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Córrego Botafogo: a linha d’água que moldou Goiânia

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14.11.2025 - 15:58:48
Carolina Pessoni
 
Goiânia -Antes de ser avenida, canal ou rota de deslocamento rápido, o Córrego Botafogo foi literalmente o fio que costurou os limites da nova capital. Elemento natural estruturante, ele aparece no Plano Original de 1933, de Attilio Corrêa Lima, como uma das bordas que “abraçavam” Goiânia, junto ao Córrego Capim Puba. 
 
Era o traço de água que demarcava o nascente município e, ao mesmo tempo, garantia o abastecimento da cidade que começava a nascer. A professora de Projeto Urbano e Paisagístico da PUC-GO e conselheira federal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), Lana Jubé, resume esse papel de origem com precisão. "Não era só uma delimitação da cidade, era também o córrego de abastecimento."
 
A escolha do sítio urbano de Goiânia não foi estática. Lana lembra que o terreno inicial ficaria mais acima, mais próximo da Serrinha, mas Attilio deslocou a implantação por um motivo essencial.
 

Margens do Córrego Botafogo nos anos 1930 (Foto: Alois Feichtenberger)
 
"Quando o Attilio veio para Goiânia, ele 'desceu' o projeto por causa das chuvas torrenciais que poderiam lavar a cidade, trazendo o desmatamento e o assoreamento para o Botafogo, que era o leito de abastecimento', explica.
 
A proteção do córrego e da mata de galeria que o resguardava influenciou diretamente na posição final do núcleo urbano. É o tipo de decisão que revela o espírito da época: uma cidade que não foi projetada como cidade-jardim, mas que incorporava princípios de cidade-parque, com atenção às cumieiras, às áreas verdes e ao equilíbrio entre urbanidade e natureza.
 
Ao longo dos anos 1930 e 1940, as margens do córrego também acolheram quem construiu a cidade. "Vila Nova e Nova Vila são bairros às margens do córrego e foram os locais onde os trabalhadores que vieram de fora para a construção da cidade de Goiânia foram colocados", explica Lana.
 

Córrego Botafogo na década de 1970 (Foto: Reprodução/Fotos Cidade de Goiás e Goiânia)
 
O córrego seguia como referência, limite e guia — um verdadeiro costureiro de territórios. Pesquisas urbanísticas confirmam que o Botafogo estava no centro das propostas de parques lineares, alamedas e corredores ecológicos que atravessariam Goiânia de norte a sul, interligando fragmentos de vegetação e estruturando o tecido urbano. Esse planejamento, porém, jamais foi implementado como previsto.
 
No fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, a história tomou outro rumo. A cidade avançou para além dos limites naturais, ocupou as faixas de proteção e trocou o parque linear por canalização e asfaltamento.
 
Lana lembra que participou, ainda como estudante de arquitetura, do movimento que tentou impedir a intervenção. E resume seu diagnóstico, décadas depois, com contundência. "A marginal poderia existir sem a canalização do córrego. Foi um equívoco imenso e um desastre ecológico."
 

Córrego foi canalizado para a construção da marginal (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
 
Os efeitos, conhecidos por qualquer morador de Goiânia, são recorrentes: transbordamentos durante chuvas fortes, deslizamentos, fendas no asfalto e assoreamento contínuo. Nada disso surpreende especialistas: impermeabilização de fundo de vale e ocupação de área de preservação permanente costumam cobrar sua fatura.
 
Mesmo canalizado, o Botafogo permanece sendo um grande afluente do Meia Ponte. E, como lembra Lana, sua importância extrapola as fronteiras do município. "Goiás é um dos divisores das águas. Nós irrigamos o Brasil", enfatiza.
 
É por isso que ela insiste que a recuperação é possível e, mais do que isso, necessária. O Botafogo nasce em grotões acima de Goiânia, percorre o coração da cidade e carrega consigo uma memória que não se perdeu: a de um rio central, caudaloso, que poderia ter sido — e ainda pode ser — o grande parque linear da capital.
 

Recuperação do fundo de vale do Córrego Botafogo traria benefícios para a cidade, explica a professora Lana Jubé (Foto: Rodrigo Obeid/A Redação)
 
"A recuperação da bacia do Botafogo pode se transformar num grande parque para Goiânia. Seria mais do que um projeto ambiental. Seria a devolução de um pedaço da história urbana da cidade", diz Lana.
 
Um parque que resgata a origem, reduz riscos, melhora o clima, purifica o ar, devolve biodiversidade e reconecta a população ao curso d’água que ajudou a desenhar Goiânia. "A mata e o rio limpam a atmosfera. A recuperação de uma área verde e de rio está muito além do que podemos pensar em termos do que a cidade ganha", encerra a professora.
 
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