Digna de atenção é a arte literária do escritor anapolino Solemar Oliveira, físico e professor, que se vem firmando como um dos bons e profícuos narradores desta nova safra de autores em atuação na literatura feita em Goiás. A obra de Solemar merece atenção e ressalvas.
A exemplo dos artigos anteriores publicados aqui no jornal A Redação, como “Considerações”, seja àquelas feitas à poesia lírica de Sônia Elizabeth, seja quanto à poesia de Marra Signorelli, dou sequência ao projeto, inspirado nos passos do crítico paranaense Temístocles Linhares (1905-1993).
Ora, sendo e articulista um católico romano, correrá o risco (e o faz consciente) de que pode escorregar no lodo de toda a teoria donde resgata essas ressalvas; afinal, quando um judeu lê um cristão, ou vice-versa, há-de submeter o texto à sua teoria ou ponto de vista firmado por anos de formação; similar a quando um Amish lê um evangélico batista (ou vice-versa); mais ainda quando um marxista lê um católico (ou vice-versa). Há sempre um lodo para o crítico (ou analista) escorregar quando lê, principalmente quando lê sem aprofundamento e paixão, movido apenas por uma razão desmedida.
Concordo e entendo que o comentador deve guiar-se pela razão, tendo como companheira a paixão pela a leitura, que se deixe empolgar pelo texto lido e não tente submetê-la à canga de suas teorias ou pontos de vista – o que, na prática, não é algo fácil de se alcançar, mas insisto em tentar. Tentar está na raiz da própria palavra ensaio e move esta série de Considerações.
Já está demonstrado que cientistas podem produzir boa literatura. Dois dos vários casos bem conhecidos são de Ernesto Sábato, físico argentino e de Elias Canetti, judeu sefardim originário da Bulgária e que se fixou na Inglaterra. Comprovaram esses dois que é possível trafegar do mundo das ciências para o da imaginação e da criação literária com bons resultados de retroalimentação entre as duas vertentes.
Que Solemar escreva como físico, de fato, é algo sobejo de se considerar – para repetir Ademir Luiz, escritor e leitor-cinéfilo, em seu comentário sobre “a límpida prosa poética de Desconstruindo Sofia” (Editora UFG, Goiânia, 2017): “Solemar é um escritor de vocação que, por acaso, é também um físico.”
O crítico belga Charles Moeller no volume II de sua obra Literatura do século XX e Cristianismo (A fé em Jesus Cristo), em 1958, ao analisar a obras de Jean-Paul Sartre, Henry James, Roger Martin Du Gard e Joseph Malègue legou-nos elementos fundamentais para (sem perdermos a fé em Cristo) orientarmo-nos durante a leitura de alguns narradores deste século XXI.
Tenha certo o leitor cristão que esse mergulho na obra de narradores atuais que se podem intitular racionalistas, os racionalistas materialistas, os que não procuram Deus, os ateístas (ou às vezes generosamente dito agnósticos) e os antiteístas. O antiteismo – já alertava o Abade Charles Moeller domina o nosso tempo, desde o início do século passado.
A negativa da ideia do Sobrenatural, com a consequente vala comum ou tábua rasa que se faz dos chamados valores eternos e transcendente caracteriza a maioria das narrativas atuais; estando dispersa em Desconstruindo Sofia e explícita, por exemplo, em Vento de Queimada (André De Leones), para ficar em apenas dois exemplos de escritores goianos. Porém, essa verve está por todo o lado como uma revolta contra Deus domina o panorama da literatura atual, seja sob a forma de um existencialismo redivivo, seja de um materialismo que tem na violência (às vezes gratuita) seu motor de criação. O dito “silêncio de Deus” incomoda esses autores até o ponto do paroxismo narrativo e da provocação às crenças e ao leitor que crê em Deus.
Isso não deve impedir o cristão de lê-los, ao contrário deve ajudá-lo a manter sua atitude crítica e saber onde a ironia chega a limites do desrespeitoso, onde esbarra na incomunicação como um traço infanto-juvenil de incompreensão dos mistérios sagrados.
A religiosidade para esses autores atuais tornou-se uma espécie de bosque proibido que não adentram senão com a couraça do rigor dito científico. Não devem ser desprezados por isso, até porque representam o incontornável mainstream… Até porque ser cristão pressupõe estar no mundo e conviver com este em todas as suas facetas, incluindo este homem fraturado, em queda, em ruína que às vezes tem-nos a ensinar como evitar deslizes similares e nunca pensarmos na fé como um travesseiro de certezas acabadas, metáfora que circunda o imaginário desde o existencialismo sartreano.
Permita-me o benévolo leitor trazer a estas reflexões trechos dos depoimentos da fortuna crítica do escritor Solemar Oliveira, para confirmar a quem se decida ler as obras de Solemar que há garantias de que estará diante de um bom narrador.
