Logo

Caso de Itumbiara acende alerta para violência vicária; entenda

Filhos foram mortos pelo pai para atingir a mãe

WhatsAppFacebookLinkedInX
14.02.2026 - 14:30:58

Brasília – Em meio aos mais diversos tipos de violência contra a mulher registrados todos os dias no Brasil, o caso de Itumbiara trouxe à tona uma modalidade pouco conhecida ou, pelo menos, pouco comentada: a chamada violência vicária, que ocorre quando um homem machuca ou mata pessoas íntimas de uma mulher com o objetivo de puni-la ou de atingi-la psicologicamente.

Na última quarta-feira (11), o secretário de Governo da prefeitura da cidade, Thales Machado, atirou contra os dois filhos na residência onde morava e, em seguida, tirou a própria vida. Um dos meninos, de 12 anos, morreu antes que pudesse ser socorrido. O irmão mais novo, de 8 anos, foi levado ao hospital em estado gravíssimo, mas morreu horas depois.

Em entrevista à Agência Brasil, a secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, Estela Bezerra, descreveu o conceito de violência vicária como uma situação em que o agressor ofende e cria situações de dor e até morte para atingir pessoas que têm relação de afeto com a vítima, principalmente filhos, mas também mães e mesmo animais de estimação.

“Na maioria das vezes, são utilizados crianças e adolescentes, filhos daquela mãe, porque são o maior vínculo afetivo que ela tem. Para poder penalizar a mãe – que foi exatamente o caso em Itumbiara, em que o pai matou os dois filhos para atingir a mãe. É como se ela recebesse a maior penalidade que uma pessoa pode receber, que é ter um filho executado”, explicou.

Construção de narrativa

Estela lembrou que, no caso de Itumbiara e na grande maioria dos demais casos, o agressor constrói ainda uma narrativa em que se coloca como vítima e responsabiliza a companheira pelo ocorrido. Antes de atirar contra si mesmo, Thales Machado postou, nas redes socias, uma carta em que cita uma suposta traição por parte da esposa e uma crise conjugal.

“Ele executa os filhos e constrói, antes de morrer, por meio de narrativas, a responsabilização da esposa. E ainda coloca sobre ela a responsabilidade da morte, da execução que ele cometeu, porque estava sendo rejeitado e o relacionamento amoroso já não correspondia ao que ela desejava para a vida dela”, detalhou a secretária.

“O mais grave dessa situação é que há manipulação. O assassino e também suicida construiu uma narrativa para culpabilizar a vítima que, neste caso, é a mulher. Ela teve os filhos assassinados, teve a imagem dela e a história dela expostas e a responsabilidade, na tragédia, pela narrativa social e pelo machismo, sobrecai nela”, disse. “Esse tipo de violência tenta penalizar a mulher e responsabilizá-la pelo crime cometido. E o crime cometido é escolha de quem mata. Quem mata escolheu matar. Não é responsabilidade da mulher”, completou.

Segundo Estela, casos de violência vicária são muito comuns no Brasil, mas pouco falados.“Esse tipo de violência é sistemático, acontece no dia a dia. Vai de situações sutis até situações mais explícitas, como essa em que o homem executa os próprios filhos”.

Ela citou outro caso recente de violência vicária registrado no país, em que um servidor da Controladoria-Geral da União (CGU) agride o filho e a ex-companheira. “Na cena em que vemos um servidor da CGU atacar uma criança e a mulher, ele ataca primeiro a criança. A mulher tenta proteger a criança e ele ataca também a mulher. Ele bate na criança e na mulher. Quando a mulher se livra, ele ataca a criança novamente. Então, atacar o filho, a mãe e até os animais domésticos ou maltratá-los é uma coisa cotidiana, que acontece em situações de violência doméstica.”

“Há uma cultura muito machista presente no Brasil e no mundo. Há uma assimetria de gênero muito forte, potencializada em várias áreas, na representação política, na economia, onde mulheres recebem menos do que homens, mesmo sendo mais qualificadas. E a maior expressão dessa assimetria se dá no instrumento de violência, um instrumento de manutenção da mulher num lugar de subalternidade, de medo, que não permite a liberdade”, completou.

Sociedade civil
Ao comentar o caso em Itumbiara, o Instituto Maria da Penha, organização não governamental (ONG) que atua no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra mulheres, confirmou que casos de violência vicária não são exceção. “É uma forma de violência de gênero que atinge mulheres por meio de crianças e adolescentes. Quando filhos e filhas são usados como instrumentos de controle, punição ou chantagem”.

“Não estamos falando de conflito familiar. Estamos falando de violência. E de violação grave de direitos humanos. Por muito tempo, essa prática foi naturalizada, invisibilizada ou tratada como disputa privada. O resultado é o sofrimento silencioso de mulheres e o impacto profundo no desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes.”

Para a ONG, avançar no debate é fundamental. “O Brasil reconheceu oficialmente [por meio de resolução conjunta do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher] a violência vicária como violência de gênero e estabeleceu diretrizes para a atuação do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, reforçando a necessidade de prevenção, proteção e resposta interinstitucional”.

