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(Foto: Igor Holderbaum)

Consolidação das ruínas de antiga igreja colonial no interior do RJ entra na reta final; entrega está prevista para julho

Antiga Capela de São José da Boa Morte, construída no século 18, irá abrigar centro comunitário, fortalecendo o patrimônio histórico e o turismo em Cachoeiras de Macacu

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20.05.2026 - 08:42:12

A Redação

Goiânia – Imagine um sítio arqueológico que guarda vestígios de uma igreja antiga, construída por volta de 1734. O local funcionava como espaço de culto e refúgio espiritual para os moradores que enfrentavam os momentos finais de suas vidas e acreditavam que, ao serem ali enterrados, poderiam falecer em paz. A prática era comum até 1850, quando uma lei proibiu o sepultamento nas igrejas, colocando fim a uma tradição que atravessava séculos.

O local é a Capela de São José da Boa Morte, em Cachoeiras de Macacu (RJ), que agora passa por intervenções para preservar o que resta da edificação e também a memória do lugar. O projeto de consolidação e requalificação das ruínas da antiga igreja está sendo conduzido pela Elysium Sociedade Cultural, em parceria com a Prefeitura de Cachoeiras de Macacu e a Nova Transportadora do Sudeste (NTS), por meio da Lei de Incentivo à Cultura. As obras estão na reta final, com conclusão prevista para julho.

“A consolidação das ruínas é fundamental porque preserva e dinamiza um ativo cultural importante da região, que já foi cenário de inúmeros acontecimentos, desde funerais, casamentos, batismos e até mesmo lutas fundiárias no século 20”, conta Wolney Unes, diretor da Elysium Sociedade Cultural.

O valor histórico e cultural das ruínas de São José da Boa Morte foi oficialmente reconhecido em 1989, quando o conjunto foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac). O tombamento, um marco na história do local, impulsionou estudos, algumas iniciativas de conservação e, sobretudo, garantiu a proteção legal do sítio.

Consolidação das ruínas

O projeto de consolidação une preservação, sustentabilidade e valorização da história do local, com ações que vão desde o reforço estrutural até a criação de um mirante que vai permitir que os visitantes tenham uma nova perspectiva da igreja. O projeto também contempla a construção e implantação de um centro comunitário no entorno.

(Foto: Igor Holderbaum)

As obras começaram em 2025, após um período de estudos e levantamentos técnicos minuciosos. A arquiteta Jéssica Marques, integrante da equipe da Elysium, explica que o processo de instalação do canteiro de obras foi cuidadosamente planejado. “Realizamos uma análise detalhada do terreno para identificar áreas sensíveis e evitar qualquer interferência nas estruturas existentes. Cada ação é feita de forma controlada, garantindo que nada seja perdido nesse processo”, conta.

Segundo ela, a prioridade foi estabilizar as paredes e evitar novos danos causados pelo tempo e pela vegetação do entorno. Além da limpeza e consolidação das alvenarias, o trabalho inclui medidas sustentáveis. “Sempre que possível, reaproveitamos materiais da própria obra e fazemos o manejo correto dos descartes. O objetivo é intervir o mínimo possível, mas o suficiente para preservar o máximo de autenticidade das ruínas”, acrescenta Jéssica.

Um dos elementos mais simbólicos do projeto é o mirante em estrutura metálica e aço corten, materiais que conferem durabilidade e uma estética que dialoga com o tempo e a cor da terra, além de harmonizar com o contexto histórico. O engenheiro e responsável técnico pela Elysium, Pedro Carim, observa que a estrutura foi planejada de modo a unir segurança, leveza e reversibilidade, princípios fundamentais na restauração de bens históricos.

“A ideia é criar um espaço de contemplação que ofereça ao visitante uma nova visão do conjunto, sem interferir na estrutura original. O mirante será uma espécie de coro contemporâneo, posicionado de modo a permitir observar o interior das ruínas e o entorno natural, sem comprometer a integridade das paredes originais”, explica o engenheiro.

