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Cidade das cicatrizes

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23.12.2011 - 22:13:20


Assim que saí do aeroporto e cheguei à estação de trem em Berlim, essa capital provocou em mim uma sensação que se manteria pelo resto de minha estadia. Um silêncio profundo se fazia de trilha sonora. As árvores já sem nenhuma folhinha, respirei um ar gelado e senti um frio na barriga, senti que estava, de fato, de frente para uma cidade carregada de história dura. Senti que o que viveria ali seria diferente de tudo que vira até então. E foi. Berlim não é uma cidade linda, de encher os olhos como Paris e Roma. E não carrega a simpatia de cidades como Madri e Lisboa. Mas, sem dúvida, foi a cidade que mais balançou comigo.

Berlim quis me fazer chorar muitas vezes. Porque ela é palco de história viva, mas não como Roma. Estou falando de história recente e dolorida. Muito violenta. Que ainda está em todos os cantos e deve, mesmo, estar. Para que nunca se esqueça. Com mais de 700 anos, Berlim não tem, absolutamente, nenhuma cara de velha. Reconstruída, reconstruída e reconstruída, Leander (um dos meninos donos da casa onde fiquei hospedada) definiu bem a capital: é cheia de cicatrizes. Algumas bem frescas. Recém-saída de uma guerra extremamente violenta, viveu tempos de divisão e liberdades cerceadas. Tudo isso há menos de 80 anos. 
 

É inverno, o Natal se aproxima, a cidade é silenciosa, os traços de sua história estão em cada esquina e estou só. Todos esses elementos parecem ter casado perfeitamente com o último. Tive os dias todos para observar, pensar, digerir Berlim. Passar o dia todo sem conversar, limitada às falas de quando peço algo para comer. De noite, chegava na casa onde estava hospedada, abria uma cerveja e compartilhava com os meninos alemães minha impressões. "Yes, we are not proud of what our grandparents have done" (Sim, não temos orgulho do que nossos avós fizeram), disse Leander.

Eu não consegui nem fazer qualquer comentário depois dessa fala. Era isso, agora, sim, eu me dava conta de que eu convivia com netos e filhos de quem participou do episódio mais violento contra a humanidade. Berlim não quis me fazer dizer: que lindo! Ela quis me impressionar, me fazer pensar e questionar o que os homens têm feito. Deixei o Museu dos Judeus com a mesma sensação que deixei o do Apartheid, na África do Sul ano passado: quem garante que isso nunca mais se repetirá? Quem vai dizer que os homens têm hoje maturidade política suficiente para manter e exercer, de fato, a liberdade e a igualdade? Quais os próximos capítulos dessa história? E da trajetória dos judeus?

Todos esses questionamentos foram amenizados quando senti os floquinhos de neve caindo levemente quando deixei o museu. Olhava para cima, olhava para meu casaco ficando branquinho e ri sozinha, como uma criança que sai correndo para o quintal tomar banho da primeira chuva de verão. Todas as emoções e impressões misturadas com a beleza ímpar que Berlim carrega. Um charme e um movimento que são somente dela. Tudo isso decorado pelo inverno que toma a cidade. Caminhei, caminhei e senti Berlim, suas pessoas, o Natal e o inverno. 

Do museu Topografia do Terror segui para o dos Judeus. O percurso casou bem com o que vi. Das fotos, vídeos e descrições perfeitas das massas que foram para os campos, conheci os rostos, histórias e dores de indivíduos dessa multidão. Não ingenuamente, acredito que seja mesmo esse objetivo do museu dos Judeus: mostrar que não foram milhões de pessoas mortas e exiladas, mas quem elas foram. São objetos que contam histórias. Uma máquina Singer de um dono de confecção que acabou num campo de concentração, mas sua filha e esposa conseguiram não ter o mesmo fim e tocar o negócio. Um piano que chegou ao museu em 2005. A filha da antiga proprietária do instrumento foi quem doou. Sua mãe se exilou na África do Sul, casou-se e omitiu ser judia. Somente com sua morte, a filha soube do passado da mãe. Ou saber ainda da história de Coco Schumann que sobreviveu aos campos graças à sua música. Guitarrista de jazz, tocava para os soldados, que muito o apreciavam. Tocava também para os seus companheiros sendo conduzidos às câmaras de gás.

"Isso nunca deveria ter acontecido." Era esse o trecho da entrevista com a filósofa judia Hannah Arendt que se repetia no museu. E ela se referia aos campos de concentração. "Nós sabíamos que eram capazes de tudo. Mas isso não". Isso tudo com o consentimento e contribuição de todo um povo. Como mostrava uma carta enviada à Gestapo em que uma alemã diz que havia judeus ainda morando em seu prédio, pedindo que os tirasse de lá.

 E "para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça" Berlim te choca, te emociona com todos seus museus, pedaços do muro ainda erguidos, cheios de arte, também com checkpoint Charlie ou memorial aos judeus mortos. Com charme, histórias e cicatrizes Berlim encanta. E, para não perder o costume, mais uma vez deixo uma cidade querendo logo voltar.

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por Nádia Junqueira

*Nádia Junqueira é jornalista e mestre em Filosofia Política (UFG).

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