Logo

Com a palavra, os acionistas

09.08.2020 - 14:11:00
WhatsAppFacebookLinkedInX

 O assunto ambiental anda quente na pauta nacional, estimulado pelo preocupante aumento do desmatamento detectado pelo olhar implacável dos satélites. E como, depois do Acordo de Paris (2015), a questão climática e suas medidas mitigadoras deixaram de ser apenas assunto nacional, a fila no guichê de reclamações aumentou em todo mundo. Parece que vamos conviver com isso e o melhor é aprender a gerenciar esses acontecimentos, sem abdicar de soberania. E nessa fogueira tem um pouco de tudo: monitoramento de compromissos e metas da COP 21, ativismo ecológico, protecionismo e outros interesses econômicos, pressões políticas (dentro dos países), geopolítica de blocos internacionais etc.
 
Esse debate reacende uma velha questão do agronegócio: a sua comunicação com a sociedade e o mercado internacional. O setor pode ter lá as suas dívidas ambientais. A discutir. Mas o fato é que desenvolveu um sistema de agricultura tropical sustentável, único no mundo e de alta competitividade, que transformou o país de importador em exportador de alimentos, protagonista na segurança alimentar mundial.  Mérito de seus pesquisadores e agricultores, uma história que ainda precisa ser contada nos mercados do mundo – em seus grandes lances humanos, de inovação e qualidade de oferta. Para um agro que pretende ampliar e aprofundar bem mais a sua inserção internacional, vai ser preciso fazer isso.
 
No mundo contemporâneo, globalizado e interativo, construíram-se sínteses simbólicas sobre vários países – em geral os mais protagonistas em alguma atividade ou então pelo valor agregado que representam para produtos, serviços e cultura. São percepções que flutuam numa espécie de inconsciente coletivo planetário. A França, por exemplo, tem uma natural identidade com requinte, luxo e artes. A Itália com design e paixão. Alemanha com engenharia e precisão. Estados Unidos com tecnologia, poderio. China com produção em massa e custo competitivo, Japão com qualidade. E o Brasil? Bem que poderia ser com alimentos em abundância para o mundo, produzidos com qualidade e gestão adequada do ambiente.
 
Mesmo sem o aval de uma pesquisa de opinião ampla e profunda, é possível imaginar um Brasil visto como sinônimo de belezas naturais, alimentos tropicais, gente alegre, corajosa diante da severidade dos trópicos. Isso significa que só podemos vender nossa natureza e humanidade? Óbvio que não. Marcas brasileiras como Natura e Havaianas fazem tremendo sucesso no exterior vendendo natureza e tropicalidade. Mas também fomos bem-sucedidos vendendo alta tecnologia de aviação, no país do homem que inventou o avião – Santos Dumont. As duas visões mostraram não ser incompatíveis na percepção internacional, o que abre a possibilidade de novas sínteses simbólicas.
 
Em marketing, para se mudar ou ampliar percepções é preciso planejamento, estratégias de longo prazo e investimentos. Porque o mundo é um caldeirão de reverberações e porque a mudança pode afetar referenciais antigos e desejáveis de uma marca, seja ela um produto ou país. Ou seja: precisão, consistência e frequência de marketing e comunicação são essenciais. E o que estamos fazendo neste sentido pelo agro brasileiro, no exterior? Esta é uma pergunta estratégica a ser feita, em paralelo e independente de nosso empenho em consertar as coisas, aqui no país. Trata-se de reflexão urgente, pois em um mundo onde o controle das narrativas decide jogo, a inatividade não só deixa de agregar valor, mas também destrói valor.
 
Há um fundamento que se aprende nas escolas superiores de marketing, que é a identidade de marca: o modo como o acionista quer que sua empresa seja vista pelo mercado. No caso do agro, os acionistas são os agentes econômicos do setor. Começando então pelo fundamento, qual seria a nossa resposta convergente para essa questão?

*Coriolano Xavier é membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e Professor da ESPM

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Coriolano Xavier

*

Postagens Relacionadas
Leonardo Ribeiro
24.02.2026
Quaresma: rumo ao deserto para escutar e viver

Com a graça de Deus iniciamos, unidos com a Igreja, o Tempo da Quaresma. Como todos os anos, neste período de quarenta dias, somos convidados a mergulhar com intensidade e coração aberto neste tempo propício de revisão de vida e conversão pessoal. A própria Liturgia da Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma, […]

Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]

Bruno D´Abadia
12.02.2026
Gestão de dados fortalece operadoras de saúde

O setor de saúde suplementar vive uma transição decisiva. Transparência, integridade da informação e precisão técnica deixaram de ser apenas exigências regulatórias e passaram a influenciar diretamente a sustentabilidade e a credibilidade das operadoras. Em um ambiente cada vez mais monitorado, dados corretos não são apenas números enviados à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). […]

Ralph Rangel
12.02.2026
O Homo Instagramabilis: O crepúsculo da inteligência

Houve um tempo em que o ser humano era definido pela sua capacidade de busca: a busca pelo abrigo, pelo fogo, pela forma de armazenar o alimento, pela verdade, pelo conhecimento profundo, enfim, éramos buscadores. Hoje, essa trajetória evolutiva parece ter sofrido um curto-circuito. Estamos testemunhando a ascensão de um novo tipo de pária social: […]

Luciana Brites
11.02.2026
Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?

O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor e cognitivo. Por este motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras. As atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular. A coordenação motora global […]

Mardonio Pereira da Silva
10.02.2026
Quando o ódio invade a sala de aula: violência, feminicídio e a negação do Direito em um Estado Democrático

A morte brutal da Professora de Direito e policial civil, Juliana Santiago, assassinada dentro da sala de aula por um aluno do 5º período, não é apenas um crime hediondo: é um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito. A barbárie ocorrida no ambiente universitário rompe todas as fronteiras do aceitável e impõe uma reflexão […]