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Paulo Gustavo Schroff adaptou parte da recepção da clínica veterinária da família e abriu um empório em frente ao Verte Marista (Foto: Michelly Rabello/A Redação)

Cooperativismo habitacional movimenta economia e promove desenvolvimento regional 

Geração de empregos, movimentação de comércio, demanda por serviços e novas oportunidades para fornecedores estão entre os tópicos analisados pelo setor

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06.11.2026 - 09:58:27

Michelle Rabelo e Catherine Moraes 

Goiânia – Em junho deste ano, Paulo Gustavo Schroff, de 35 anos, decidiu abrir uma loja de conveniência na Rua 145, no Setor Marista, em Goiânia, o Marista Store Empório e Conveniência. Adaptou parte da recepção da clínica veterinária da família para instalar o novo negócio, de olho em um público que crescia na região: moradores de novos empreendimentos residenciais e trabalhadores da construção civil. A iniciativa ilustra um movimento que vai além da entrega de apartamentos. Em Goiás, cooperativas habitacionais movimentam milhões de reais em obras, contratam trabalhadores e mobilizam fornecedores, mas seus efeitos também podem chegar ao comércio e à prestação de serviços nos bairros que recebem novos moradores. 

Rua 145, no Marista, ganhou novos empreendimentos após lançamento do Maison Verte Marista,
da Cooperluxo (Foto:
Michelly Matos)

 

A rua 145 ganhou um outro público com a chegada de novos empreendimentos como o Maison Verte Marista e obras como a do House Marista, previsto para ser entregue em dezembro de 2029. Os dois empreendimentos têm um ponto importante em comum: ambos são empreendimentos construídos por cooperativas de habitação (Cooperluxo e Cooper House, respectivamente) e garantem, em um dos pontos mais nobres da cidade, um valor até 40% abaixo do tradicional valor de mercado. No cooperativismo habitacional, esse processo começa ainda antes da entrega das chaves, com a contratação de mão de obra, a compra de materiais e serviços e a transformação dos arredores do empreendimento. 

Esse novo público da região vai a pé até os comércios locais, compra diariamente e precisa de produtos, principalmente de alimentação, de forma imediata. E foi nessa transformação que Paulo viu uma oportunidade de negócio. 

Trabalhadores das obras se transformam em público consumidor dos comércios da região (Foto: Michelly Matos)

 

Com uma área de aproximadamente 484 m², o Guinefort Centro Veterinário, está localizado na Rua 145, no Marista há mais de 30 anos e acompanhou não só as mudanças do bairro, mas também o crescimento da cidade e a transformação do comportamento dos consumidores. O local, que chegou a atender 1 mil cachorros por mês em banho e tosa, hoje recebe cerca de 30 animais para consultas dermatológicas e oftalmológicas por mês. Paulo Gustavo, que trabalhava como personal trainer, assumiu a administração do empreendimento familiar há 10 anos, com a saída do pai e, agora, decidiu diminuir uma parte da recepção e abrir um negócio próprio que começou há 5 meses: Marista Store Empório.

Negócio começou há 5 meses e atende moradores e trabalhadores da região (Foto: Michelly Matos)

 

“Quando os bares localizados aqui na região fazem eventos especiais, começamos os atendimentos em uma espécie de ‘esquenta’. Nas obras, os trabalhadores compram muito lanche e refrigerantes. Os moradores compram coisas pontuais para não terem que ir a um grande supermercado e estamos crescendo de forma muito rápida. Começamos a atender às 10 horas, mas agora que comecei a vender salgados, estou atendendo mais cedo, principalmente para os trabalhadores das obras e vendendo também com aplicativos de entrega”, explica Paulo. 

Inês Schroff, de 68 anos, é mãe de Paulo. Veterinária, especialista em dermatologia animal, ela e o marido administravam a Guinefort Centro Veterinário, que também foi, por muitos anos, petshop. “Fui uma das primeiras da cidade e aqui no bairro só tínhamos casas. O transporte também era rápido com uma cidade que tinha muito menos trânsito que hoje. Com o passar dos anos, nossa clientela, principalmente de Petshop, diminuiu. Hoje, temos uma onda de atendimento domiciliar. Muitos animais sequer saem de casa. E quando saem, geralmente são atendidos no próprio bairro. Mantivemos a clínica e temos clientes antigos, de décadas, mas estamos vendo a transformação da região do Marista”, completa a veterinária. 