“Nomear a violência é o primeiro passo para enfrentá-la. Informação de qualidade também é uma forma de proteção. O Instituto Maria da Penha atua para fortalecer políticas públicas, qualificar o debate e contribuir para que nenhuma forma de violência seja tratada como invisível. A informação precisa circular para proteger vínculos, infâncias e direitos.”

A entidade alerta para as seguintes formas em que a violência vicária pode se manifestar:

– ameaças envolvendo os filhos;

– afastamento forçado da convivência;

– manipulação emocional;

– falsas acusações;

– sequestro ou retenção ilegal de crianças.

Defensoria pública
Ao se posicionar sobre o caso em Itumbiara, a Defensoria Pública Estadual de Goiás (DPE-GO) publicou nota em que reforça que atos de abuso, violência e feminicídio são crimes e que a prática de ferir os filhos para atingir a mãe tem nome: violência vicária. “Ela não tem culpa. Ponto final”.

“Em novembro de 2024, a DPE-GO promoveu a campanha Ela Não tem Culpa – 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, em que buscou refletir sobre a constante culpabilização e julgamento das mulheres, mesmo quando elas são vítimas”, destacou o órgão.

“A DPE-GO reforça que a responsabilidade é sempre de quem comete a violência. Independentemente do comportamento, da roupa ou da voz de quem está do outro lado. E expor a mulher vítima de violência pode configurar crime. Refletir sobre a culpabilização da mulher é o primeiro passo para romper com desigualdades de gênero que perpetuam ciclos de violência.” (Agência Brasil)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Michelle Rabello

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Eleições
25.10.2026
Em Brasília, urnas fecham antes de informação sobre prorrogação chegar

Brasília – Nas seções eleitorais do Distrito Federal, as urnas foram fechadas às 17h em ponto, antes que a informação sobre a prorrogação do horário de votação até as 19h pudesse chegar a mesários e presidentes de seção, informou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-DF). De acordo com o tribunal, até as 17h40 não havia sido […]

Eleições 2026
25.10.2026
Urnas fechadas não podem ser reabertas e impacto na apuração é incerto, diz advogado eleitoral

São Paulo – O advogado eleitoral Fernando Neisser afirmou neste domingo (25/10), que as urnas eletrônicas já encerradas não poderão ser reabertas para receber novos votos, mesmo após a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de prorrogar a votação até as 19h em todo o País. Segundo ele, ainda será necessário […]

Eleição
25.10.2026
Campanha de Flávio pede votação até 19h

Brasília –  A campanha do candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro (PL) pediu há pouco ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a ampliação do horário de votação em municípios de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O candidato defende que o horário seja estendido até as 19h.  Conforme a […]

Eleições 2026
25.10.2026
2º turno das eleições tem votação tranquila em Goiás, com filas pontuais e poucas trocas de urnas

Samuel Straioto Goiânia – O segundo turno das eleições presidenciais começou com movimentação tranquila na maior parte dos locais de votação em Goiás, na manhã deste domingo (25). Em Goiânia, embora alguns eleitores tenham chegado antes da abertura dos portões para garantir lugar nas filas, o fluxo foi organizado nos locais visitados, com pouco tempo de […]

Eleições 2026
25.10.2026
Gustavo Gayer vota em Goiânia e prevê ampliação de vantagem de Flávio Bolsonaro

Samuel Straioto Goiânia – O senador eleito Gustavo Gayer (PL) votou na manhã deste domingo (25/10) no Colégio Ávila, no Setor Bueno, em Goiânia. Ao falar sobre a disputa presidencial, ele afirmou esperar que o senador Flávio Bolsonaro (PL) amplie a diferença de votos em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no […]

Eleições 2026
25.10.2026
TRE registra 13 substituições de urnas eletrônicas em Goiás

Samuel Straioto Goiânia – O Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO) registrou 13 substituições de urnas eletrônicas durante a votação do segundo turno das eleições em Goiás neste domingo (25/10). Do total, seis ocorreram em Trindade, onde são utilizados equipamentos do modelo 2013. Apesar das ocorrências, a avaliação do tribunal é de que a votação […]

Família Naves
25.10.2026
Angellynny Naves, 15 anos, tentou proteger a mãe, foi baleada três vezes e se recupera no CRER

Jales Naves Especial para A Redação Goiânia – A jovem Angellynny Naves Gonçalves Ribeiro, de 15 anos, viveu uma tragédia no dia 11 deste mês em Pontalina, GO, quando tentou proteger sua mãe durante um ataque a tiros. A adolescente foi atingida por três disparos de arma de fogo, calibre 22, e sobreviveu. Sua mãe, […]

Economia
24.10.2026
Governo de Goiás destina R$ 3,8 bilhões a obras e projetos em Goiânia

A Redação Goiânia – Com investimentos superiores a R$ 3,8 bilhões em obras e projetos estratégicos, o Governo de Goiás desenvolve ações em Goiânia nas áreas de saúde, transporte público, inovação, segurança e infraestrutura para grandes eventos. As ações buscam ampliar a oferta de serviços públicos e estimular o desenvolvimento econômico da capital goiana que […]