Théo Mariano
Goiânia – Mesmo sem qualquer eficácia comprovada para o tratamento contra o novo coronavírus, a cloroquina foi adotada como tratamento precoce pela Saúde municipal de cidades goianas. Ao menos 6 municípios do Estado receberam cerca de 50 mil comprimidos do remédio em carregamentos enviados pelo Ministério da Saúde (MS) no plano de tratamento à covid-19, em 2020. A informação consta em documento divulgado pelo próprio MS.
Segundo a planilha, as prefeituras que receberam cargas diretamente do Ministério da Saúde são: Trindade (13 mil comprimidos), Porangatu (1,5 mil), Luziânia (20 mil), Anicuns (3,5 mil), Águas Lindas de Goiás (12 mil) e Avelinópolis (500). O documento também aponta a entrega para uma cidade nomeada Jequitiba, que teria recebido outros 1,5 mil comprimidos. Apesar disso, não foi encontrada qualquer ligação do município citado com o estado.
Profissional da saúde trata paciente infectado pela covid-19 / (Foto: Reprodução)
Além das pastas municipais, a Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO) recebeu outros 77 mil comprimidos do governo federal. As entregas, tanto para a pasta estadual quanto às municipais, ocorreram entre agosto e outubro de 2020, segundo aponta planilha do Ministério da Saúde. O recebimento foi confirmado ao jornal A Redação pela própria pasta estadual. Os comprimidos, segundo a secretaria, foram encaminhados aos municípios que fizeram pedido do medicamento, mas até a publicação desta reportagem a lista com os recebedores não foi disponibilizada pela Saúde do Estado.
A SES-GO, no entanto, não recomenda a prescrição de medicamentos do chamado "kit covid-19", que normalmente é composto por cloroquina ou hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina e prednisona. "Há uma preocupação com a forma como estão sendo utilizados tais medicamentos, pois entre eles se incluem antibióticos que, no médio e longo prazo, podem produzir efeitos importantes no indivíduo e na comunidade, sobretudo relacionados à resistência bacteriana. As demais medicações quando usadas de forma inadequada podem provocar sérios problemas de saúde", diz a pasta em nota.
"Nós estamos exaustos"
A voz de cansaço ressoou pelo telefone enquanto a médica infectologista Josela Pacheco, que atua na área de isolamento de pacientes com covid-19 na rede municipal de saúde de Inhumas, defendia em entrevista ao jornal A Redação que "o único tratamento precoce existente é a vacina". "A imprensa noticia apenas alguns poucos casos, mas chegam para nós inúmeros pacientes com doses cavalares de medicamentos do kit covid", contou. "Isso tem sido devastador."
"Tem pessoas que chegam ao hospital tomando corticóide, cloroquina, ivermectina, com uma intoxicação medicamentosa terrível", diz a infectologista. Para ela, a postura do Conselho Federal de Medicina, ao deixar a prescrição dos medicamentos sob critério dos médicos, é "errada". "O médico, consciente de que não há evidência científica, não tem direito de causar dano ao paciente", enfatizou.
"Nós estamos exaustos mental e fisicamente. Não aguentamos mais ver gente morrer. É muito triste olhar para a unidade e não ter ponto de oxigênio, não ter vacina", prossegue. "Cadê a vacina? Por que as pessoas não gritam por vacina?", questionou Josela Pacheco.
As consequências do "kit covid"
Moradora de Goiânia, Anna Morais relatou ao jornal A Redação as consequências da adoção do tratamento precoce contra o novo coronavírus. Ela conta ter utilizado por cinco dias ivermectina, clexane, sulfato de zinco e azitromicina. Além disso, Anna disse que a profissional responsável pela indicação dos remédios também receitou cloroquina após a confirmação de seu teste da covid-19, mas o medicamento, segundo ela, estava em falta e a sua manipulação tinha alto custo.