O projeto também prevê a reinterpretação do antigo altar e a recuperação de elementos estruturais, sempre com uso de materiais contemporâneos, sustentáveis e que dialogam com a ruína e seu entorno. Uma sinalização informará aos visitantes a localização do antigo altar, estabelecendo distinção clara entre a estrutura original e as intervenções realizadas.

Centro comunitário

Além da consolidação das ruínas da Igreja de São José da Boa Morte, o projeto contempla a construção e implantação do Centro Comunitário de Cachoeiras de Macacu. O edifício foi projetado em diálogo com a topografia e a vegetação natural do terreno, e abrigará espaços para realização de exposições, oficinas e celebrações da comunidade.

“O centro comunitário, que agrega um espaço de interpretação do sítio, vai ativar a região, proporcionar maior segurança e geração de emprego. Será um local de convivência entre moradores e turistas, onde a cultura local, a história e a relação com a natureza serão vivenciadas”, diz Wolney Unes, diretor da Elysium.

Memória local e turismo fortalecidos

Cortada pelo Rio Macacu, o entorno das ruínas atualmente se destaca como destino para amantes do ecoturismo e esportes radicais, atraindo praticantes de trekking, montanhismo e rapel em meio a cenários naturais atravessados por picos e cachoeiras.

Na opinião de Paulo Schiavo Junior, secretário de Sustentabilidade, Clima, Recursos Hídricos, Ecossistemas e Projetos Estratégicos de Cachoeiras de Macacu, o projeto vai incrementar o turismo na região. “São José faz parte da rota Cenários e Sabores de Macacu, uma experiência que une turismo rural, ecológico e gastronômico. Além disso, integra o circuito de ciclismo do Estado. Com o projeto, certamente a região, que já é muito frequentada pelos turistas, será ainda mais ativada”, acredita.

“Mais importante ainda é o fato de que o projeto vai promover o resgate da memória e da história de toda uma comunidade e do próprio município”, acrescenta Paulo.

Para Erick Pettendorfer, CEO da NTS, a iniciativa privada tem papel importante na preservação do patrimônio, especialmente em um país com a riqueza histórica e cultural do Brasil. “Ao investir na conservação de bens culturais nos territórios onde atua, a empresa contribui para proteger a memória coletiva, valorizar a identidade local e fortalecer o vínculo das comunidades com sua própria história”, diz.

O CEO destaca ainda que investimentos assim fortalecem o relacionamento entre empresa e comunidade, ampliando sua legitimidade social e atuando de forma alinhada aos seus valores de responsabilidade social e desenvolvimento sustentável.
“Ao patrocinar a consolidação das ruínas, a NTS buscou preservar um patrimônio histórico relevante para o Rio de Janeiro e gerar um legado positivo especialmente para a comunidade impactada pela construção do Gasig, em 2023. O investimento de R$ 18 milhões, via Lei Rouanet, representa uma forma concreta de retorno social ao território, garantindo a segurança e a preservação desse bem cultural para as futuras gerações”, completa Erick Pettendorfer.

Além das fronteiras

O projeto de intervenção e consolidação das ruínas de São José da Boa Morte atravessou fronteiras, entrando em diálogo com experiências internacionais. Em 2025, Wolney Unes atuou como professor visitante no Heritage Institute, da Universidade de Liverpool, na Inglaterra. O instituto inglês dedica-se a bens ameaçados por catástrofes, guerras e problemas ambientais. “Em minhas aulas, apresentei esse tipo de patrimônio brasileiro como outra categoria de ameaça: o descaso. O abandono de um bem também pode levar à sua ruína”, afirma Wolney.

Para a historiadora Rachel Wider, a intervenção nas ruínas traz uma reflexão profunda sobre a importância do patrimônio como interlocutor entre as gerações. “O patrimônio é uma ferramenta de interpretação do passado e conexão com o futuro. Para o presente, entregamos um conhecimento valioso sobre as formas de construir dos séculos anteriores, da trajetória do território e do vínculo com a comunidade. Para o futuro, deixamos um exemplo de como preservar esse tipo de patrimônio, fortalecendo a sensibilidade do olhar e o sentimento de pertencimento ao patrimônio e às histórias, imateriais, que ele guarda”, conclui a historiadora.

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por Adriana Marinelli

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