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Caso de pano e de polícia

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22.05.2015 - 17:21:34
 
Goiânia – Esse desacontecido ocorreu há muitos anos, quando não havia ainda os celulares com câmeras e não se via a todo momento, em qualquer lugar, gente fotografando pés e pratos. Todos os dias, no caminho para o trabalho, eu passava diante de certa lojinha de tecidos, que me inspirava doces nostalgias. Em uma segunda-feira, decidi fotografá-la. Divirto-me tirando fotos e escrevendo sobre o que me sussurram ou pretextam. Postei-me do lado de fora, no passeio público. Eis, porém, que detrás do colorido dos crepes que caíam do alto, como tendas árabes, dos rolos verticais feito fantasmas molengos de musselina, saiu um dono enfurecido, para interromper o curso da poesia que livre corria, quase a transformar-se em foto e palavra.
 
Tinha ele decerto, com a fúria dos cães, suas razões.  Promoveu-me de curiosa espiã do mundo a detetive. E de mero olhar eloqüente a ouvido mudo e penico. Censurou-me por eu me apropriar, com meus olhos, de seu domínio, sem ligar ao fato de que seus tecidos entupiam a calçada, que pertence – será possível? –  aos que calçam, vestem e passam. E assim, iracundo, contou o que não lhe perguntaram. Que seu divórcio virara caso de política. E eu com isso? Mostrei-lhe as fotos na máquina digital, sem rostos humanos e sinais de identidade. Pedi-lhe até indevidas desculpas, as que ele deveria dar à Secretaria de Fiscalização Urbana do Município.
 
Quem sabe se não pensou que eu fotografava os rolos de tecido para advogados, e terríveis cálculos de partilha e pensão alimentícia? E se tantos bolados e floridos não eram senão a fachada de um marido que sobre a mulher fechava a cara de cambraia e o punho de linho? E se ela não tinha um corpo sobre o qual facilmente se escorregavam as mãos dos fregueses, liso como cetim carmim? Não, nada sei sobre isso, sobre ele e as custosas costuras da intimidade. Com a testa mais amarrotada do que anarruga, enfiei meus olhos na capanga e fui embora, ter lembranças meigas da infância em outra freguesia. Eu que queria apenas alinhavar a história de quando era menina e com minha mãe ingressava no mundo fascinante dos panos em Pontalina ou Goiânia, que desde Noel Rosa viraram rimas de piano, quando soavam os três apitos da fábrica de tecidos, e dos armarinhos-passarinhos, para inventar um vestido de aniversário ou roupa de ver Deus no domingo.
 
Agora rio, mas fiquei chocada. E tendo agido assim, com tamanha eloqüência e ira, ele acabou por tirar do sono a louca da casa, denominação que Santa Teresa dava à imaginação, segundo a escritora espanhola Rosa Montero. E desse modo ativou a tecla do “e se….”,  a poderosa tecla a partir da qual, também de acordo com a escritora, todas as nossas fantasias e histórias se criam. E se ele é assim ou assado? E se faz isso ou aquilo? E se um viajante numa noite numa noite de inverno …oh, Ítalo Calvino? Virei a noite. Virou personagem de um poema satírico.
 
E até que não estava de todo errado – sussurra-me o anjo da imparcialidade jornalística, lembrando-me o sagrado dever de considerar as três faces das moedas envolvidas – afinal, qualquer escritor ou jornalista é algo indiscreto e detetive da vida privada, tornada assim publicada. E o que não é visto, é logo por ele inventado. Mas esse senhor proprietário é também bastante imaginativo e bem relacionado. Anotou-me a placa do carro e, no dia seguinte, pela primeira vez na vida, fui convidada a depor na polícia, que nada tem a fazer decerto além de meter a colher em briga de marido e mulher, em rusgas de vizinhos, e rugas e nervuras de tecidos.
 
A louca de sua imaginação de senhor dono, que deve andar envolta, não em andrajos, mas em preciosos brocados, viu-me invadir, com máquina engatilhada e caneta em riste, o estabelecimento, como um exército de espiões e paparazzi, disposta a flagrar algo muito grave entre os metros de rendas francesas, sedas puras e popelines. E eu, a mais sensacional das repórteres sensacionalistas, faria de um corte de cetim enforcado por um pedaço de fita a principal manchete dos jornais do dia seguinte. 
 
E como gargalhou o delegado, escritor secreto, poeta inconfesso como são todos os escrivães e delegados, quando lhe contei de minhas intenções de poesia. E com que casos hilários de seu ofício não me presenteou o servidor da lei, entre eles o daquele mesmo sujeito que lhe fez apreender uma cueca usada, roubada pela ex-mulher iracunda. Ela pretendia empregá-la numa macumba com o objetivo de exportá-lo para a terra dos pés juntos. A Justiça agiu a tempo e a cueca foi confiscada, livrando-se daquele mórbido comércio com o além. O titular do DP, além de pândego, conciliador, também me aconselhou a despublicar da internet foto e poema, para evitar que eu tivesse de explicá-los diante do Juiz das Causas Importantes, Embora Bem Pequenas.

Até hoje, anos passados do desocorrido, me perscruto sobre o crime que cometi e de que fui acusada. A má sorte hedionda e inafiançável de estar na hora imprópria no lugar errado? Ou talvez o delito de enxergar a beleza nas coisas mais triviais e pretender registrá-la, sem requerer o alvará dos donos de tudo. Atitude tão condenável que talvez devesse a Justiça obrigar os fabricantes de equipamentos fotográficos a instalarem um dispositivo, que os impedisse de registrar espaços abertos, ruas, praças, prédios, paisagens, árvores, animais e pessoas, afinal, tudo nesse mundo tem seu dono sortudo ou surtado. Melhor, aliás, se o acoplassem diretamente aos olhos da gente, que assim não veriam nem belezas nem dementes. Ah, e acrescentassem outro dispositivo para aprisionar as mãozorras e as bocarras, essas perigosas máquinas de produzir palavras. Livrai-me, Deus, da minha verve Gregório de Matos! Salvai-me das minhas bobagens de Bocage! A literatura, menos ainda que o jornalismo, não conhece imparcialidade. É um demônio que nos aconselha ao ouvido: vingue-se, tanto mais fria e deliciosamente quanto for mais tarde. Transforme todos os seus desafetos em personagens. E, nunca, nunca, lhes dê a chance de recorrer a um aparte.
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por Cássia Fernandes

*Cássia Fernandes é jornalista e escritora

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