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“Cepa anda de Ferrari. Vacinação vai de carroça”, afirma Mandetta

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01.03.2021 - 10:16:22

São Paulo – Um ano após o registro do primeiro caso da covid-19 no Brasil, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM), que comandou a pasta nos meses iniciais da pandemia, vê o País como uma nau sem rumo, o Sistema Único de Saúde (SUS) destruído e a situação do País cada vez mais grave. "A cepa mais transmissível anda de Ferrari. Já a campanha de vacinação vai de carroça", disse.

Mandetta tornou-se personagem central nos primeiros meses de pandemia ao divergir da postura do presidente Jair Bolsonaro, que minimizava a força da doença. Bolsonaro o demitiu em 16 de abril. O ex-ministro afirmou que vai participar "ativamente" das eleições de 2022, "como eleitor, cidadão ou candidato", mas que estará em caminho diferente da "esquerda equivocada" e do "Bolsonaro desequilibrado".

Quando o senhor ouviu falar sobre a covid-19 e em que momento percebeu que se tratava de uma doença grave? O Brasil foi um dos primeiros países a questionar a OMS (Organização Mundial da Saúde) sobre a doença, quando o Wanderson Oliveira (ex-secretário de Vigilância Sanitária) ouviu ruídos sobre o vírus. Quando fui para o Fórum de Davos, parei em Genebra. Iria jantar com Tedros (Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS), mas ele disse que não iria participar, pois haveria reunião no comitê de emergência sobre a doença. Eles (a cúpula da OMS) racharam sobre declarar emergência global. Aí fizeram (a declaração): é uma emergência para Wuhan e um alerta internacional.

Quando o senhor falou ao presidente que a doença causaria uma grave crise?
Quando tivemos o primeiro caso no Brasil e o sistema de saúde da Itália caiu. Mas ele começou a entrar na vibe do Trump, não dimensionou. Ele tinha uma viagem aos EUA. Eu já estava dando o alerta. Eles não queriam usar nem álcool em gel para não transparecer preocupação.

Em que momento o senhor percebeu que Bolsonaro assumiu postura diferente daquela recomendada pela Saúde?
O presidente começou a forçar saídas e aglomerações. A imprensa me perguntando: "Você está dizendo para o pessoal se cuidar e o presidente fica saindo". Ele me convidou (para as saídas), mas como percebeu que eu não iria começou a chamar o presidente da Anvisa (Antonio Barra Torres). A Anvisa servia como autoridade de saúde para legitimar aquilo. O presidente me chamou para uma live e disse (aos apoiadores) que era melhor não irem à manifestação, mas no domingo ele sai, abraça, beija. Era para ele estar em quarentena, porque teve contato com infectados na viagem aos EUA. Daquele momento para frente foi só… "bom, não vou poder contar com ele para enfrentar isso".

Com as informações disponíveis hoje sobre a doença, o senhor teria feito algo diferente no cargo de ministro?
Não. Eles não queriam fazer nenhuma campanha de esclarecimento ao público. Passei a utilizar a imprensa, fazer coletivas, para a imprensa fazer o papel que foi fundamental naquele momento. Chegamos a zerar as máscaras. Então dissemos: use máscara de pano. Conseguimos um navio da China de equipamentos de proteção porque eu pedi ao ministro para deixar sair o último navio. Fazia licitação e dava "zero". Pessoal querendo cobrar a máscara a R$ 8 por unidade. Abrimos linha de montagem para respiradores. E foi  que salvou. No meio disso ainda havia um conflito com a China.

O senhor acha que errou ao autorizar a primeira orientação sobre o uso da cloroquina?
Não, naquele momento havia consenso sobre uso compassivo, inclusive pela OMS, como última tentativa. Autorizei para uso hospitalar. Agora, colocar isso na rede, recomendar tratamento com cloroquina, aquilo não. Na semana anterior à minha saída, me chamaram numa sala onde estava a Nise Yamaguchi (médica defensora da cloroquina) e ministros. Havia uma minuta de decreto, mas não oficial, em papel timbrado, com sugestão para que a Anvisa colocasse indicação para covid na bula da cloroquina. Olhei para o presidente da Anvisa e ele disse que não faria aquilo. Eu disse: o presidente está extrapolando.

Como o senhor vê a pandemia hoje e o que pode ser feito?
O Brasil está como uma nau sem rumo. O que poderia ser feito: começar a colocar gente que entende de saúde e epidemia para conduzir, gerar políticas, recuperar o SUS. Tem de começar a refazer o sistema. Estamos num caos. Não tem liderança que fala pela saúde.

Qual é a responsabilidade do ministro Eduardo Pazuello na crise?
Ele é responsável. Se o presidente me chamar para ser chefe do Exército, vou falar: não tenho formação. Se me botarem pra dirigir um Boeing com 400 pessoas dentro, vou dizer que não posso pilotar. Ele está num cargo em que não tem condições técnicas para administrar. Retirou a equipe técnica. Não precisava ficar comigo, mas por que tirar o Wanderson? Um dos três ou quatro melhores epidemiologistas do mundo. A culpa do Pazuello é na formação da equipe. Ele forma pensando que está dentro de um quartel. Não é lugar de mando, mas de liderança, que se impõe pelo conhecimento do sistema, da doença. Ele não tem conhecimento do sistema, da doença nem do ser humano.

Como vê os próximos meses da doença?
Um agravamento da doença. Vamos passar pela sazonalidade, mas com a nova cepa. Vimos isso na região Norte, onde faltou oxigênio, o que é uma barbeiragem enorme. O Brasil não estuda a nova cepa e o ministério fez um movimento errado de tirar os pacientes de Manaus de qualquer jeito. Ele plantou a nova cepa em todo o País. A gente tem uma situação em que a cepa mais transmissível anda de Ferrari. Já a campanha de vacinação vai de carroça.

O senhor fez parte do governo mesmo conhecendo Bolsonaro como deputado, quando ele votou a favor da pílula do câncer e defendeu a tortura. O senhor acha que cometeu um erro ao entrar no governo e até validar posições do governo?
O presidente a gente conhece quando ele assume. Eu conhecia um deputado Bolsonaro, que era polêmico. Votei nele porque queria uma ruptura com o PT. A proposta que ele me fez foi de montar o ministério com equipe técnica. Só que o dia que veio um problema na nossa frente e eu precisava dele, aí ele não queria um ministério técnico, mas político. Aí você fala: isso aqui não é sério, é equívoco. (Agência Estado)

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por Raphaela Ferro

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