Logo

Cláusula de barreira ameaça 11 partidos no Brasil e provoca movimentações em Goiás

Regra eleitoral acelera rearranjos políticos

17.01.2026 - 07:55:29
WhatsAppFacebookLinkedInX

Samuel Straioto

Goiânia – Ao menos 11 partidos políticos no Brasil enfrentam o risco de perder acesso ao fundo partidário e ao tempo de rádio e TV nas eleições de 2026 por causa da cláusula de barreira. A regra, estabelecida pela minirreforma eleitoral de 2017, determina que as legendas precisarão eleger 13 deputados federais ou obter 2,5% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados, com pelo menos 1,5% em nove Estados. Para tentar sobreviver, essas agremiações buscam acordos que devem resultar em fusões ou em novas federações antes do pleito de outubro.

Entre os partidos ameaçados estão PSDB, Cidadania, Podemos, Solidariedade, PSB, PDT, PV, Rede, Avante, PRD e Novo. Em Goiás, o impacto provoca movimentações estratégicas, com debandada de parlamentares do PSDB, PRD e PDT.

Tucanos

O caso mais emblemático é o do PSDB, que atualmente conta com uma bancada de 13 parlamentares e está federado com o Cidadania, que tem outros cinco deputados. A federação, criada em 2021, permite que dois ou mais partidos se unam e funcionem obrigatoriamente juntos por quatro anos. As legendas precisam tomar decisões em conjunto a nível nacional, inclusive durante as eleições e dentro do Congresso Nacional, embora cada um mantenha sua estrutura partidária. Caso rompam a união antes do tempo, os partidos estão sujeitos a punições, como perda do fundo eleitoral e partidário e a proibição de fechar outra federação ou coligação.

Lideranças do PSDB e do Cidadania já admitem nos bastidores que a federação entre ambos será extinta no ano que vem devido aos conflitos internos. Nas últimas semanas, quando ainda era presidente nacional do PSDB, o ex-governador Marconi Perillo chegou a tentar acordo com outras siglas como PSD e MDB, mas as tratativas não avançaram. Para evitar um encolhimento ainda maior e uma debandada de deputados na próxima janela partidária, a cúpula do PSDB estuda agora a possibilidade de fusão com o Podemos ou com o Solidariedade, que também obtêm resultados eleitorais cada vez mais próximos aos exigidos pela cláusula de barreira.

Única deputada federal eleita pelo PSDB goiano em 2022, Lêda Borges deve deixar o partido. Foto: Gilmar Félix – Câmara dos Deputados.

Para a advogada eleitoralista Mariana Vasconcelos Prado, a fusão é uma alternativa mais drástica do que a federação. “A diferença fundamental é que, na federação, os partidos mantêm sua autonomia e suas direções próprias. Eles apenas se unem em questões estratégicas, mas continuam funcionando de maneira independente. Já na fusão, as legendas envolvidas deixam de existir para a criação de uma nova agremiação”, explica.

A especialista observa que muitos partidos resistem à fusão justamente por questões de identidade. “Há uma questão simbólica importante. Partidos com décadas de história não querem simplesmente desaparecer. A federação permite que mantenham seus nomes, suas bandeiras, seus estatutos, mesmo que precisem atuar em bloco nas decisões maiores. É uma solução de compromisso entre a sobrevivência política e a preservação da memória institucional”, analisa Mariana.

Esquerda

Partidos de esquerda também vêm obtendo resultados eleitorais próximos aos limites da cláusula de barreira. O PSB, legenda do vice-presidente Geraldo Alckmin, tem atualmente 15 deputados e discute internamente uma federação com o PDT, que conta com 17 parlamentares. As negociações, no entanto, estão travadas diante do embate entre os irmãos Ciro Gomes e o senador Cid Gomes, que recentemente deixou o PDT e migrou para o PSB diante da rixa familiar. Integrantes do PSB admitem que as conversas estão travadas e outras alianças com o Cidadania, PV e a Rede também estão na mesa de negociações.

O PV está atualmente federado com o PT e o PCdoB, mas há divergências internas e representantes do partido não se sentem ouvidos na aliança. O PV é o único da federação que não foi contemplado no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Rede, federada com o PSOL, também busca novas alternativas, já que ambos os acordos não serão renovados para a próxima legislatura.

O cientista político Rodrigo Andrade observa que o cenário ilustra as contradições da cláusula de barreira. “Em tese, a regra deveria fortalecer o sistema partidário brasileiro, reduzindo a fragmentação e tornando as legendas mais representativas. Mas o que vemos na prática é um movimento de autopreservação que nem sempre respeita identidades ideológicas ou compromissos programáticos. Deputados migram não por afinidade política, mas por estratégia de sobrevivência institucional”, analisa.

