Jales Naves
Especial para AR
Goiânia – Transferir a capital federal para o interior do Brasil era uma ideia que vinha do século XVIII e que consolidou-se com a Constituição de 1891, ganhando força justamente num momento em que o país enfrentava forte instabilidade institucional. Estudioso da história, religioso e preocupado com a situação nacional, Juscelino Kubitschek enxergou a oportunidade de união nacional na proposta feita no comício de Jataí, em março de 1955, e decidiu construir Brasília. A afirmação é do historiador francês Laurent Vidal, ao falar, na manhã desta quarta-feira (8/7) no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, sobre “Trazer o mundus em Goiás – Brasília, a capital sonhada de JK”.
Na ocasião, ele explicou que os estudos já tinham sido concluídos, que a Constituinte de 1946 aprovou a nova Capital no Planalto Central e que os recursos já estavam assegurados. “Não foi apenas uma façanha arquitetônica ou uma aposta no desenvolvimento do interior do país. Foi, antes de tudo, um gesto político concebido para reconstruir o tecido rasgado da Nação brasileira”, disse. Ao longo da história, explicou o historiador, a ideia de construir uma capital longe do litoral mostrava-se eficaz como projeto simbólico para apaziguar crises e desviar a atenção de outros problemas políticos. Mas ninguém, até então, havia demonstrado real interesse em executá-la.
Na abertura do evento, a pianista Andrea Teixeira, professora da Escola de Música da Universidade Federal de Goiás e presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, tocou três canções: “Gente humilde”, de Chico Buarque, 1970; “Apanhei-te cavaquinho”, de Ernesto Nazareth; e “Luzes da ribalta”, de Charles Chaplin.
Simbolismo político
Professor de História Contemporânea da Universidade de La Rochelle, na França, Vidal é autor do livro “De Nova Lisboa a Brasília – A invenção de uma capital”. Para realizar sua pesquisa, o historiador mergulhou em arquivos, discursos e bastidores que moldaram a nova capital. A investigação revelou episódios pouco conhecidos, como o fato de que Juscelino só abraçou a ideia da transferência da capital após constatar, por meio de pesquisas de opinião, a necessidade de um símbolo popular para sua campanha. “Quando formaliza sua candidatura à Presidência da República em nenhum momento ele pensa na mudança da capital”.
A situação mudou quando sua equipe de campanha percebeu que o Plano de Metas, sua principal plataforma eleitoral, não era bem compreendido e tampouco despertava entusiasmo no eleitorado. A promessa da nova capital foi então lançada num comício cuidadosamente encenado em Jataí, quando Antônio Soares Neto, conhecido como Toniquinho JK, o questionou sobre o artigo constitucional que previa a transferência. Ele se aproveitou da capacidade histórica da ideia de mudança da capital em dar uma coesão nova na sociedade.
Outra curiosidade: a escolha da data de inauguração não teve relação com o cronograma das obras, mas sim com seu simbolismo político. O dia 21 de abril reunia, ao mesmo tempo, a fundação mítica de Roma, a véspera da chegada dos portugueses ao Brasil e o martírio de Tiradentes unindo Império, colonização e República em um só gesto.
Como relatou, Brasília não nasceu sem dor: os trabalhadores enfrentaram jornadas exaustivas, ausência de direitos trabalhistas e até massacres silenciados pela euforia nacional. Para Vidal, o verdadeiro retrato de Brasília está nessa contradição: “Essa modernidade foi construída por pessoas que representavam o arcaísmo que o Brasil queria apagar. Afinal, houve uma dialética entre modernidade e arcaísmo. Não tem modernidade nem arcaísmo. Prá mim, como historiador, é um espelho maravilhoso do Brasil, onde se articulam vários níveis de realidade e de imaginário. Essa construção mestiça nasceu na luta e a luta continua”.
Desencanto
Ao participar como debatedor, o professor Eliézer Cardoso de Oliveira, doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília e mestre em História pela UFG, afirmou que a transferência da Capital para o Planalto Central foi uma utopia que mobilizou grande parte da elite goiana, citando nomes como Henrique Silva, Americano do Brasil, José Ludovico de Almeida, Altamiro de Moura Pacheco e Jerônimo Coimbra Bueno. Para ilustrar esse fascínio utópico em relação à nova Capital Federal apresentou um trecho do artigo “Salve Brasília”, de Zoroastro Artiaga, que a saudava como “um convite à independência econômica, a quebra da tutela secular, a marcha para a liberdade e para a felicidade”. Para ele, Brasília representava o paraíso perdido, impulsionadora do desenvolvimento do Brasil e a felicidade para os seus habitantes.
Passada a euforia da inauguração, muitos intelectuais goianos viram que Brasília não correspondeu a todas as expectativas e mobilizações realizadas. “A cidade passou a ser vista como um enclave, um artefato alienígena que não se integrou plenamente ao território goiano”, afirmou, citando Gilberto Mendonça Teles e seu poema “Capital”, de 1982. Dois anos depois Bernardo Élis, em seu conto “Urbanização (Relatório)”, faz ácida crítica: “É a construção de uma cidade moderna no mais avançado país do Terceiro Mundo, com a intenção provável de caçoar da modernidade da Capital brasileira”. Ao contrário das expectativas, a cidade “provocou a ruína do país, trazendo a fome, o autoritarismo e a opressão social”, afirmou.
Sócio internacional
O presidente do IHGG, Jales Mendonça, reconhece em Laurent Vidal o maior pesquisador estrangeiro sobre o Brasil na atualidade, que já lecionou em diversas universidades brasileiras, e é um estudioso sobre as questões nacionais, em especial sobre Goiás. Ele defendeu o Instituto goiano em reuniões no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, do qual é sócio correspondente internacional, sugerindo que abrisse espaço para Goiás e para os goianos nessa centenária instituição cultural, o que oportunizou a visita de outros integrantes do IHGB ao Estado, o ingresso de Jales Mendonça na instituição e Goiás sediar um Colóquio Nacional de institutos estaduais.
Na sequência, Vidal ganhou o título de sócio correspondente internacional do IHGG, o primeiro concedido pela atual gestão.