 

O Paulistinha Sanduíches, que antes tinha sua cozinha localizada no Setor Oeste,
se mudou para o Marista (Foto:
Michelly Matos) 

 

Paulo não foi o único a enxergar naquela rua um potencial de negócio. O Paulistinha Sanduíches, que antes tinha sua cozinha localizada no Setor Oeste, encontrou, há 7 meses, um novo ponto estratégico. Presente em mais de 15 cidades brasileiras e com matriz em Cuiabá (MT), a sanduicheria em Goiânia não possui atendimento presencial e atua apenas com delivery pelo Ifood, mas a nova localização na Rua 145, do Marista, lhe garantiu entrar na rota de quem mora em Aparecida de Goiânia por conta das regras do aplicativo, que permite um raio de 15 km de distância para o atendimento delivery. Além disso, o atendimento via WhatsApp cresceu com os moradores da rua que pedem pelo celular e fazem a retirada. A franquia de sanduíches entrega hoje mais de 100 pedidos diários, com funcionamento de 10h até meia noite.

“Mudamos do Setor Oeste porque aqui é um local mais estratégico para os pedidos de Aparecida de Goiânia, mas também tivemos ampliação no atendimento de whatsapp pelos moradores da região. Eles fazem o pedido e vêm até aqui fazer a retirada, quase sempre a pé”, explica a gestora da unidade, Miriam Carvalho, de 42 anos. O local conta atualmente com uma equipe de 10 pessoas. 

Atividade econômica das cooperativas habitacionais

Em Goiás, as cooperativas habitacionais também envolvem centenas de trabalhadores e uma extensa rede de fornecedores. Os números dão dimensão da atividade econômica gerada durante a construção. O presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira, reconhece que as cooperativas habitacionais geram impactos que vão muito além da entrega de moradias. “Elas movimentam a cadeia da construção civil, estimulam o comércio, contratam serviços especializados e geram empregos diretos e indiretos. Além disso, os novos empreendimentos contribuem para o desenvolvimento urbano e para o fortalecimento da atividade econômica nas regiões onde são implantados”, acrescenta. 

Luís Alberto Pereira, presidente do Sistema OCB/GO (Foto: Sistema OCB/GO)

 

Na Cooperluxo, as cinco cooperativas singulares vinculadas à central já movimentaram aproximadamente R$ 210 milhões em cinco empreendimentos, entre projetos entregues e em andamento. A organização reúne 453 cooperados e 287 pessoas que trabalham atualmente em três empreendimentos. No Vigore Marista, o pico chegou a 171 trabalhadores neste ano. A rede de fornecedores também é formada majoritariamente por empresas goianas. Das mais de 150 empresas que fornecem materiais ou prestam serviços às cooperativas, 133 são do estado.

O presidente da Cooperluxo, Gláucio Madeira de Souza, estima que entre 70% e 80% dos recursos utilizados nas obras permaneçam em Goiás. Ele explica que a construção envolve uma cadeia de atividades que vai da elaboração dos projetos à execução, passando pela compra de materiais e contratação de serviços especializados. 

 O presidente da Cooperluxo, Gláucio Madeira de Souza, explica que a construção de
um imóvel movimenta uma cadeia de atividades (Foto:
Arquivo pessoal)

 

A Cooperluxo surgiu em 2016, com a criação da sua primeira cooperativa habitacional, e constituiu a central em 2022. Segundo Gláucio, a organização foi estruturada a partir de um modelo de integração entre cooperativas, semelhante ao adotado no sistema financeiro cooperativo.

Um dos empreendimentos citados pelo presidente é o Maison Verte Marista, apontado por ele como pioneiro na região onde foi construído. Na avaliação de Gláucio, a chegada do projeto contribuiu para atrair a atenção de outras empresas para a área. “Era uma região predominantemente de barracões. Depois, várias outras empresas começaram a olhar para aquele espaço. Hoje estamos vendo muitas obras verticais subindo naquela região”, relata.

Maison Verte 2 foi um dos pioneiros na região onde foi construído e atraiu atenção de outras empresas
(Foto:
Michelly Matos)

 

O presidente pondera que a transformação urbana não pode ser atribuída exclusivamente à cooperativa. Ele observa que outros empreendimentos, inclusive de empresas tradicionais, também participaram do processo de ocupação e desenvolvimento da região. 

A chegada de novos moradores, segundo Gláucio, amplia a demanda por serviços e estabelecimentos comerciais. Academias, salões de beleza, pet shops e escolas estão entre as atividades que podem ser beneficiadas pelo aumento da população residente. “No caso do Setor Marista e de outras regiões de Goiânia, a transformação urbana resulta de múltiplos fatores, incluindo investimentos públicos e privados, infraestrutura, mercado imobiliário e crescimento econômico. As cooperativas habitacionais podem ser um dos agentes desse processo”. 

