Logo

Ciúme é vírus eleitoral

WhatsAppFacebookLinkedInX
14.04.2020 - 10:05:22

Goiânia – A lembrança de Hannah Arendt cai bem nesse momento: "a inveja era o vício nacional na antiga Grécia". Pois é, o presidente da República tem usado seus espaços de expressão para azucrinar o ministro da Saúde, Luiz Mandetta. Seria o ministro um arrogante, o poder teria subido à sua cabeça e, mais, quem tem o poder da caneta é ele, que comanda o país. Foi um puxão de orelhas em Mandetta. No pronunciamento da última quarta, Bolsonaro levantou bandeira branca. Em termos. Garantiu que “grande maioria dos brasileiros quer voltar a trabalhar. Essa sempre foi minha orientação a todos os ministros, observadas as normas do Ministério da Saúde”. Ou seja, repete a tese que defende, desta feita sob a obediência à visão do Mandetta.

 
O ministro permaneceu no cargo por intercessão dos generais do Planalto, insistindo na defesa do isolamento social, barreira mais eficaz para atenuar a devastação causada pela covid-19.
 
São muitos os exemplos de fritura de ministros ao longo dos ciclos políticos, mas nunca se viu uma situação tão constrangedora como esta última: um presidente da República destratando publicamente um dos seus mais importantes auxiliares. Que conta com maciço apoio da sociedade.
 
Qual o motivo de tanta desconsideração e deselegância? Ciúme? Inveja? Se for isso, Bolsonaro puxa esse vício para o tabuleiro da política.
 
Não é preciso conhecimento avançado para se aduzir que o presidente Jair aprecia conviver com situações inseridas no departamento das "coisas politicamente incorretas". Falar mal de ministros, dar pitos públicos, puxar a orelha de uns e outros, fazer piadas de mau gosto, apelar para símbolos sexuais e usar expressões misógenas e machistas, são pistas que apontam para a incivilidade do mandatário-mor da República.
 
Para quem acompanhou a vida do tenente aposentado como capitão e, depois, parlamentar por quase 28 anos na Câmara Federal, sabe que a trajetória de Sua Excelência foi uma cruzada cheia de curvas, posições discriminatórias, exaltação aos anos de chumbo e a torturadores, enfim, um roteiro pavimentado com o cimento da polêmica. Quem imaginou que, no cargo de presidente, poderia agregar algum refinamento e adotar a liturgia do poder, enganou-se. O presidente mudou pouco hábitos de outrora.
 
A par da ausência de saberes compatíveis com as exigências do cargo, o presidente dá sinais de que se vale de três assessores fundamentais:  os três filhos, o senador Flávio, o deputado Eduardo e o vereador Carlos, sendo este apontado como coordenador do "gabinete do ódio", acusado de fabricar fake news. O fato é que os impulsos emotivos da filharada parecem pesar sobre o processo presidencial de decisão.
 
Nesse ponto, voltemos ao episódio que culminou com a execração pública do ministro Mandetta. Bolsonaro teria ficado com ciúmes do prestígio adquirido pelo ministro junto à opinião pública, nos moldes de postura assemelhada quando se distanciou de Sérgio Moro e Paulo Guedes. Com um drible, Mandetta referiu-se de maneira indireta ao assunto. Contou ter voltado a ler o "Mito da Caverna", que aparece na República de Platão. "Já li umas 20 vezes e até hoje não consegui entender", frisou o ministro.
 
O mito platônico trata de conhecimento e ignorância. Fala da caverna escura onde homens vivem acorrentados, vendo apenas sombras. Platão – dizem os estudiosos – coloca na boca de Sócrates três imagens – o sol, uma linha divisória entre o inteligível e o mito da caverna, alegoria para explicar que a maior parte dos homens permanece na ignorância, sendo o filósofo aquele que sai da caverna e vê as coisas como são.
 
Seria uma ironia ao 'mito' como Bolsonaro é chamado? Os sábios nos brindam com aulas sobre a inveja. Bacon preconizava: "O homem que não tiver virtude própria sempre invejará a virtude dos outros. A razão disso é que a alma humana se nutre do bem próprio ou do mal alheio, e aquela que carece de um, aspira a obter o outro, e aquele que está longe de esperar obter méritos de outrem, procurará se nivelar com ele, destruindo a sua fortuna".
 
Dante Alighieri reservou um dos espaços do purgatório aos invejosos, que teriam os olhos costurados com arame. Nada vendo, não podem mais invejar. E Santo Agostinho definia a inveja como a tristeza pela felicidade dos outros ("tristitia alienum bonum"), a dor pelo sucesso alheio.
 
O presidente da República tem de sair da caverna, onde sofre com o sucesso de outros, para ver não apenas sombras, mas a verdade do mundo real.
 
Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Gaudêncio Torquato

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]