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Considerações sobre Aidenor Aires: coleção 50 anos de poesia

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03.10.2023 - 08:13:25

Quando o poeta Aidenor Aires se posicionou para falar na sala de eventos do Tribunal de Justiça de Goiás (TJ/GO), no dia 11 de setembro de 2023, no lançamento da box “Coleção Aidenor Aires – Poesia Completa: 50 Anos de poesia” um silêncio respeitoso se fez no ambiente, antes tomado pela música executada por João Marcelo. Aquele fim de tarde era de festa cultural para marcar o meio século de poesia do baiano de Riachão das Neves, hoje com 77 anos, e tornado por direito um cidadão honorário de Goiânia e de Goiás em reconhecimento às suas ações culturais no Estado.

Era como se o poeta tomasse o lugar do ex-promotor de Justiça e lavrasse em “Acta (título de um de seus poemas) solenemente: “nesta sessão (questão de ordem) / pára o coração plenário, /Na pauta, /o pleito/do feito/extraordinário/(…)Nesta sessão, /o amor do poeta/é exceção. /Não consta/da ordem do dia/não consta/da pauta/do expediente, /É apenas mistério/inumerável, / ofício e protocolo/ ausente/ de uma dor inexplicável.” – Sim, Aidenor com sua fala de gratidão e poesia (ver discurso integral neste link) parecia nos conduzir a outro de seus versos de “O dia frágil[1]”: “O poeta carrega a música do mundo. / Colhe andrajos da luz / Com que um deus se exprime. / E no aconchego de pó, coágulo, evento, /goza o eterno/na angústia do dia frágil/que redime.”

Lembrei-me de um texto do pensador Ralph Waldo Emerson citado por Harold Bloom em seu “O cânone americano[2]”, quando ele fala da poetisa Emily Dickinson. Perdoe-me o benévolo leitor a extensão do texto, mas se faz necessário que seja na íntegra para que possamos prosseguir a crônica dos 50 Anos de poesia de Aidenor Aires:

“Um segredo que todo homem intelectual logo aprende é que, além da energia de seu intelecto consciente e controlado, ele é capaz de uma nova energia (como que um intelecto duplicado sobre si mesmo) abandonando-se à natureza das coisas; que, além de seu poder pessoal como homem individual, existe um grande poder público no qual ele pode se abeberar, se destrancar, a qualquer risco, suas portas humanas e deixar que as ondas etéreas rolem e circulem por ele: então é capturado no interior da vida do Universo, seu falar é trovão, seu pensar é lei, suas palavras são universalmente inteligíveis como as plantas e os animais. O poeta sabe que fala de maneira adequada apenas quando fala um tanto desenfreadamente ou “com a flor da mente”: não com o intelecto, usado como órgão, mas com o intelecto liberado de todos os serviços e podendo tomar sua direção a partir de sua vida celestial; ou como os antigos costumavam se expressar, não apenas com o intelecto, mas com o intelecto inebriado de néctar. Tal como o viajante extraviado solta as rédeas no pescoço do cavalo e confia no instinto do animal para encontrar o caminho, assim também devemos fazer com o animal divino que nos transporta por esse mundo. Pois, se conseguimos incentivar de alguma maneira esse instinto, abrem-se a nós novas passagens na natureza, a mente penetra e atravessa coisas mais difíceis e mais elevadas, e a metamorfose é possível.”


Assim, Aidenor se mostra muitas vezes como aquele “intelecto inebriado de néctar” a perscrutar, perquirir, examinar sentimentos poéticos como “Na estação das aves[3]” (1973), ele, poeta, um viajante que se deixa levar pelo animal divino que é sua alma de inquiridor:

“A primavera repentina há de envolver a terra
        rolando dos olhos verdes,
        tombando como as pandorgas
        na espiga morna da tarde.
A noite plena de ausência onde me amargo
        e me encontro,
        menino farto de vento,
        pequeno, frágil, tão verde,
        curvado de dor madura.
Chegado do exílio, do outro lado do mundo,
        ave branca de um país insondável,
        resta oculta substância do meu riso,
        meu riso inexplicável.”

O amigo de uma vida do poeta, ele próprio desde sempre poeta: Gabriel Nascente disse na apresentação do livro “Itinerário da aflição[4]” (1973) ser o seu parceiro de poesia “dotado de uma personalidade sombria, um tanto torto dentro da vida, mas um homem salvo porque adoeceu pela poesia…chega a possuir o sofrimento na palma da mão como um mapa de trabalho. Operário de alma nas mãos.” Como prova este “Poema da nossa extinção”:

Não nos secamos ao sol.
Morremos como morrem as coisas sem nome.
Morremos,
Nos olhos dos homens,
nos olhos dos pássaros,
nos olhos dos meninos
e sem saber, um dia,
para os nossos olhos
quedamos também mortos.

A nossa morte começou
no dia da nossa solidão.
Não conhecemos as árvores eretas
além do rio.
Envelhecemos com nossos corpos.