Recursos que circulam em Goiás

Na CooperaCinco, a movimentação acumulada desde o início das operações em 2007 é estimada em R$ 1 bilhão. Até hoje a cooperativa concluiu cinco empreendimentos, com 700 famílias cooperadas e que já receberam as chaves. Ao longo da trajetória da cooperativa, aproximadamente 1,5 mil cooperados participaram dos projetos.

Um dos diretores da cooperativa, Bruno dos Santos Vasconcelos, explica que o valor das operações corresponde aos custos diretos das obras, incluindo terrenos, materiais, mão de obra própria e terceirizada. Segundo ele, há ainda uma movimentação econômica que começa depois da entrega dos apartamentos e não entra nessa conta. “Depois que o prédio fica pronto, movimentamos o comércio de cortinas de vidro, móveis planejados, móveis para apartamento, escritórios de arquitetura, granito. Tudo o que envolve o acabamento. A pessoa recebe o apartamento vazio e precisa mobiliar, decorar e pintar do jeito que quer. Isso também movimenta a economia”, afirma.

Bruno dos Santos Vasconcelos é um dos diretores da Cooperacinco, cooperativa
que já movimentou mais de R$ 1 bilhão 
(Foto: Arquivo pessoal) 

 

Atualmente, a CooperaCinco tem aproximadamente 500 trabalhadores diretos em suas obras. Em um único empreendimento, o pico chegou a 150 profissionais. A cooperativa também contabiliza 5.358 fornecedores, dos quais 674 são de Goiânia ou de Aparecida de Goiânia. Neste momento, a cooperativa mantém cinco obras em andamento: Gran Paris, no Setor Bueno e Gran Parque, no setor Marista, além dos Gran Home, Gran Office e Gran Studios, no Jardim Goiás. Os três últimos tiveram as obras iniciadas neste mês. 

Para Bruno, a geração de empregos representa uma das principais contribuições do setor. “Muitos colaboradores são chefes de família e durante a obra ganham muito bem, já que o mercado está aquecido. São profissionais que acabam sendo muito valorizados com salários acima da média”, reforça. 

Desenvolvimento que precisa ser medido

Para o professor Juliano Lima Soares, da Faculdade de Administração e Ciências Econômicas da Universidade Federal de Goiás (UFG), o cooperativismo habitacional tem potencial para contribuir com o crescimento e a estruturação das cidades. Os efeitos começam na própria construção, com a contratação de trabalhadores e a compra de materiais, mas podem se estender à dinâmica econômica das regiões que recebem novos moradores.

“O fato da construção de prédios ou condomínios verticais, por si só, já fomenta o desenvolvimento, gerando emprego, movimentando a economia por meio das compras locais e aumentando o tíquete médio do metro quadrado. O cooperativismo tem um papel de protagonismo nesse processo”, avalia.

 O professor Juliano Lima Soares, da Universidade Federal de Goiás (UFG), avalia os impactos do cooperativismo
habitacional no crescimento e na estruturação das cidades (
Foto: Arquivo pessoal) 

 

O professor também chama atenção para uma característica do modelo: a participação dos cooperados na construção do empreendimento. Para ele, a experiência pode fortalecer os princípios de colaboração e a relação entre os participantes, que não se limita à aquisição de um imóvel. “Os cooperados buscam um entendimento maior sobre o cooperativismo, compreendem o modelo de negócio e isso gera um ambiente muito virtuoso de debate. É um espaço de respeito e harmonia entre os participantes”, afirma.

Na avaliação de Juliano, a presença de cooperativas também pode estar relacionada a indicadores sociais e econômicos dos municípios, como emprego, renda e qualidade de vida. Ele ressalta, contudo, que a relação entre cooperativismo e desenvolvimento é de mão dupla: as cooperativas podem impulsionar a economia, mas também encontram condições para crescer em regiões que já apresentam desenvolvimento.

Presidente da OCB Goiás, Luís Alberto Pereira, pontua que a mensuração desse impacto exige estudos específicos sobre a origem dos fornecedores contratados, da mão de obra utilizada e dos tributos recolhidos durante a execução dos empreendimentos. “Embora não exista hoje um levantamento consolidado para todo o segmento em Goiás, é possível utilizar indicadores como volume de compras locais, número de empregos gerados, contratação de empresas goianas e movimentação econômica induzida para estimar o efeito multiplicador dos investimentos. O cooperativismo tem como característica priorizar relações próximas e o desenvolvimento local, o que tende a ampliar a retenção de riqueza nas comunidades onde os empreendimentos são realizados”, completa o presidente do Sistema OCB/GO. 