Mesmo sem tomar cloroquina, o tratamento precoce de Anna acarretou em sérios problemas de saúde. "O excesso de medicamentos em poucos dias desenvolveu um processo inflamatório gástrico e esteatose hepática", revelou. "Lembro que tomava nove comprimidos de ivermectina por dia e doses elevadas de azitromicina", disse Anna. Segundo ela, todas as doses foram prescritas por uma médica da rede particular de saúde de Goiânia.
A entrevistada contou ao jornal A Redação que realiza há seis meses tratamento médico devido às consequências do uso do kit covid. "O fígado ficou muito fragilizado, e o médico suspendeu uso de qualquer medicamento. Isso foi muito sofrido, pois após a covid-19 as dores de cabeças foram intensas e constantes. Segui até novembro [de 2020] sem ingerir nada que pudesse provocar algum dano ao fígado, incluindo alimentação restritiva e restrição de atividade física."
O que pesquisadores dizem
No dia 17 de junho de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou a paralisação dos testes com uso de hidroxicloroquina para tratar pacientes da covid-19. Segundo a pesquisa, a medicação não surtiu qualquer impacto na redução de mortes de pacientes infectados pelo vírus.
O estudo da OMS foi conduzido em mais de 400 hospitais, espalhados por 30 países, e envolveu 11.266 pacientes. O documento, em inglês, pode ser lido
aqui. O levantamento exclui qualquer benefício do uso de hidroxicloroquina para pacientes internados com covid-19.
No próprio
site da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), entidade da OMS, diz-se que as evidências disponíveis sobre o uso de cloroquina e hidroxicloroquina são insuficientes. "A maioria das pesquisas até agora sugere que não há benefício e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais do medicamento [no tratamento contra a covid-19]."
A valsa do tratamento precoce brasileiro
Em dado momento do combate à pandemia, no mês de janeiro deste ano, Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, proporcionou uma cena intrigante para quem acompanha diariamente as notícias relacionadas à covid-19: afirmou, com todas as palavras, nunca ter defendido o tratamento precoce.
Ao ser questionado sobre o tema, Pazuello foi enfático: "temos divulgado desde junho o atendimento precoce. Não confundam atendimento precoce com que remédio tomar. Não coloquem isso errado. Nós incentivamos e orientamos que a pessoa doente procure imediatamente um médico. Que o médico faça o diagnóstico. Esse é o atendimento precoce.”
As declarações ganharam as redes sociais. Muitos internautas resgataram entrevistas antigas de Pazuello e destacaram, entre outros pontos, que o presidente Jair Bolsonaro, inclusive, defendeu o uso do medicamento reiteradas vezes desde o início da pandemia no país.
Presidente Jair Bolsonaro segura caixa de hidroxicloroquina durante posse de Eduardo Pazuello como titular do MS em setembro de 2020 / (Foto: Carolina Antunes/PR/Fotos Públicas)
Além disso, enquanto chefe interino da pasta, o general Pazuello assinou protocolo sobre o uso da hidroxicloroquina para enfrentamento do novo coronavírus. A publicação da nota acabou surtindo consequência posterior, com o
posicionamento do Conselho Nacional de Saúde (CNS) pedindo a revogação de qualquer nota técnica do MS que indique o uso de medicamentos com eficácia não comprovada para tratamento da covid-19.
O tema foi comentado, inclusive, por uma especialista cotada para assumir o lugar de Pazuello na Saúde.
Após recusar convite para substituir general Pazuello na Saúde, a médica cardiologista Ludhmila Hajjar confirmou a necessidade de se ter tratamento precoce, mas não com uso de medicamentos como cloroquina, ivermectina e azitromicina – os quais não possuem comprovação da eficácia para tratar a covid-19.
"Todo o mundo sabe que o paciente tem que ser atendido precocemente. Isso é fato. Entretanto, algumas medicações pregadas, como a cloroquina, ivermectina, azitromicina, o zinco e a vitamina C, já demonstraram não ser eficazes no tratamento da doença. Minha posição sempre foi e sempre será essa", disse Ludhmila durante entrevista à CNN.