Centrão

Na contramão dos partidos ameaçados, legendas do Centrão discutem uma federação para ampliar o poder de barganha no Congresso Nacional. As negociações envolvem o União Brasil, o Republicanos e o PP. Caso seja confirmada, a composição formaria um dos mais fortes grupos dentro da Câmara, com mais de 150 deputados, e ultrapassaria com folga a maior bancada hoje na Casa: a do PL, com 98 deputados.

As conversas entre União Brasil e PP estão avançadas, mas os líderes de ambos os partidos ainda tentam atrair o Republicanos. Essa federação, no entanto, tem sido travada por questões locais, porque há estados e cidades em que políticos do Republicanos são adversários de políticos do PP e do União Brasil. A decisão final sobre o tema será dada pelo presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP). A expectativa é de que Pereira ainda tenha conversas com os presidentes do PP e do União Brasil, Ciro Nogueira e Antônio de Rueda, respectivamente. O prazo para as negociações, segundo parlamentares dos três partidos, é até o final de abril deste ano.

Mariana Vasconcelos Prado ressalta que a federação tem vantagens eleitorais e financeiras, como a soma dos fundos partidário e eleitoral, mas também apresenta desafios operacionais. “Um dos principais problemas é a necessidade de verticalização. Os partidos que se unem em nível nacional precisam estar juntos também nos estados e municípios, o que pode gerar conflitos em localidades onde há rivalidades históricas entre os políticos dessas legendas”, pontua.

Desde 2018, a cláusula de barreira já levou à extinção, seja por fusão ou incorporação, de PPL, PRP, PHS, Pros, PSC, Patriota e PTB.

Goiás

No estado, o impacto da cláusula de barreira já provoca movimentações estratégicas que devem redefinir alianças para o próximo pleito. Os partidos mais afetados localmente são PSDB, PRD e PDT, que enfrentam debandada de seus principais quadros.

Em Goiás, o PRD sofrerá uma baixa significativa com a saída da deputada federal Magda Mofatto, que anunciou seu retorno ao PL. A parlamentar deixará a legenda que presidiu por dois anos em um movimento articulado pelo governador Ronaldo Caiado (União Brasil). A mudança faz parte da estratégia do grupo governista de construir uma aliança com o partido do ex-presidente Jair Bolsonaro visando as eleições estaduais.

Após passar dois anos no comando do PRD em Goiás, Magda Mofatto acertou o retorno ao PL em negociação conduzida pelo presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, e finalizada na última terça-feira (13), após conversa entre Caiado e Flávio Canedo, marido da parlamentar. Durante audiência com Canedo, o governador conversou com a deputada por telefone para ajustar os detalhes do movimento, cujo pano de fundo é a costura de apoio dos bolsonaristas ao vice-governador Daniel Vilela (MDB). Em um cenário no qual o senador Wilder Morais insiste em disputar o Palácio das Esmeraldas, Magda afirma que volta ao PL para “pacificar essa situação no Estado de Goiás”.

PRD perderá a deputada federal Magda Mofatto, que retornará ao PL. Foto: Portal Câmara dos Deputados.

Rodrigo Andrade destaca que as articulações do governador exemplificam como lideranças regionais usam a cláusula de barreira a seu favor. “Caiado está aproveitando a fragilidade de partidos menores para consolidar alianças que fortaleçam seu projeto político para 2026. A volta de Magda Mofatto ao PL e a aproximação com os bolsonaristas mostram pragmatismo político em detrimento de coerência ideológica”, avalia.

O PSDB elegeu em 2022 apenas uma deputada federal por Goiás: Lêda Borges. O ex-governador Marconi Perillo, que foi candidato ao Senado naquela eleição e perdeu, agora figura como pré-candidato ao governo estadual. Embora ainda filiada à legenda, a parlamentar está fora do ninho tucano desde 2023 e deve migrar para o Republicanos assim que abrir a janela partidária. A informação foi confirmada no final de 2025 pelo presidente do Republicanos em Goiás e ex-prefeito de Anápolis, Roberto Naves, que assegurou que o compromisso de filiação foi firmado também com a direção nacional do partido. Com a saída iminente de Lêda Borges, o PSDB ficará sem qualquer representante goiano na Câmara dos Deputados.

“O que vemos em Goiás é um microcosmo do que acontece nacionalmente. Partidos históricos, que ajudaram a construir a redemocratização brasileira, estão sendo esvaziados. O PSDB teve três presidentes da República e agora pode desaparecer ou se tornar irrelevante. Isso empobrece o debate democrático e concentra ainda mais poder em legendas sem perfil ideológico claro, os chamados partidos de aluguel”, adverte Rodrigo Andrade.

Deputada Flávia Morais pode deixar o PDT. Foto: Portal Câmara dos Deputados.

