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Como ser político sem falar de política

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04.03.2025 - 09:28:01

As boas notícias para o cinema brasileiro não vêm apenas do Oscar e da bem sucedida trajetória de Ainda Estou Aqui. Estreia nesta quinta-feira nas salas de cinema do estado de Goiás, e dia 27 de março, no restante do país, o longa Oeste Outra Vez, do goiano Érico Rassi. 

 
Alerto ao leitor desde já para minha suspeição. Sou amigo, admirador e parceiro de trabalho do diretor e roteirista. Ainda assim, Oeste, que foi o grande vencedor do último Festival de Cinema de Gramado, é, para mim, de longe, a melhor coisa produzida pelo cinema brasileiro em muitos anos.
 
Um verdadeiro faroeste no sertão de Goiás, o filme é a história da perseguição de morte entre Totó (Ângelo Antônio) e Durval (Babu Santana), disparada pela disputa por Luiza (Tuanny Araújo). Quando a tentativa do pistoleiro Jerominho (Rodger Rogério) para assassinar Durval falha, é a vez deste contratar a dupla formada por Domingos (Adanilo Reis) e Antônio (Daniel Porpino) para partir atrás de Totó e Jerominho, que vão se esconder na casa do Ermitão, interpretado por Antônio Pitanga.
 
Érico Rassi navega na contramão das tendências do cinema brasileiro. Em vez da experimentação, escolhe a linguagem clássica do cinema narrativo. No lugar do panfletarismo vigente, que coloca a política em primeiro plano e esfrega sentidos na cara do espectador, um convite a que quem assiste faça uso de sua própria inteligência e curiosidade para interpretar o filme e tirar suas conclusões.
 
Essa é provavelmente a razão, inclusive, pela qual o filme não passou pelo filtro, essencialmente político, dos grandes festivais internacionais, como Cannes, Berlim, Locarno e Roterdã. Nessas janelas, ou você já tem um nome respeitado pela crítica ou compra sua passagem rezando pela cartilha de um formalismo amaneirado e cada vez mais vazio ou da política identitária –  de preferência, as duas. Basta olhar o line up de qualquer um desses eventos e constatar isso que se diz. 
 
Além disso, mesmo optando por um caminho clássico, de contar uma história estruturada sobre um conflito claro e que progride conforme ações e reações dos personagens, Oeste Outra Vez tampouco cai em outra armadilha comum no cinema contemporâneo, que é a do melodrama de apelo social. Nessas narrativas, a clara delimitação entre heróis e vilões nos permite atribuir toda a maldade do mundo a um outro idealizado como encarnação do mal: a patroa racista, os homens machistas, o capitalista cruel, o político corrupto. A catarse oferecida gera aplauso fácil. São filmes – para usar a frase ouvida de um colega de júri certa vez em um festival  – “que nos fazem sair do cinema nos sentido seres humanos melhores”. 
 
O filme de Érico não se rende a esse tipo de melodrama barato, não simplifica personagens e não oferece ao espectador uma leitura moral do mundo pronta para consumo, satisfação e sentimento de superioridade moral.
 
Crítica à masculinidade?

Rodger Rogério e Ângelo Antônio em cena de Oeste Outra Vez (Fonte: O2 Play/Divulgação).

Por sua sutileza narrativa – que já demonstrara em Comeback, seu primeiro longa -, construída sempre em cima de uma fina ironia que situa o filme entre o cômico e o trágico, Erico cria uma narrativa bastante ambígua que é evidentemente uma crítica à masculinidade contemporânea. Todavia, me parecem equivocados aqueles que, mesmo opinando favoravelmente a respeito do filme, elogiam-no por supostamente escarnecer do universo masculino e do interior sertanejo do Brasil.
 
Oeste é um filme triste e de personagens complexos. Os homens são de fato brutos e ignorantes, mas sobretudo profundamente solitários. São incapazes de afeto real e verdadeiramente aleijados para se comunicarem, elaborarem sentimentos e os expressarem. 
 
Todavia, o filme nos conquista justamente porque seu olhar sobre esses personagens é terno e empático. Isolados em um mundo sem mulheres – a única personagem feminina abandona os homens e o filme praticamente na primeira cena – Totó, Durval, Jerominho, Domingos, Antônio e o Ermitão são dignos de pena e compaixão.
 
Se podemos destilar uma “mensagem” ou uma “moral da história” em Oeste Outra Vez, ela é a de que, em um mundo machista que oprime as mulheres e as agride de todas as formas, há também uma dura contraparte cobrada aos homens. A obrigação de virilidade, de desempenho e de se impor produz homens secos, embotados emocionalmente, solitários e tristes.
 
É preciso insistir, entretanto, que esse sentido é um entre outros possíveis, e que o maior mérito do filme reside precisamente em deixar essa construção a cargo do espectador.
 
Faroestes e Fronteira
 

Cartaz de Iracema, uma Transa Amazônica (Fonte: Wikimedia), filme de Jorge Bodanzky e Orlando Senna.
 

Há, por fim, um outro aspecto menos discutido do filme que o coloca em um diálogo inteligente com duas tradições importantes do cinema: o faroeste americano e os filmes brasileiros sobre o sertão e a fronteira.
 
É interessante, para pensar sobre isso, resgatarmos o sentido e a importância da ideia de fronteira na própria cultura americana. 
 
