Logo

Como a neurociência explica o consumismo no Dia das Crianças?

WhatsAppFacebookLinkedInX
01.10.2018 - 10:24:27

Goiânia – Outubro é o mês das crianças e não há nenhuma novidade nisso. E, assim como acontece todos os anos, até o fatídico dia 12, o mercado passa a ofertar uma série de produtos e serviços para encantar os adultos-mirins. É youtuber dando “dicas” patrocinadas na internet, vinhetas coloridamente fantásticas na telinha, assim como vitrines miméticas da Disneylândia.  

Entretanto, se o dono do cartão de crédito é você, por que continua comprando tanto? “Meu filho não para de fazer escândalo até que eu dê aquilo que ele quer”, “prefiro comprar e ter, pelo menos, um mês de sossego” ou “se tenho condições para comprar aquilo que não tive, então, por que não vou fazê-lo?” são as justificativas dadas pelos crescidinhos de plantão.  

Mas, será que há quem compre este discurso? Para o especialista em psicologia aplicada à mercadologia e autor do livro “Hábitos de Consumo: Habit – O Comportamento do Consumidor que a Maioria dos Profissionais de Marketing Ignora”, Neale Martin, tudo não passa de uma “peça” pregada pela mente inconsciente, encarregada por 95% das nossas atitudes.  

Na visão do autor, esta área da estrutura cerebral permite que possamos andar, respirar e fazer uma série de outras atividades cotidianas sem que tenhamos que direcionar esforços racionais para desempenhá-las. É esta região que também carrega a herança dos nossos antepassados, com todos os hábitos, símbolos e inscrições apreendidas ao longo dos séculos.  

E por que não falar dos sentimentos que não damos conta de lidar? Se temos dificuldade de aceitar o ódio que detemos por algum familiar, jogamos para o inconsciente. Estamos passando por um forte momento de estresse no trabalho, melhor fingir que não vimos e esconder o acontecimento em um lugar guardado a sete chaves e pronto. Tudo resolvido.  

Em outras palavras, pode-se dizer que o inconsciente é a mente infantil. Mesmo sem querer, ela está sempre emanando para o consciente as expressões linguageiras “quero tudo e quero agora”, “odeio esperar”, “é tudo ou nada”, “sou o dono do mundo”, “descarte o que não traz prazer”, “não me faça passar privação”, “se não tiver o que quero, farei pirraça” e por aí vai.  

E o que isso tudo tem a ver com o Dia das Crianças? Sabe aquele presente que o seu filho tanto implorou para ter? Na verdade, o que estava em voga fora a sua própria criança interior advinda da mente inconsciente. É ela que, se vendo projetada na criança do lado de fora – seu próprio filho -, arruma um subterfúgio para “dobrar o braço” da parte adulta do psiquismo.  

No final, tudo não passa de uma sala espelhada em que imagens mentais refratam-se e se identificam para fazer com que você, bebê crescido, não seja capaz de enxergar um palmo na frente do próprio nariz. Felizmente, se os cientistas do marketing já descobriram que a criança desejosa é você, também existem maneiras para domar o temido monstrinho interior.  

A primeira delas consiste em ficar de olho nas cores contrastantes. A mente inconsciente aprendeu ao longo da evolução que os tons vibrantes acionam com maior facilidade as memórias e emoções reprimidas no inconsciente. Viu um anúncio muito colorido na web? Atente-se para que cliques e rolagens de mouse não façam de você o “gu-gu-dá-dá” da vez.

Tomar cuidado com o comportamento dos grupos também é importante. Para sobreviver às intempéries ancestrais, a mente primitiva aprendeu que “fazer o que todo mundo faz é sinal de sobrevivência”. Desta forma, preste atenção para não adquirir o que os influencers, ídolos televisionados ou amigos propõem. Pode ser fundamental para assegurar a sua sobriedade.  Está sentindo um “cheirinho” gostoso no ar? É hora de ligar o alerta.

Odores muito marcantes na primeira infância como pipoca, chocolate, café, bolo ou pão assando no forno, e variações, fazem com que o seu psicológico fuja temporariamente da realidade e se armazene naquela época onde tudo era mais leve e você era feliz e não sabia.  

E o que falar da voz macia que só os vendedores sabem fazer? O inconsciente sempre quer reconstruir as figuras que lhe deram conforto no passado, transferindo e atualizando suas características nas pessoas a sua volta. Lembre-se: se comprar, para você, talvez seja sinônimo de reacender as chamas da esperança, nada fará com que você realmente volte a ser criança.    

Renan Cola é psicanalista da É Freud, viu?

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Renan Cola

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]