Em Goiás, a deputada federal Flávia Morais, do PDT, tem recebido convites de outras legendas desde o ano passado. Ao menos quatro partidos já demonstraram interesse na parlamentar: o PP do deputado federal Adriano do Baldy, o Republicanos do deputado federal Jeferson Rodrigues, o Avante de Bruno Peixoto, presidente da Assembleia Legislativa (ainda filiado ao União Brasil), e o PSD do senador Vanderlan Cardoso.

Para Rodrigo Andrade, o ano de 2025 será decisivo. “Até abril, teremos clareza sobre quais partidos sobreviverão, quais serão fusionados e quais desaparecerão. Em Goiás, o PSDB e o PRD parecem fadados à extinção ou a uma refundação completa. Já o PDT ainda tem chances de sobreviver se conseguir uma boa federação nacionalmente, mas corre o risco de perder quadros importantes no estado”, conclui.

 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Samuel Straioto
Postagens Relacionadas
Política
24.02.2026
STF e Congresso fazem acordo para criação de regra de transição para ‘penduricalhos’

São Paulo – O Supremo Tribunal FederaL (STF) informou nesta terça-feira (24/2), que a Corte e o Congresso Nacional firmaram acordo para a criação de uma regra de transição para os chamados “penduricalhos”. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, se reuniu com os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara dos Deputados, […]

eleições 2026
24.02.2026
Caiado recebe deputados da base e reforça unidade em torno de Daniel Vilela

Ludymila Siqueira Goiânia – A pouco mais de um mês de deixar o comando do Governo de Goiás para se dedicar à pré-candidatura ao Planalto, o governador Ronaldo Caiado (PSD) se reuniu, em Goiânia, na noite de segunda-feira (23/2), com deputados estaduais da base governista para tratar de assuntos relacionados a emendas parlamentares e composições […]

Justiça
24.02.2026
OAB Nacional pede a Fachin que STF acabe com inquérito das Fake News

São Paulo – O Conselho Federal da OAB encaminhou nesta segunda-feira (23/2), um ofício ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, manifestando preocupação e solicitando o encerramento do inquérito das Fake News, aberto em março de 2019 sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Prestes a completar sete anos, o “inquérito […]

notícias
23.02.2026
“Prova de que existem nomes comprometidos com a população”, diz Iuri Godinho sobre Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás

A Redação Goiânia – Visto como uma espécie de termômetro, que mede a repercussão do trabalho realizado pelos indicados, o Prêmio Mais Influentes da Política em Goiás chegou, nesta segunda-feira (23/2), à sua 16ª edição. Celebrando nomes que se destacaram em áreas como cultura, segurança pública, saúde, turismo e meio ambiente, o resultado contempla os nomes mais citados […]

Política
23.02.2026
Professor Alcides diz que saída do PL não teve aval de Michelle Bolsonaro, mas ex-primeira-dama desmente goiano

A Redação Goiânia – De saída do PL e com destino já definido – o PSDB de Marconi Perillo, o deputado federal Professor Alcides disse, em entrevista nesta segunda-feira (23/2), que a decisão não foi aprovada por parte da cúpula do partido. Segundo ele, sua permanência na sigla teria sido defendida pelo presidente nacional da […]

qualificação profissional, empreendedorismo e geração de renda
23.02.2026
Gracinha Caiado anuncia investimento de R$ 10 milhões para o Crédito Social em 2026

A Redação Goiânia – A coordenadora do Goiás Social, primeira-dama Gracinha Caiado, garantiu nesta segunda-feira (23/2) o investimento de R$ 10 milhões para o programa Crédito Social em 2026. O anúncio foi realizado durante evento de entrega de cartões do programa e de certificados de conclusão de cursos profissionalizantes do Colégio Tecnológico de Goiás (Cotec) […]

Infraestrutura
23.02.2026
Mabel lança programa para executar obras sugeridas pela população

A Redação Goiânia – O prefeito de Goiânia, Sandro Mabel, lançou o programa Obras Cidadãs, nesta segunda-feira (23/2). O programa prevê a execução de obras de menor porte, indicadas pela população dos bairros. A reivindicação nas áreas de pavimentação, drenagem, iluminação pública e manutenção de espaços públicos será repassada à prefeitura de Goiânia pelos vereadores […]

POLÍTICA
23.02.2026
Na Coreia do Sul, Lula encontra presidente e empresários do país

Brasília – Em viagem à Coreia do Sul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem encontro com o presidente Lee Jae-myung nesta segunda-feira, 23, além de encontro com empresários. Veja agenda completa: – 10h (horário local) / 22h (horário de Brasília) – Cerimônia de deposição de oferenda floral, Cemitério Nacional de Seul. – 10h30 […]