Logo

Como a filosofia pode salvar as organizações

WhatsAppFacebookLinkedInX
31.08.2024 - 15:55:00

Por séculos, a filosofia foi separada do universo empresarial. Há razões históricas para isso.
 
Esta área de conhecimento nasceu a partir da busca incessante por algo que transcende o mundo material e individual. Aristóteles, por exemplo, trouxe o termo telos para referir-se a um “fim último”, que sobrepassa nossas ações pragmáticas, e nos conecta com o Todo, o que possibilita uma vida significativa e um estado de plenitude que ele chama de eudaimonia. Acessamos tal estado pela contemplação: uma postura dócil de admiração a algo que vai além, nos envolve e nos plenifica.
 
Essa contemplação não é, para os filósofos gregos, uma postura passiva, de quem somente aprecia à distância algo que não o modifica. Aristóteles argumenta que, ao contemplar o indivíduo se alimenta dessa verdade e passa a atuar de forma sábia, que ele denomina phronesis. Outros filósofos clássicos trouxeram essa ideia de acesso a algo maior, que se traduz em uma vida mais consciente e plena. O próprio termo filosofia vem de philo sophia: amor à sabedoria, uma jornada em direção à verdade que nos ultrapassa e completa.
 
Outros filósofos surgiram com diferentes visões, mas a maioria propondo um pensamento que eleva o ser humano a uma condição mais consciente. Este “pano de fundo” transcendente originou o termo filosofia perene: o campo de sabedoria no qual diferentes pensamentos convergem, apesar das diferenças.
 
No entanto, a história tem seus caprichos. A revolução científica (séc. XVI), com René Descartes, Francis Bacon e outros, declarou que com a razão e a ciência o homem se tornaria o senhor do universo, capaz de pensar, medir, dividir e controlar a natureza.
 
Esta abordagem racional e controladora foi incorporada pela teoria econômica, que honrou também a linha individualista e utilitarista de pensadores como John Locke. A racionalidade cartesiana impregnou os sistemas econômicos culminando na Revolução Industrial, que deu origem à estrutura organizacional em voga até hoje.
 
O mundo do trabalho passou a girar em torno da produção. O indivíduo era um grande recurso, tendo sua existência reduzida à atividade laboral, o animal laborans, nas palavras da filósofa Hannah Arednt: um sujeito que vive para trabalhar.
 
Este universo onde o trabalho é onipresente e a produção é tudo o que importa, gerou uma sociedade coisificada e consumista, que atingiu o ápice na sociedade norte-americana pós-guerra, rica em dinheiro e com fome insaciável de adquirir produtos. Consolidava-se, assim, a sociedade do Ter, nas palavras de Erich Fromm. Nela, o indivíduo se esvazia de sentido, se desconecta do Todo e passa a ser uma bolha que se alimenta de coisas materiais. Nesta concepção, a filosofia e a busca por uma vida sábia e plena torna-se irrelevante e inútil. 
 
A organização racional é concebida com uma estrutura hierárquica, dividida em partes fechadas e hiper especializadas, com uma dinâmica de relações meramente funcionais e burocráticas. Em pleno século XXI, para o nosso assombro, a maioria das organizações ainda conserva este formato, sustentado pelos mesmos pilares do século XIX. Nessas organizações coisificadas não há espaço para o Ser, tudo o que vai além de produzir e gerar mais lucro para seus donos não tem importância ou valor.
 
É necessário levar humanização às empresas, propor significado e propósito, relações genuínas e transparentes, práticas éticas, formação de líderes mais verdadeiros. Quando ouço “na nossa empresa não há espaço para filosofar demais”, fico absolutamente inquieto, pois a filosofia é prática: é o canal para acessar a sabedoria, que se concretiza em mundos melhores.
 
Para reconciliar estes dois mundos separados pela história, busco traduzir a sabedoria da filosofia em provocações e iniciativas práticas, como:
 
Propor reflexões individuais e coletivas sobre o propósito e significado das ações no trabalho. O porquê e para que fazemos as coisas;
Formar estruturas organizacionais planas, celulares, que se comunicam com interdependência e maturidade, além da própria fronteira;
Trazer a ética como forma essencial de atuação da empresa e não como uma retórica oca ou manipuladora;
Conectar a empresa com todos os seus stakeholders, explicitando sua função social e sustentável;
Olhar para a tecnologia como “recurso” e não fim em si mesma, limitando-a a um uso que trará mais consciência à organização.
Acredito que a filosofia pode salvar as empresas do colapso, porque a sociedade do Ter está se mostrando cada vez mais inviável, com o esgotamento de indivíduos, sociedades e o planeta. Ao resgatar a sabedoria atemporal e perene, seremos capazes de reinventar o mundo, conectando-nos a algo que nos transcende e nos atrai ao mesmo tempo. Conseguiremos caminhar para o que Edgar Morin chama de humanismo planetário: um olhar holístico no qual o Todo é a razão de ser das partes. Neste ideal, o útil deixa de ser um fim em si mesmo, e valores universais permeiam nossas sociedades e organizações.
 
Utopia? Prefiro pensar que é destino, possível de ser alcançado, desde que optemos por sermos mais filósofos.
 
*Paulo Monteiro é filósofo, professor, consultor e autor do livro Antimanual Filosófico: para pessoas inquietas com dogmas organizacionais
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Paulo Monteiro

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]

Sabrina Garcez
29.10.2026
Outubro Rosa: prevenir o câncer de mama é cuidar da vida

O Outubro Rosa é uma campanha mundial de conscientização realizada anualmente, com o objetivo de informar e sensibilizar a população sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento adequado do câncer de mama. No Brasil, algumas iniciativas também ampliam o debate para a prevenção do câncer do colo do útero. Mais do […]