Por fim, a nossa voz
de uma velhice cinzenta
                   também morrerá.

É respeitável a fortuna crítica que se acumulou em torno da obra de Aidenor Aires, nesse meio século de exercício cotidiano da poesia (críticas favoráveis de Mario Bechepeche, Hugo Zorzetti, Gilberto Mendonça Teles, Ney Teles de Paula e Nelly Alves de Almeida, entre outros), esses textos vêm transcritos em parte nos dez livros incluídos na box 50 Anos de poesia – Coleção Aidenor Aires. Dentro do espaço deste artigo não poderei destacar senão umas poucas referências, deixando ao benévolo leitor a missão de garimpar nos volumes que espero adquira para o seu deleite poético.

De Nelly Alves de Almeida, no ensaio “O canto subjetivo”, republicado no início desta 2ª edição de “Itinerário da aflição”, sublinho essas observações: “Poesia é sabedoria humana. Apelo profético, sagrado. Expressão divina da linguagem, com prodigalidade de sons e de cores. Mistério de mito, taumaturgia estética, predestinação do belo e síntese da vida. (…) Neste Itinerário da aflição, encontramos versos chorando amarguras quando, vindos dele, nessa época áurea da vida [o poeta contava 27 anos à época da primeira edição], deveria trazer, em sua mensagem, a expressão clara da alegria, sem sombras de tristezas, sem surdas indagações: – Mas quem entende a alma de um poeta?” – indaga a famosa crítica Nelly.

Ela prossegue: “Observamos que o poeta, para traduzir sua angústia, apega-se à humanização das coisas e o nexo de sua temática está sempre preso à infância, a crianças, ao silêncio, à dor. / Ele escreve no momento certo de emoção e sempre traduz, em suas produções, negativismo de crença, desespero de quem sucumbe ao infortúnio.” A crítica dá como exemplo de sua análise parte do poema Cantiga do só (I), pág. 28 do livro supracitado:

Sou como o nome dos bois.
Morreram nos matadouros,
morreram nos cascos brancos,
morreram na cor do sangue
os tão inocentes, mas
já tão mortos bois.

Sou como o nome dos portos
cujas letras não se encontram
nos destinos dos navios.
(…)
Sou uma voz que naufraga
na tua garganta, irmão:
me crucifico nas ruas
de tua cidade, irmão.
Sou como o nome dos bois,
não tenho memória, não.

Premiado muitas vezes por sua poesia, Aidenor angariou entre outros a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos (UBE/GO), Prêmio Nacional Bienal Nestlé de Literatura Brasileira (1986), Prêmio Nacional 3º. Concurso Nacional de Literatura (GO). Aidenor Aires é membro da Academia Goiana de Letras (AGL), onde ocupa a cadeira nº. 2, cujo antecessor foi o romancista Eli Brasiliense; foi presidente do Instituto Histórico e Geográfico (IHGG) e preside atualmente a Academia Goianiense de Letras (AGnL). Aidenor teve parte de seus poemas traduzidos para o espanhol e o francês.

Ao encerrar estas considerações sobre a celebração dos 50 anos de poesia de Aidenor Aires, recordo um trecho da apresentação que fiz para o lançamento do livro “Gilberto 30 Anos de Poesia” (1986), quando justifiquei o incentivo da Caixa Econômica Federal que obtivemos para a publicação dizendo: “esse incentivo cultural por parte da CEF bem exemplifica a ação que o poeta russo Maiakovski pedia à sociedade do seu tempo em relação aos poetas: “deixem de realizar suntuosos centenários e respeitem mais os poetas vivos, ao invés de render-lhes homenagens em edições póstumas. É preciso escrever artigos sobre os escritores vivos. Dar-lhes pão em vida! Dar-lhes papel em vida!” Eis o que fazemos ao adquirir, ler e divulgar esta box de meio século de poesia de Aidenor Aires. Viva o poeta das metáforas abundantes e sugestivas. Viva o Poeta Aidenor Aires – nestes seus 50 Anos de Poesia – “um intelecto inebriado de néctar”.


 *Adalberto de Queiroz é jornalista e escritor, membro da AGL, Autor de Cadernos de Sizenando, 2ª. Ed., 2020.


[1] AIRES, Aidenor. O dia frágil. 2ª. Ed., Goiânia : Kelps, 2022, pág. 11 e 15.
[2] BLOOM, Harold. O cânone americano: o espírito criativo e a grande literatura. Tradução Denise Bottmann. – 1ª. Ed., Rio de Janeiro: Objetiva, 2017, pág. 255.
[3] AIRES, Aidenor. Na estação das aves. Goiânia : Kelps, 2022, 2ª. Ed., pág. 42.
[4] AIRES, Aidenor. Itinerário da aflição. Goiânia : Kelps, 2022, 2ª. Ed., pág. 63.

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por Adalberto De Queiroz

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