Médica cardiologista Ludhmila Hajjar, que recusou convite de Bolsonaro para assumir Ministério da Saúde / (Foto: Divulgação)
A cardiologista ainda relatou que, no início da pandemia, se procurava “uma salvação”. “Nós estávamos no desespero. Muitos de nós já prescreveram cloroquina e eu também. Até que fomos lidando, felizmente, com os resultados que a ciência nos traz. Inúmeros estudos vieram para mostrar de forma definitiva a não eficácia desses medicamentos. Isso é algo que eu pontuei para mim e é algo do passado", afirmou.
O que dizem as instituições
O jornal A Redação questionou o Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) acerca da adoção de medidas jurídicas contra aquelas prefeituras que insistirem no uso da cloroquina para o tratamento do novo coronavírus, visto que não há comprovação de sua eficácia e os testes com o medicamento foram abandonados – como visto acima.
Em nota, o MP-GO disse poder, “de acordo com a autonomia funcional de cada membro e em caso de uso de recursos públicos, adotar providências com base na ausência de comprovação científica do uso de tal medicamento para o tratamento da covid-19”. Apesar disso, as medidas não foram detalhadas.
A posição é semelhante à que foi enviada ao jornal A Redação pela Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SES-GO). Mesmo não recomendando o uso do kit covid para tratar a doença, a pasta estadual afirmou seguir orientações de distribuição e uso da cloroquina previstas pelo Ministério da Saúde, "considerando a prescrição como um ato médico, sendo o profissional o responsável pela avaliação de cada caso."
O Ministério Público também defendeu a autonomia de médicos “para prescrever o medicamento que ele entenda adequado ao tratamento de seus pacientes”. O próprio Conselho Federal de Medicina (CFM), entidade máxima do segmento e responsável pela fiscalização da atuação destes profissionais da saúde, respalda ser decisão do médico realizar o tratamento “que julgar adequado”. “Desde que com a concordância do paciente infectado — elucidando que não existe benefício comprovado no tratamento farmacológico dessa doença e obtendo o consentimento livre e esclarecido”, diz o CFM.
A deliberação, no entanto, não dialoga com alguns artigos do
Código de Ética da Medicina, disponível no site do Conselho, como, por exemplo, o 21º princípio fundamental da medicina: “no processo de tomada de decisões profissionais, de acordo com seus ditames de consciência e as previsões legais, o médico aceitará as escolhas de seus pacientes relativas aos procedimentos diagnósticos e terapêuticos por eles expressos, desde que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas.”
Além disso, nos dispositivos sobre os direitos do médico do Código citado, o artigo II reforça ser direito do profissional “indicar o procedimento adequado ao paciente, observadas as práticas cientificamente reconhecidas e respeitada a legislação vigente”.
Um outro dispositivo, este sobre o que é vedado ao profissional da saúde, diz em seu artigo 20 ser proibido "permitir que interesses pecuniários, políticos, religiosos ou de quaisquer outras ordens, do seu empregador ou superior hierárquico ou do financiador público ou privado da assistência à saúde, interfiram na escolha dos melhores meios de prevenção, diagnóstico ou tratamento disponíveis e cientificamente reconhecidos no interesse da saúde do paciente ou da sociedade".
Todos eles apontam o mesmo caminho: a indicação de tratamentos “cientificamente” reconhecidos, o que não é o caso da cloroquina. Apesar desse não reconhecimento, o Ministério Público Federal em Goiás (MPF-GO) emitiu nota, cuja responsabilidade foi assinada pelos médicos infectologistas Ricardo Ariel Zimerman e Francisco Eduardo Cardoso Alves, pela biomédica Rute Alves Pereira e Costa e pelo psicólogo Bruno Campello de Souza, defendendo o uso do “tratamento inicial” com cloroquina.
Na justificativa, a nota do MPF-GO se baseia em duas resoluções: a nota técnica do Ministério da Saúde, já citada na matéria e rechaçada pelo Conselho Nacional de Saúde, e o parecer do CFM, também citado. A íntegra do posicionamento publicado pelo Ministério Público Federal em Goiás você pode acessar
aqui.