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Márcio Jr.
Márcio Jr.

Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado. / marciomechanics@hotmail.com

GUERRILHA POP

Marcello Quintanilha e as luzes do quadrinho brasileiro

| 23.03.19 - 08:02

Mês passado, o GUERRILHA POP falou sobre como as histórias em quadrinhos são uma linguagem tão rica quanto o cinema, a literatura, a música e as artes plásticas. Elencando autores nacionais que todos merecem conhecer, fiz questão de sublinhar o niteroiense radicado em Barcelona, Marcello Quintanilha. Dono de uma obra tão íntima da alma brasileira quanto Machado de Assis ou Glauber Rocha, Quintanilha acaba de lançar Luzes de Niterói – álbum que já havia sido publicado ao final de 2018 na França e em Portugal, arrancando entusiásticos aplausos da crítica.
 
 
A boa nova é que o quadrinista aterrissa em Goiânia na próxima sexta-feira, dia 29 de março, para um lançamento seguido de bate-papo e sessão de autógrafos. O evento, com entrada franca, acontece a partir das 20h na Mandrake Comic Shop (Av. T-3, nº 2673, Galeria Pátio do Lago, Setor Bueno, em frente ao Parque Vaca Brava). Até lá, fique com esta entrevista exclusiva que o GUERRILHA POP fez com o craque.  
 
Luzes de Niterói é um belo título. Como chegou a ele?
Títulos são tão importantes quanto a obra em si. Neste caso, ele deriva da nostalgia de que sou vítima ao trabalhar o entorno no qual o relato transcorre. As luzes noturnas da cidade são marcas indeléveis da minha infância e adolescência, vistas à distância nas antigas barcas de madeira e ferro que cruzavam a Baía da Guanabara. São também o componente lúbrico de uma atmosfera autocrática, de um mundo feito de certezas, onde o Brasil se lançava na aventura do crescimento como nação, de bens de consumo duráveis, de enormes modelos de automóvel, imprevidentes da futura crise do petróleo, sinais da sociedade que emergiu vitoriosa da II Guerra Mundial.
 
Assim como em Fealdade de Fabiano Gorila, Luzes de Niterói traz seu pai como protagonista – promissor beque direito do futebol fluminense dos anos 50. Ainda tem outras histórias de seu Hélcio Quintanilha para contar?
Depois de um novo álbum me sinto completamente vazio. Não estabeleço parâmetros de longo prazo, nem estratégias de realização. A resposta, neste caso, deveria ser “não”.
 
 
 
Graficamente, o álbum apresenta uma arte mais sintética que Tungstênio e Talco de Vidro. Poderia falar um pouco dessa escolha e das dificuldades impostas por este estilo?
Sempre experimento técnicas que são determinadas pela forma em que a história deve ser contada, num sentido que me obriga a reaprender a desenhar constantemente, frequentemente partindo do zero. Sei que pode parecer estranho, mas me sinto muito confortável nesta situação; pesquisando novos recursos, novas formas de expressar a humanidade dos personagens. As dificuldades, portanto, são numerosas demais para serem mencionadas, mas são inerentes a qualquer processo de criação, o que abre uma perspectiva apaixonante do meu ponto de vista, uma vez que cada álbum adquire, mais que um percurso próprio, um organismo único.
 
A paleta de cores adotada em Luzes de Niterói é essencialmente plana. Quais os motivos desta escolha?
Sobretudo a objetividade. Minha intenção era eliminar tudo que não se prestasse à apreensão imediata dos signos. Cabe ressaltar que a paleta de cores se caracteriza por uma gama extremamente limitada, que oscila entre o pastel quente e frio, e intensos focos brilhantes, que traduzem o estado de ânimo dos personagens em momentos chave da narrativa. Chegar a um conjunto tão limitado de cores significou um empenho à parte, descartando várias opções malsucedidas.
 
O que a brasilidade significa para Marcello Quintanilha?
Se a brasilidade pode ser entendida como um conceito, ela não é um ponto de partida ou uma característica determinante na forma de atuar dos indivíduos retratados nas tramas, porque isto nos conduziria a uma série de generalizações que compõem uma ideia relativamente disseminada de brasilidade à qual tenho verdadeira aversão. Logo, o Brasil apresentado nas minhas histórias não responde a uma concepção pré-determinada, mas ao resultado de uma experiência empírica, na qual o conceito de brasilidade está submetido ao da complexidade das relações interpessoais, atuando como filtro da condição humana, expressando valores com os quais qualquer pessoa pode se identificar, independentemente de sua condição geográfica.
 
Mesmo morando há mais de quinze anos em Barcelona, você constantemente afirma que não se sente distante do Brasil. Inverto então a questão: Por que ainda não vimos uma HQ de sua autoria ambientada na Espanha?
Simplesmente porque não senti nenhum apelo nesse sentido até o momento, embora todas as portas estejam abertas. 
 
 
Você tem publicado álbuns em ritmo quase anual. Percebo que isto mantém seu nome aquecido num mercado volátil como o dos quadrinhos. É uma estratégia deliberada de sua parte?
Não, sob nenhuma hipótese, porque sou incapaz de formular qualquer tipo de estratégia, muito menos em termos mercadológicos. Os álbuns têm seu próprio ritmo e nunca submeto sua elaboração a deadlines. Sei que este posicionamento é incomum se levamos em conta as exigências do mercado, mas, através dos anos, tenho conseguido me manter à margem das imposições do mundo editorial, graças ao apoio de editores capazes de assumir uma proposta tão anárquica e confusa como a minha.
 
