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Cavucando o passado

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07.08.2019 - 08:11:50
 
Goiânia – Num estilo que atrai a leitura, bem escrito e igualmente bem ilustrado, e se lembrando de momentos interessantes de sua infância e juventude, até quando se despediu de sua cidade natal, Três Corações, MG, para se aventurar na cidade grande, Márcio de Oliveira Naves soube detalhar cada momento e nos tornar, seus leitores, partícipes de suas caminhadas e experiências. Em seu primeiro livro, “Cavucando o passado”, que lançou em 2016, ele nos introduz em seu mundo, mostra sua família e a Fazenda da Covoca, que ficava 3,5km de distância da estação ferroviária de Campo Limpo, onde ele, o pai, José de Resende Naves, e os três irmãos (Áurea, Dalva e Antônio Carlos, mais velhos) nasceram e viveram por um bom tempo. Relata os costumes, peripécias e observações sobre aqueles tempos, de 1942 a 1962, quando tudo era mais difícil, as distâncias maiores e muitos os sonhos.
 
Os avós e pais dedicaram-se às atividades rurais, mas ele não quis trilhar esse caminho, optando pela vida urbana e por uma profissão que lhe assegurou as condições para estudar, ter uma vida melhor e criar a família. Os pais, ambos nascidos em 1912, são de fazendas próximas no município de Carmo da Cachoeira, MG. A mãe, Elvira de Oliveira Villela, e o pai dela, João Villela, nasceram e foram criados na fazenda da Boa Vista; a mãe, Áurea de Oliveira, também nasceu no município, como ainda os avós paternos: Manoel Antônio Naves, de 1877, na Fazenda da Ressaca, e Izaura de Rezende Naves, de 1885, na fazenda das Abelhas.
 
Ele começa seu relato por 1900, ao abordar algumas circunstâncias da época em que nasceram seus pais, seus 21 tios paternos e maternos e boa parte dos seus 92 primos. Não retrocedeu ao tempo em que chegaram seus avós, nos idos de 1870, por considerar que pouca coisa mudou até o nascimento de seus filhos; ao falar sobre gentílico, disse que ‘rioverdense’ passou a ser chamado de ‘tricordiano’, mas o ‘varginhense’ de Carmo da Cachoeira somente tornou-se ‘cachoeirense’ a partir de 1938, com a emancipação do distrito, que passou a município.
 
“Todos, meus avós, tios e primos, foram criados e cresceram no meio rural, numa época que, ao contrário de hoje, a população se concentrava no campo, enquanto, nas cidades, conservava seus costumes rurais, com seu fogão a lenha, água sem tratamento, inexistência de esgoto e, por incrível que pareça, até de vaso sanitário. Não pretendo generalizar, mas foi o que testemunhei, quando criança e adolescente”, ressaltou. “Na roça e, às vezes, na cidade, o meio de locomoção utilizado era o cavalo, o meio de transporte era o carro de boi ou a carroça. Automóvel era raro. A maria-fumaça apareceu em 1918 e sorte de quem morasse próximo de uma estação. Não havia jardineiras, substitutas dos ônibus, porque elas só interligavam cidades próximas, uma ou, no máximo, duas vezes ao dia. Na roça, os vizinhos se comunicavam através de bilhetes enviados por camaradas ou presos no rabo de cães amestrados, porque telefone, nem pensar! Eletricidade, um luxo, só existia nas sedes de algumas poucas fazendas, propiciando o acesso ao único e moderno meio de comunicação, que era o rádio”, acrescentou.
 
Em compensação, “no campo – e nele viveu a maioria de meus tios e primos, pois somente na década de 1950 que alguns começaram a mudar para a cidade – o contato com a natureza era permanente, em contraste com o que ocorre hoje, com a intermediação de agências de turismo, em cujos ‘pacotes’ incluem hotéis-fazenda, as tão faladas trilhas ecológicas, com observação de pássaros, e os passeios a cavalo. Tudo isso fazia parte do cotidiano dos meus parentes e do meu, de modo muito natural”, afirmou.
 
Independentemente dos estilos de vida, “sempre houve uma distinção entre o da vida rural, representado pelo atraso, e o da cidade, considerado moderno e civilizado, em razão de escolas, médicos, igrejas, bares, cinemas, praça com fonte luminosa, e até mesmo de zona de meretrício e de cemitério. Além disso, não resta dúvida de que a integração social era maior na cidade, já que, na roça, as pessoas ficavam mais distantes umas das outras e a tendência era tornarem-se retraídas ou, como queiram, bichos-do-mato. Era como me sentia, quando fomos morar na cidade”.
 
O motivo que o levou a escrever o livro foi a observação de que, muito embora as famílias Naves e Vilela englobem um conjunto enorme de pessoas, nada encontrou a seu respeito, por escrito. “Se há, não chegou ao meu conhecimento. Não me refiro aos parentes mais distantes, além de avós, tios e primos, que existem por este Brasil afora ou mesmo em outros países. Refiro-me àqueles de quem ouvi falar e, principalmente, aos mais próximos, com os quais convivi, por mais ou por menos tempo, tornando-se fonte de inspiração para estas memórias”, justificou.
 
De sua cidade foi para Belo Horizonte, Inhapim e Conselheiro Pena, todas em Minas Gerais. Em 1967 chegou em São Paulo, indo trabalhar no Banco do Brasil, até 1974, e no Banco Central do Brasil, até 1993. Cursou Letras na Universidade de São Pulo, de 1969 a 1972, tendo terminado o curso na Faculdade Tibiriçá, junto ao Mosteiro de São Bento. Casado com a conterrânea Leni, tem duas filhas: Guacira e Juçara.
 
 

*Jales Naves é jornalista e escritor

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por Jales Naves

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

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