Primeira cooperativa habitacional foi fundada em 1975 

O cooperativismo habitacional em Goiás possui uma trajetória consolidada. A primeira cooperativa habitacional do Estado foi a Hab Anhanguera, fundada em 1975. Atualmente, Goiás conta com 22 cooperativas habitacionais registradas e ativas na OCB Goiás.  Ao longo dos anos, o segmento evoluiu significativamente em termos de gestão, governança, segurança jurídica e transparência. Se nas primeiras experiências o foco estava essencialmente no acesso à moradia, hoje as cooperativas atuam com processos mais estruturados, planejamento financeiro, participação democrática dos cooperados e acompanhamento técnico especializado. Além disso, o Sistema OCB/GO desenvolveu mecanismos de orientação e conformidade que contribuem para fortalecer a credibilidade do modelo e ampliar a proteção aos cooperados.  

Em 2022, o Sistema OCB Goiás lançou um Selo de Conformidade para reconhecer cooperativas habitacionais que atendem critérios estabelecidos de regularidade, governança e boas práticas de gestão. O objetivo era oferecer mais segurança aos cooperados, fortalecer a transparência das operações e valorizar as organizações que atuam de acordo com os princípios cooperativistas e a legislação vigente. Além de servir como referência para quem busca ingressar em uma cooperativa habitacional, o selo contribui para diferenciar cooperativas legítimas de iniciativas que utilizam indevidamente o modelo cooperativista, fortalecendo a credibilidade do segmento perante a sociedade. 

70 anos de cooperativismo em Goiás

O desenvolvimento promovido pelas cooperativas também se insere na trajetória do Sistema OCB Goiás, que completa 70 anos em 2026. “Celebrar os 70 anos da OCB Goiás é reconhecer uma história de união, trabalho e compromisso com as pessoas. Na Cooperacinco, acreditamos que cooperar é somar esforços para transformar sonhos em conquistas. E ter uma instituição que representa e fortalece as cooperativas faz toda a diferença nessa caminhada”, enfatiza Bruno dos Santos. 

Presidente do Sistema OCB/GO, Luís Alberto Pereira afirma que ao completar 70 anos, o sistema consolida uma trajetória de representação, defesa e fortalecimento das cooperativas goianas. Ele explica que ao longo dessas sete décadas, a atuação da entidade evoluiu da organização institucional do movimento cooperativista para uma agenda mais ampla, voltada à governança, inovação, capacitação, sustentabilidade e desenvolvimento econômico regional. 

OCB Goiás completa 70 anos em defesa do fortalecimento das cooperativas goianas (Foto: Divulgação)

“O cooperativismo teve papel decisivo no crescimento de Goiás ao promover inclusão econômica, geração de emprego, distribuição de renda e oportunidades em diferentes setores, como agropecuária, crédito, saúde, transporte, trabalho e habitação. Hoje, o modelo cooperativista contribui para o desenvolvimento sustentável dos municípios ao manter riqueza, investimentos e oportunidades próximas das comunidades onde atua”, acrescenta. 

O principal legado, de acordo com Luís Alberto, é consolidar o cooperativismo como um modelo cada vez mais relevante para o desenvolvimento econômico e social de Goiás. “O Sistema OCB/GO trabalha para fortalecer cooperativas mais competitivas, inovadoras, sustentáveis e alinhadas às melhores práticas de governança. O objetivo é ampliar a capacidade do cooperativismo de gerar oportunidades, promover inclusão, desenvolver comunidades e oferecer soluções para desafios econômicos e sociais cada vez mais complexos. Mais que celebrar uma trajetória de 70 anos, a proposta é preparar o cooperativismo goiano para liderar transformações positivas nas próximas décadas”. 

Para o professor Juliano, conhecer a história do movimento cooperativista é fundamental para compreender sua atuação atual e projetar os próximos passos. “Se nós não estudarmos a trajetória do cooperativismo, não conseguiremos entender o presente nem prospectar o futuro do cooperativismo no contexto goiano e brasileiro. Entender como aconteceu, quais foram os movimentos, o volume e os impactos ao longo desses 70 anos é indispensável para projetar os próximos anos”, afirma.

O professor participa, por meio do Laboratório de Contabilidade, Inovação e Sociedade da UFG, da proposta de criação de um curso de bacharelado em cooperativismo na universidade. O projeto está em fase de avaliação. A expectativa é formar profissionais especializados na gestão desse modelo de negócio e ampliar a produção científica sobre o setor em Goiás.

Para Juliano, a formação acadêmica pode contribuir para fortalecer as cooperativas e produzir pesquisas capazes de demonstrar, com mais precisão, sua participação na geração e distribuição de riqueza e na criação de empregos.

 

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por Ludymila Siqueira

*Repórter

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