Luzes de Niterói foi a primeira experiência da Editora Veneta com a plataforma de financiamento coletivo Catarse. Poderia nos falar da parte que lhe coube nessa operação?
Muito pouco, uma vez que toda a campanha foi comandada pela editora. Minha desorganização natural torna impossível para mim tomar partido em uma atividade desse tipo, muito embora considere que o benefício promovido por sistemas de financiamento coletivo, aliado ao impacto das mídias digitais sobre a rotina da produção de quadrinhos no Brasil e no mundo ainda seja difícil de medir. Um exemplo é o quão vibrante a cena brasileira tem permanecido, apesar de uma crise econômica que, anos atrás, quando não dispúnhamos dos mecanismos a que temos acesso nos dias de hoje, seria suficiente para dizimar a maior parte dos materiais, como ocorreu nos anos 1990. 
 
A nostalgia de tempos não vividos é, em certa medida, recorrente em sua obra. Você consegue identificar as razões disso?
Sim, provavelmente pelo eco do universo sintetizado na resposta à primeira pergunta, que me alcançou na meninice. Quando mais moço, observar as parcelas remanescentes de um passado de apogeu econômico dando adeus cotidianamente, seja em forma de fábricas fechando suas portas, campos de futebol sendo loteados, vilas operárias sendo gradativamente descaracterizadas, pequenos comércios locais, umbilicalmente ligados à lógica administrativa do século XIX, fez com que esse conjunto de coisas se mesclasse ao meu DNA,  mas também pelo impacto que a literatura de Machado de Assis, Artur Azevedo e Lima Barreto teve sobre mim, notavelmente pela oportunidade que tive de percorrer as ruas e logradouros nos quais muitos de seus romances, peças e contos se ambientavam, como unidade tangível da experiência literária. 
 
Em 2018 você lançou Todos os Santos, uma espécie de compêndio composto de entrevistas e textos críticos, HQs antigas que permaneciam inéditas – e outras que eram republicadas pela primeira vez –, e notáveis exemplos de seu trabalho como ilustrador. Vejo o livro como uma espécie de artbook do Marcello Quintanilha. De quem foi a ideia do projeto, qual a sua aceitação e, principalmente, o título é uma homenagem a David Bowie?
Artistas como David Bowie jamais escapam da alça de mira, pela coragem com que se impuseram em contextos históricos específicos, pela forma como assumiram riscos. Mas o título “Todos os Santos” evoca o sentido um tanto sacro com que me relaciono com meu trabalho, uma vez que cada item representa o máximo que fui capaz de executar nas respectivas etapas. Uma entrega total, digamos assim. 
 
 
A minha percepção é que você consolidou um público fiel no Brasil. Neste sentido, não é estranho ainda não terem publicado por aqui sua série (roteirizada por Jorge Zentner e Montecarlo) Sept Balles Pour Oxford? Afinal, são sete álbuns...
É muito mais estranho que Schuiten nunca tenha sido publicado no Brasil. 
 
Em 2016 você conquistou o prestigiadíssimo prêmio Fauve Polar, no Festival de Angoulême, com o álbum Tungstênio. Passados três anos, qual o impacto dele em sua carreira?
Inevitavelmente, o alcance que ela passou a ter, chegando a públicos muito diferentes, especialmente se consideramos que meu trabalho não se enquadra em estereótipos editoriais patrocinados pela indústria de quadrinhos em seus principais polos, baseando-se na tradição da literatura brasileira, na cultura das ruas e, mais recentemente, no caso de Niterói, em todo um vernáculo particular, eternizado em manifestações artísticas como as chanchadas, um dos alicerces do que entendemos hoje como cultura de massas no Brasil. 
 
Tungstênio também se transformou em filme, sob direção de Heitor Dhalia. Você poderia sintetizar essa experiência em uma única frase?
Fosse eu o diretor e o filme seria exatamente o mesmo.
 
Um álbum como Luzes de Niterói, com mais de 200 páginas, com certeza não nasceu da noite para o dia. O mais interessante é que só ficamos sabendo de sua existência com a publicação na França e em Portugal, ao final de 2018. Como o futebol é parte indissociável da obra, esconder o jogo fez parte da tática? Caso contrário, em quais projetos você está trabalhando no momento?Realmente, não raciocino nesses termos, nem acho apropriado publicizar trabalhos ainda não veiculados. O fluxo de produção não garante a conclusão efetiva de nenhum projeto e não vejo qualquer sentido em trazer à pauta obras que ainda não estejam disponibilizadas.
 
Agora que o Brasil tem como presidente o Sr. Jair Bolsonaro, você não acha que está na hora de voltar para o país? 
Não se pode voltar ao que nunca se deixou para trás.
 

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Márcio Mário da Paixão Júnior é produtor cultural, mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG. Foi sócio-fundador da Monstro Discos, MMarte Produções e Escola Goiana de Desenho Animado. / marciomechanics@hotmail.com

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