Da análise da professora e historiadora Simone Athayde a respeito do livro “Breve segunda vida de uma ideia” (contos), concluímos que: “por sua natureza impregnada de estranhamento, o livro de Solemar Oliveira talvez não conquiste facilmente muitos leitores, mas com certeza se insere na seara da prosa muito bem executada.” E segue:
“O autor anapolino Solemar Oliveira tem demonstrado ser um escritor talentoso, como atestam os prêmios que já recebeu, entre eles o Hugo de Carvalho Ramos de 2019 – categoria prosa. Também é um autor produtivo. Lançou Breve segunda vida de uma ideia, um livro com 42 contos, a maioria muito bons. Solemar, no seu Preâmbulo magnético explicativo (apresentação do livro), afirma que “Neste conjunto de contos empenhei-me em explorar as várias faces do macabro” e cita seus autores preferidos no que chama universo de mistério, entre eles: Lygia Fagundes Teles, Jorge Luiz Borges, Lovecraft e Humberto de Campos. Ainda diz que apresenta aos leitores o seu “íntimo mergulho às cegas à caverna do absurdo”. Mas Solemar é eclético, e há muito em suas histórias que vão além do macabro e do terror. Na história que dá título ao livro, por exemplo, temos algumas especulações filosóficas a partir de uma listra de camisa que passa por um processo de personificação e adquire vida, saltando para o chão e formando imagens que lembram o desmanchar-se dos relógios de Dali. Nesse conto há também uma citação ao pintor Magritte, representante do Surrealismo.”

(…)
“A influência do Solemar físico (o autor é pós-doutor em Física, professor e pesquisador) aparece em alguns contos como em Segunda Vida de Albert Einstein, que me parece ser uma homenagem ao famoso cientista. Nele, Einstein realiza viagens no tempo na tentativa de concretizar um romance com uma mulher mais jovem, mas assim como nos livros e filmes sobre esse tema, nem tudo dá certo. Em Uma questão de ciência temos um cientista negacionista que acha que o efeito da gravidade é meramente psicológico. E em Por Finobacci temos um narrador que pratica um exercício aparentemente dadaísta utilizando o texto bíblico, mas que na verdade segue à risca a sequência de Finobacci para formar um novo texto e uma nova técnica criativa. Em tempos nos quais robôs fazem poemas, a ficção não parece muito distante da realidade.”
Já o escritor Ademir Luiz, presidente da UBE/GO (ele próprio declarado agnóstico) – faz no prefácio de “Desconstruindo Sofia” uma análise ainda mais generosa (e também relevante), ligando a origem da Filosofia ao ato de narrar e liga o professor-físico ao escritor Solemar:

“A Filosofia começou como Física. Antes das reflexões sobre política, ética e estética, as primeiras buscas realizadas pelos pioneiros desse “amor pelo conhecimento”, que chamamos de Filosofia, procuravam desvendar as estruturas que formavam o mundo material. A compreensão dessas estruturas levaria ao entendimento das verdades fundamentais mais profundas; o quem somos? de onde viemos? para onde vamos? que ainda intriga a humanidade para além dos momentos de “Eureka”.
“Água, Ar, Deus, Átomos, Amor e Ódio. Os pioneiros do “amor pelo conhecimento”, em sua busca pelas estruturas físicas que compõem o mundo material, acabaram [os físicos e os filósofos] por esbarrar na força do amor como elemento primordial de coesão da natureza. E em seu contrário. O Amor constrói, o Ódio desconstrói.
“Foi também aonde chegou o escritor Solemar Oliveira, autor do romance “Desconstruindo Sofia”. Goiano, nascido na cidade de Anápolis, Solemar é autor de duas coletâneas de contos: “Fúnebre sinfonia para Prometeu ateu e Rosa de Vênus”, vencedor da edição 2012 do concurso Bolsa de Publicações João Luiz de Oliveira, promovido pela Prefeitura de Anápolis. Também é físico. Esse detalhe poderia ser apenas uma curiosidade, que o colocaria na tradição de outros cientistas escritores, como os físicos Ernesto Sabato, Robert Gilmore, Mário Novello, Ivan S. Oliveira, os químicos Elias Canetti e Rochel Montero Lago ou o astrônomo Carl Sagan, se sua formação acadêmica não estivesse sutilmente imbricada na carpintaria de sua literatura.
“Não que Solemar Oliveira “escreva como um físico” – seja lá o que isso possa significar. “Desconstruindo Sofia” é escrito em límpida prosa poética. Em nenhum momento a clareza da forma prejudica a sofisticação das ideias ou o trabalho de linguagem. O estilo é, em alguns momentos, intencionalmente cru, com leves excessos, mas jamais gratuito. Solemar é um escritor de vocação que, por acaso, também é um físico.