A significação do termo "fronteira", como espaço de transformação econômica e social no território, remete às ideias do historiador americano Frederick Jackson Turner. Apesar de seu lado ideológico, que glorificava a figura do pioneiro norte-americano e legitimava o genocídio indígena, Turner teve o mérito de, pela primeira vez, compreender a fronteira como um lugar de contradições onde, por meio do choque entre culturas, funda-se uma nova sociedade. Nesse sentido, para o bem e para o mal, ele entendia que a cultura americana não era o simples transplante do modo de ser britânico ou europeu para a América do Norte, mas sim o resultado da fusão por meio do choque entre as culturas europeias e indígenas. 
 
Robert Pirsig, autor de O Zen e a Arte de Manutenção das Motocicletas, de quem falei recentemente em mais de um texto neste espaço (aqui e aqui), em seu menos conhecido Lila, também defende ideia semelhante, reconhecendo o estoicismo e o pragmatismo do cowboy americano, entre outras qualidades, como traços indígenas, e não como heranças europeias.
 
Ora, o faroeste é o gênero por excelência do cinema americano porque a fronteira é tema determinante e essencial da identidade estadunidense. Nesse sentido, é interessante pensar que esse é o único gênero narrativo batizado em relação a uma referência geográfica: o far west ou western. 
 
No filme de Érico Rassi, a referência é explícita já no título do filme, que assume sua filiação ao gênero. De outro lado, cabe lembrar que o faroeste foi também uma referência de Glauber Rocha no filme que o consagrou: Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ele e sua sequência, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, são evidentemente dois westerns, tanto no sentido formal e de linguagem, como por se tratarem de filmes que tematizam a fronteira, esse território onde começam a chegar as forças da modernização e onde se confrontam projetos e visões de mundo antagônicas.
 
Assim como para Frederick Turner a fronteira foi o lugar da gênese da cultura americana, para o sociólogo José de Souza Martins, um de nossos grandes estudiosos do assunto: “É na fronteira que nasce o brasileiro”, pois ela é “fronteira da civilização (demarcada pela barbárie que nela se oculta), fronteira espacial, fronteira de culturas e visões de mundo, fronteira de etnias, fronteira da história e da historicidade do homem. E, sobretudo, fronteira do humano.”
 
Para além dos faroestes de Glauber Rocha, alguns dos melhores filmes produzidos pelo cinema brasileiro são também filmes de fronteira. Entre outros, vale lembrar especialmente de Iracema, uma Transa Amazônica, de Jorge Bodansky e Orlando Senna, Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, e Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. Em comum, todos têm como cenários regiões de fronteira econômica – a Amazônia ou o sertão nordestino -, mas sobretudo tematizam esse embate entre culturas de que surge o Brasil moderno. 
 
Goiás produziu um dos grandes filmes de fronteira do cinema brasileiro, uma de suas pérolas desconhecidas: O Diabo Mora no Sangue, dirigido por Cecil Thiré a convite do roteirista, produtor e protagonista, João Bennio. Nele, um sertanejo é confrontado com seus princípios e emoções diante da chegada de turistas urbanos com seus hábitos diferentes às praias do Rio Araguaia.
 
Ora, Goiás, como estado e região cultural, é um dos grandes símbolos da fronteira brasileira e tem plasmado em sua identidade, ainda que a fronteira econômica há muito tenha avançado, esse caráter híbrido típico do choque entre tradição e modernidade. Sertão remoto e visto como decadente até a Revolução de 1930, o estado se torna, pelo visionarismo do líder revolucionário e interventor Pedro Ludovico Teixeira, uma ponta de lança e referência para o novo Brasil prometido por Getúlio Vargas. Goiânia foi erguida do nada, na década de 1930, como referência para o país moderno, urbano e próspero que se desejava. E é também de Goiás que parte a Marcha para Oeste com o objetivo de “conquistar” a Amazônia selvagem e seus moradores indígenas para esse projeto de progresso.
 
Nada mais lógico, portanto, que o cinema de um diretor de Goiás se insira nessa tradição e discuta temas da fronteira: a ausência da lei e do Estado, a justiça pelas próprias mãos, a valentia como afirmação do masculino, o papel secundário ou virtual ausência das mulheres, a dureza num confronto idealizado entre a brutalidade dos homens e uma natureza ainda mais violenta.
 
Como se vê, é um filme que dialoga com questões antigas e contemporâneas, que se ancora em múltiplas referências dos cinemas americano e brasileiro, sem deixar de mencionar a competência formal com que faz tudo isso, numa fotografia (do brasiliense André Carvalheira) que reforça a sensação de aridez, isolamento e distância, e numa trilha sonora que sublinha os elementos caros à narrativa sem arroubos ou exageros.
 
Da mesma maneira que vem surpreendendo a crítica, espero que Oeste Outra Vez caia no agrado do público e encontre o lugar que merece na galeria do cinema brasileiro.
 
Oeste Outra Vez
Ficção, 98 minutos
Direção e Roteiro: Érico Rassi
Elenco: Ângelo Antônio, Babu Santana, Rodger Rogério, Adanilo Reis, Daniel Porpino. Tuanny Araújo
Data de estreia: 06/03 (Goiás), 27/03 (partes menos importantes do Brasil, como Rio e São Paulo).
 
 
 

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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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