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Coragem, rapaz

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03.10.2011 - 12:59:15

 

 
Se você conheceu uma mulher interessante, foi à luta, conquistou a moça e agora, algumas semanas depois, está arrependido do que fez porque não quer namorar sério, pare um minutinho aqui. Me dê um pouco do seu precioso tempo. A coluna de hoje é dedicada a você, prezado leitor.
 
Tomo a liberdade de discutir a relação com você, em nome de várias leitoras que têm me enviado e-mails pedindo isso. Não, não é uma bronca. Nem mesmo um puxão de orelhas. Digamos que seja, apenas, uma reflexão que pode ajudar a evitar que muitos corações se partam, incluindo o seu.
 
A história é clássica: ao bater os olhos na moça, você concluiu que ela era tudo de bom. Bonita, divertida, inteligente e sexy. Foi paixão à primeira vista. Empolgado, você decidiu conquistá-la de qualquer jeito. Jogou charme, elogiou, chamou para sair. E tanto fez que ela acabou cedendo.
 
Você ligava todos os dias, mandava torpedos apaixonados, saía com ela todos os finais de semana e apresentou-a para os seus melhores amigos. No começo, ela ficava na defensiva, achando empolgação demais para muito pouco tempo. Mas diante da sua insistência, acreditou que você estava mesmo apaixonado.
 
Um dia, seja porque ela te convida para conhecer os pais dela, ou porque alguém pergunta se vocês são namorados e ela dá um sorrisinho malicioso, sua ficha cai. É isso aí: vocês estão namorando. Indignado e perplexo, você entra em pânico. Afinal, você nunca, jamais, em tempo algum disse que isso era um namoro.
 
De fato, você não disse. Mas fez pior. Você agiu como se fosse namorado dela. Deu todos os indícios de que não se tratava de um rolo, de uma ficada sem compromisso. No auge da sua empolgação, você se comportou como aqueles seres popularmente conhecidos como “namorados”.
 
Vamos deixar claro: rolo não liga todos os dias. Não manda dezenas de mensagens apaixonadas. Não quer ficar junto todos os finais de semana. Não apresenta o par pros melhores amigos. Não diz que a mulher é perfeita, que está apaixonado por ela e que ficaria mal se a visse com outro cara.
 
E eu sei que você sabe disso. Você sempre soube a diferença entre um relacionamento sem compromisso e um namoro. O problema é que você ficou tão empolgado com a moça, que nem pensou nas consequências dos seus atos e palavras. Agiu por impulso. É aí, justamente aí, que reside o problema.
 
Quando você para de sentir e começa a pensar, já é tarde. Ela já está apaixonada, envolvida. Sem graça de dizer que não era nada disso o que queria, você começa a tomar chá de sumiço. Não atende as ligações dela. Não procura. Não manda e-mails. Incorpora o Herculano Quintanilha e desaparece. 
 
Quando ela finalmente consegue te achar, você, muito sem jeito, diz que não há nada de errado. Você só está cansado, sem vontade de sair. Promete que vai ligar. Mas nós dois sabemos que você não vai ligar. Sem querer ferir aquela mulher tão doce e apaixonada, você prefere se calar e deixar que ela conclua sozinha o fora que levou. 
 
Eu te entendo. Do fundo do meu coração, juro que te entendo. Embora eu seja hétero, sei que há mulheres tão envolventes e interessantes, que seu eu fosse bi ou homossexual jamais daria conta de dispensar. Mas não te apoio. Por mais difícil que pareça, é preciso ser honesto. É preciso ser sincero.Não há nada pior do que não entender uma situação. Do que imaginar mil coisas e não encontrar uma razão forte para justificar os atos de uma pessoa. Deixar alguém à deriva, sem saber o quê pensar nem como agir é cruel. Mudar as regras do jogo no meio da partida é covardia.
 
Assim sendo, não prometa o que você não pode cumprir. Não dê corda para ninguém se enforcar. Se você não quer compromisso, deixe isso bem claro de cara. Deixe que essa mulher lhe veja como você realmente é: um cara legal, que não quer namorar sério agora. Não como um canalha, um mentiroso, um fraco.
 
Até porque, caro leitor, a gente nunca sabe o dia de amanhã. Hoje você não quer compromisso com ela, mas coração é terra de ninguém. Tem razões que a própria razão desconhece. Se você se apaixonar perdidamente, vai ficar louco para namorar essa mulher. Mas se você a tiver magoado muito, a chance disso acontecer é nula.
 
Se a coisa estiver rolando há algum tempo e o estrago for inevitável, pare de adiá-lo. Lembra-se daquela coragem que você teve para chegar nela na época da paquera, sem temer um fora homérico? Daquela coragem que você teve na hora de chamá-la para sair, ignorando o risco de levar um sonoro “não”? Use-a.
 
Arme-se de toda a sua coragem e diga a ela que você não quer namorar. Fale que pode até mudar de ideia no futuro, mas que agora é só um rolo. Dê a ela o direito de escolha. O direito de decidir se acaba com a história logo, ou se continua ficando com você, ciente da real situação. E assuma também a sua escolha.
 
Não é mole, mas vida de adulto é isso aí. Dá à gente o bônus da independência, e também o ônus de arcar com as conseqüências de tudo o que faz ou deixar de fazer. Não iluda ninguém e também não se iluda. Nesse caso, ao contrário do que dizia o poeta, mentiras sinceras não interessam.
 
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por Fabrícia Hamu

*Jornalista formada pela UFG e mestre em Relações Internacionais pela Université de Liège (Bélgica)

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