“Porém, é sintomático que o protagonista narrador de “Desconstruindo Sofia” possa dividir com o autor tanto a profissão acadêmica quando a vocação literária.”
O que Ademir define como “límpida prosa poética” no romance citado não passa, para este comentador, de uma escrita que peca por excessos de ironia e carrega nas tintas da descrença, beirando o da agressão às crenças cristãs, com algumas pitadas de lirismo; difere por exemplo da obra de André De Leones que abusa das tintas da galhofa e da violência extrema (e às vezes gratuita), sem grandes momentos poéticos.
Não que violência não haja em Solemar, mas ela é balanceada por momentos de descompressão. Em ambas estão presentes as artimanhas do príncipe das Trevas – Lúcifer (ver Cap. XXI), nome usado originalmente para designar Vênus, planeta de brilho, a estrela da manhã, depois trazido à imaginação católica para designar o Diabo, a partir da metáfora de Isaías 14:12 e Lucas 10 (“Eu vi Satanás cair do céu como um relâmpago”, título por sinal de uma obra do grande teórico francês René Girard a quem prometo voltar em breve). Lúcifer está na base da desconstrução de Sofia e da ruína do próprio mundo planejado, controlado do matemático Teodoro, ao fim dominado pelo ódio.
Sem ultrapassar os limites de um artigo de tamanho médio, sente o cronista que é hora de parar, deixando para a próxima oportunidade as considerações sobre o mais recente livro de contos de Solemar Oliveira – “Atirador de facas” (2023) que foi o motor dessas reflexões invadidas por outros pensamentos sobre livros anteriores. Assim, fica como bônus um trecho do Atirador, prometendo voltar com um novo ensaio específico sobre aquela obra:
Sobre Exilados
– São alguns truques. Frases curtas, com lirismo, algumas palavras que conectam o texto com a vida do Camus e seus personagens. Estão nas entrelinhas.
– Por exemplo, quando o Meursault fala: O senhor me interessa, ele toma emprestada a voz do narrador de A Queda, outro livro do Camus.
– Tenho a impressão de você usa muitas metáforas…
– Ou a citação sobre o Sísifo, de O mito de Sísifo. Isso é comum na literatura, e não é novo. Mas os elementos do acidente e da prosa poética de Camus estão soltos no texto através de palavras ou frases curtas ou de médio tamanho.
– Não sei se estou certo.
– Do quê?
– Não sei se metáfora é o termo correto. Se estou correto sobre metáforas.
– A construção do texto se baseia nisso.
(Oliveira, Solemar. Atirador de facas. Anápolis, Editora Chafariz, 2023, p.200).
5 Perguntas ao escritor Solemar Oliveira:
1. Quem corre mais riscos o escritor ou o atirador de facas?
Solemar: O escritor! O atirador de facas tem uma região (área) muito restrita para atirar e apenas uma pessoa corre o risco de ser atingida. O escritor, em tese, pode causar mais estrago.
2. A “mãe das coincidências” é parente da renovação literária?
Solemar: Não! A mãe das coincidências rende literatura. O conceito, nesse caso, tem a finalidade criativa de ser personagem no texto.
3. A poética de Dostoiévski, dois séculos depois, continua a inspirar-nos. Você dá provas disso nas Crônicas Karmazovianas. Qual a importância você atribui a fazer o russo ainda mais conhecido?
Solemar: Dostoiévski é atual! Vide Memórias do Subsolo que trata de sujeitos que brotam aos montes nos centros urbanos, remodelados e atualizados, é claro. Mas Dostoiévski se tornou uma espécie de profeta. As pessoas parecem atribuir a ele todo tipo de conhecimento, mas deixam de lado sua principal expertise: era um contador de histórias. Acredito que alguns de seus livros são leituras obrigatórias (Crime e Castigo, O Idiota e Os Irmãos Karamazov, por exemplo) e devem ser conhecidos, o que vem sendo feito no Brasil com qualidade, pois existe uma editora séria publicando e divulgando seus livros.
4. Qual a importância das metáforas quânticas?
Solemar: Em Física, a palavra quântica está associada com o termo pacote, ou porções. Ou algo que se possa contar. Quantidades discretas. Nesse sentido, isso rende metáforas divertidas, que se associam à vida e/ou ao modo de viver. São uma minimização do universo em que vivemos. Assim como são os minicontos: mínimos pacotes de literatura.
5. O que o físico vive dizendo ao escritor Solemar?
Solemar: “Por favor, não me abandone!” Mas essa voz parece estar cada vez mais distante. Contudo, o físico tem seus truques. Ele se mete, constantemente, na literatura, e sobrevive. E é ele quem lubrifica as engrenagens e mantém a mecânica do sistema.
*Adalberto de Queiroz é empresário, jornalista e poeta, escritor membro da AGL e da AGnL.