticamente como Bia Torres, tem 15 anos e, além de estudante, é cantora. Ela diz que este período de isolamento social está sendo um momento de descobertas e que aproveita o tempo livre para aprender coisas novas, estudar bastante, e, principalmente, cuidar dela mesma. "Uma coisa boa também é que estou podendo ficar perto da minha família toda hora, o que vou sentir falta quando a quarentena acabar. Mas apesar disso, sinto falta da minha rotina, do ballet, dos shows e viagens, dos amigos, da escola, enfim, da vida normal", diz.
 
No tempo livre ela aproveita para compor novas músicas e estudar, inclusive já para o Enem. "Mas também assisto séries, brinco com minhas irmãs e amo, em tempos livres, fazer vídeos de dança também", diz.
 

Mãe e filha, Ana Gabriela e Bia Torres têm conciliado as novas rotinas durante o isolamento social (Foto: Arquivo Pessoal)
 
Bia diz que ficou mais estressada ou nervosa com algumas coisas, principalmente com as atividades da escola, que agora ocupam mais tempo do seu dia. "Agora, com a quarentena, parece que as atividades redobraram, mas eu gosto de estudar então acaba sendo mais fácil. Temos dias melhores e piores, mas é sempre bom manter o coração calmo e esperançoso pra que tudo isso passe logo", diz.

 
Bem-estar em casa
Para a psicopedagoga Marissol Siqueira (ao lado), a quarentena veio para trazer os pais mais para perto, ajustar os laços familiares. "Não é fácil lidar com as crianças dentro de casa, sem poder sair, sem fazer as coisas que eram de costume. Mesmo não sendo fácil, é possível criar momentos em que as crianças se divirtam e se desenvolvam, para que a criança lembre dessa época com coisas boas para contar", relata.
 
Marissol diz que é necessário que os pais tenham o papel de orientar os filhos, explicar, principalmente para os menores, o que é esse momento, o que é a quarentena, a covid, porque os cuidados. "As informações trazidas pelos pais são mais seguras do que as da televisão. É preciso que essas informações sejam claras, de forma que a criança entenda que tudo isso vai passar alguma hora. Mas, enquanto não passa, que tal vivermos esses momentos juntos de uma forma que traz conforto?", diz.
 
A psicopedagoga traz algumas dicas para melhorar o bem estar de todos em casa, como estimular a criança a fazer outras atividades no horário das notícias para preservar o emocional, seus medos, suas angústias com relação a esse momento. Outra sugestão é a criação um quadro de rotina para organizar a casa, já que estão todos juntos. "Todo mundo sabe de suas obrigações e que cada um vai ter o seu momento particular", afirma.
 
Ela diz ainda que é imprescindível observar as orientações da escola a respeito das aulas on line e procurar segui-las, mostrando a importância da professora nesse momento. Os pais devem, principalmente, manter a rotina de estudos, aproveitar para novas leituras, cultivar novos hábitos, mostrar o "lado bom" da tecnologia, mas estar atento aos horários dos eletrônicos.
 
Outras atividades indicadas para entreter as crianças são filmes, brincadeiras antigas – como pular corda, passar anel e pique-esconde. "Vamos resgatar essas memória com as brincadeiras, jogos de dama, forca, tudo sem gastos. É possível fazer do tempo livre momentos de prazer, de descontração, porque já é muito pesado estar o tempo todo em casa, com a proibição de sair", diz a psicopedagoga.
 

Para Marissol Siqueira, os pais devem cultivar novos hábitos com os filhos (Foto: Arquivo pessoal)
 
Marissol diz que essas atividades tiram o stress, revigoram, trazem de volta o sorriso e a calma que a casa precisa. "Isso é um aprendizado para o mundo todo tirar algo de bom. Vai ser o início de uma nova caminhada para todo mundo e temos que estar preparados e fortalecidos para o novo mundo que nos espera", finaliza.
 
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por Lucas Cássio

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