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Pedro Novaes
Pedro Novaes

Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG. / pedro@sertaofilmes.com

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A recusa ao melodrama em Adolescência

| 01.04.25 - 07:58 A recusa ao melodrama em Adolescência Stephen Graham, um dos roteiristas e atores de Adolescência (Foto: Netflix/Divulgação)
Como disse semana passada neste espaço, um dos grandes méritos da série Adolescência, que vem provocando debates apaixonados, reside em não ceder ao apelo fácil do melodrama na abordagem de questões politicamente tão sensíveis.
 
E aqui, para prosseguir, é importante dizer que o termo “melodrama” não carrega de saída, para mim, nenhuma conotação negativa. O melodrama é, antes de tudo, um gênero narrativo, um formato para contar histórias que segue um conjunto de convenções dentro do qual cabem narrativas muito diferentes. Apesar do termo melodrama ser tomado como sinônimo de dramalhões românticos de má qualidade e de, no Brasil, estar especificamente associado às novelas, há bons e maus melodramas, como em qualquer gênero. O formato foi explorado em grandes filmes tanto por diretores clássicos, como Douglas Sirk e Vincent Minnelli, como por cineastas associados a um cinema de corte mais moderno, como Fassbinder, Almodóvar e o hong-konguês Wong Kar-Wai.
 
Mas o melodrama é tão importante para nossa época, nossa cultura e visão de mundo que o crítico norte americano Peter Brooks fala em “imaginação melodramática” para definir um modo de pensar próprio de nosso tempo. O melodrama é uma narrativa  estruturante da própria modernidade. Mais que uma forma de contar histórias com palavras ou imagens, ele é, portanto, uma chave pela qual também interpretamos o mundo e damos sentido a ele. 
 
Esse formato canônico de história se estrutura em torno de algumas polaridades que que nos ajudam a classificar e a ordenar a realidade. Nele, bem e mal figuram apartados e distintos, assim como luz e sombra, virtude e pecado, redenção e culpa. Atravessando esses valores polares, surge também o jogo entre transcendência e imanência, onde o mal é, de forma ambivalente, ao mesmo tempo, fruto das ações humanas e provocado por forças externas e que nos escapam.
 
Em Tudo o que o Céu Permite, por exemplo, clássico do mestre Douglas Sirk, o conflito surge da paixão entre uma viúva mais velha e seu jovem jardineiro. Diante das desconfianças e do preconceito, como sustentar um relacionamento assim? 
 
Aqui, a genialidade da roteirista Peg Fenwick e de Douglas Sirk  molda as convenções do melodrama, construindo uma história bastante moderna para 1955 que deixa o espectador na desconfortável posição de compartilhar dos preconceitos da sociedade - que julga de forma negativa um romance entre pessoas de classes e idades diferentes - mas também mostra, ao mesmo tempo, que essa é uma posição preconceituosa.
 
Mas o melodrama está todo colocado aí: no duelo entre bem e mal, entre a virtude e o pecado, coroado pela superlativização do amor romântico como valor maior e como via para a redenção humana.
 
De um ponto de vista cultural, e mesmo individual, como dito, a imaginação melodramática é um filtro a que recorremos cotidianamente para explicar a realidade. A polarização política extrema que vivemos é, de certa forma, uma renovação do melodrama na esfera pública diante da dificuldade de justificar as contradições insolúveis da política democrática, onde bem e mal surgem sempre misturados e inseparáveis. O ressentimento que respiramos no ar da política de nossos dias é pura imaginação melodramática em ação, na tentativa de situar o mal e a fonte dos problemas sociais no outro - a oposição, o imigrante, a mulher, o homem, o gay, o evangélico, o macumbeiro, o indígena, o comunista.
 
A imaginação melodramática sustenta garantias básicas sem as quais o desafio de dar sentido à vida se torna muito mais difícil. O melodrama garante sobretudo a promessa de justiça, ainda que sempre adiada ou após a morte. O melodrama purga o potencial para o mal que todos carregamos e o coloca em antagonistas - na política, aquele que está do outro lado do espectro. O melodrama oferece salvação - na política, na figura de líderes populistas à direita ou à esquerda, não importa.
 
Tudo bem mais fácil que o penoso esforço da responsabilização individual, onde a cada dia indivíduos e sociedade precisam fazer renúncias difíceis e renunciar ao impulso do exercício arbitrário do poder.
 
Voltando a Adolescência, em se tratando de temas tão delicados e politicamente sensíveis, é surpreendente a maneira contida, ambígua e madura com que a série os aborda. Estamos falando da crise de saúde mental, especialmente entre crianças e adolescentes, da associação desse problema aos algoritmos cruéis das redes sociais, do machismo, da violência de gênero, da falência dos sistemas educacionais e da crise das famílias, cada vez mais incapazes e angustiadas diante de todo esse quadro.
 
Nesse sentido, grande parte do cinema contemporâneo, que se quer moderno e inventivo, é na verdade profundamente melodramático, servindo-se do maniqueísmo característico do gênero para fazer a defesa simplificada de causas políticas, sejam elas de classe, gênero ou identidade. São aqueles filmes que nos fazem sair do cinema com ar de superioridade por nos encontrarmos do lado certo da história.
 
Um dos grandes méritos da série reside em não sucumbir a essa tentação. Ao contrário, o melodrama não encontra espaço em Adolescência. Não há catarse, não há justiça que acomode os conflitos de forma definitiva, não há tampouco culpa encarnada em nenhum personagem, nem mesmo em Jamie, que obviamente é culpado do crime que cometeu, mas não é um vilão de folhetim - ao contrário, nos assusta exatamente por ser um menino comum, parecido com o meu ou o seu filho. 
 
Adolescência não nos alivia circunscrevendo o mal a um território estrangeiro. Ao contrário, situa-o no coração da nossa sociedade.
 

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