Logo

Carta para um amigo – dia 353 de quarentena

WhatsAppFacebookLinkedInX
05.03.2021 - 10:10:48

Querido P.,
 
Li essa frase n’Os diários de Sylvia Plath (1950-1962) e me divertiu muito: “Ora, até parece que me importava com o que pensariam (claro que sim, e muito)”. Pensei imediatamente em você. Achei engraçada a ideia de que a escritora do meu livro preferido (“A Redoma de Vidro”, acho que pode te interessar) pudesse ser tão insegura quanto eu. É tão fácil esquecer que essas pessoas que admiramos são pessoas também e que nos atraem justamente por serem como nós, em certa medida. Escrevo diários desde a adolescência e sempre nutri um prazer secreto em imaginar que algum dia alguém leria meus relatos solitários e se identificaria. Tenho os cadernos guardados até hoje.
 
Espero que esteja tudo bem aí no Centro-Oeste! Não trago notícias muito mais animadoras que da última vez. Depois de melhorar um pouco, cheguei bem baixo, quase tão baixo quanto se pode chegar. Quem diria que realizar sonhos pode ser tão amargo e infeliz? A Avenida Corifeu segue bastante barulhenta, mas pelo menos consigo apreciar, pela falta, a poesia que foi Brasília na minha vida. Talvez consiga amar também os carros e motos sem escapamento algum dia, mas ainda não.
 
Estou um pouco cansada de me sentir perdida e triste. Você assistiu ao filme “Soul”? É bem bonito. Tem uma lição linda que teimo em não assimilar, pelo menos não agora. A das pequenas coisas. A dádiva de existir, simplesmente existir. Já me escorei bastante nessas pequenas alegrias, mas agora parece que não consigo fixá-las. É horrível saber e não saber uma coisa ao mesmo tempo. Saber que já passei por isso antes e que desta vez vou passar também, e sentir que não. Talvez nossos pais tenham mesmo falhado em nos preparar para a dor porque me recuso a aceitar que é essa a vida que devemos viver, mas ainda assim, aceito e me entrego de tal jeito a me tornar uma com a dor, uma massa sanguinolenta e sólida de pessimismo e incoerências.
 
Mas vai passar, não é? Em alguns momentos vou conseguir me separar da dor, talvez nem lembre que ela existe. Mas, enquanto todo mundo morre de uma doença para qual existe vacina, enquanto tento preencher algum buraco interior com coxinhas e doces, enquanto fico presa em casa acreditando que não sou mesmo boa em nada, bem, por enquanto, acredito que não. Em determinado momento n“A Redoma de Vidro”, Esther Greenwood começa a listar tudo que não sabe fazer e chega à conclusão de que é completamente inadequada, “como um cavalo de corridas em um mundo sem hipódromos”. Constantemente, corro meus dedos pela tela do celular e me sinto como Esther e Plath, desajustada em meio a uma multidão de pessoas especiais. Esse sentimento se intensifica quando me sinto incapaz de levantar da cama. Mas ei, pelo menos tem paredão toda semana e, de hora em hora, posso votar freneticamente pela saída de um participante do Big Brother – o que é bem mais do que posso fazer por mim ou pelo meu país hoje.
 
Não pensei que pudesse sentir saudade do céu, que deveria ser o mesmo para todos. Mas o céu aqui é tão sem graça perto daquele que se derramava sobre a cidade que me abrigou por 6 anos. Se fechar os olhos, posso ver as árvores da minha quadra se erguendo sobre mim. A luminosidade bonita do Sol traduzida pelas folhas. Posso imaginar que estou sozinha, em silêncio. Mas sei que o lugar não é o problema. “…onde quer que eu estivesse – fosse o convés de um navio, um café parisiense ou Bangcoc -, estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.” Como Greenwood, sei que estarei onde estiver, não posso fugir da minha própria cabeça. Talvez amanhã o dia amanheça menos cinza e eu sinta esperança de novo. Talvez acredite novamente que, algum dia, uma jovem escritora perdida lerá meus diários e sentirá algum conforto em compartilhar comigo as dores do mundo. Sinto saudades de Brasília, mas passei pelo inferno antes de gostar de lá, então sei (e não sei) que algum dia poderei amar aqui também.
 
Talvez você goste de saber que decidimos chamar alguém para arrumar o sofá e o ralo, o que com certeza tornará os dias menos horríveis. Espero sua resposta.
 
Um abraço,
M.

*Manuela Costa é escritora e comunicóloga. Trabalha como assistente de produção na produtora brasiliense Forest Criações. É criadora do projeto Calcinha Bege, dedicado a discussões sobre a imagem corporal de mulheres no Instagram. É formada em Comunicação Social/Audiovisual pela UnB. 

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Manuela Costa

*Mônica Parreira é repórter do jornal A Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Wil Caravanti
04.11.2026
Design de Imaginação

“Imaginação é mais importante que conhecimento.” Albert Einstein Antes de existir no mundo, muitas das grandes realizações humanas existiram primeiro na imaginação de alguém. Walt Disney imaginou na Flórida algo que ia muito além de um parque de diversões. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer ajudaram a transformar em cidade uma ideia desenhada para o centro […]

Rose Cruvinel
03.11.2026
Ministério do Idoso é boa ideia, mas precisa ser eficiente

A criação de um Ministério do Idoso foi uma das primeiras propostas anunciadas pelo presidente Lula da Silva, depois de confirmada sua reeleição. A ideia merece ser recebida com seriedade e espírito público. Como médica, vereadora e integrante da população idosa, conheço de perto os desafios do envelhecimento e apoio qualquer iniciativa que coloque esse […]

Luiz Augusto Araujo
03.11.2026
Você sabe se comunicar bem?

Você consegue expressar suas ideias com clareza? Sabe organizar o que deseja dizer, transmitir mensagens de forma objetiva e convencer as pessoas? Embora a comunicação esteja presente em praticamente todas as situações do cotidiano, nem sempre temos consciência de como nos comunicamos e de quais aspectos podemos melhorar. Para ajudar a responder a essas perguntas, […]

ANA CARLA ABRAO
02.11.2026
O Brasil que desperdiçamos

Quanto custa ao Brasil continuar sendo tão desigual? Não apenas em termos de injustiça social, de pobreza ou de oportunidades negadas a milhões de brasileiros. Quanto nos custa em crescimento, produtividade, segurança e prosperidade? E, talvez mais importante, quanto perdemos com a manutenção de uma sociedade que desperdiça tanto do seu próprio potencial? Em uma […]

Ricardo Menegatto
02.11.2026
Black Friday e os falsos descontos

A Black Friday se aproxima e, com ela, chegam as promessas de grandes descontos, ofertas por tempo limitado e oportunidades aparentemente imperdíveis. Em 2026, a principal data promocional do comércio será celebrada em 27 de novembro. Mas, em meio à expectativa de economizar, surgem situações que costumam gerar dúvidas e frustrações: a loja anuncia um […]

Edemundo Dias de Oliveira Filho
30.10.2026
A cegueira deliberada do oráculo

“A partir de certo ponto, as informações já não informam — deformam. Podem até obscurecer o mundo.” Byung-Chul Han Por que os diagnósticos — apenas ou embora certeiros — não ajudam a nação? Passadas as eleições, o Brasil não assistiu tão somente ao arrefecimento da beligerância. Assistiu, sobretudo, à sua consolidação como método de governabilidade. […]

André Naves
29.10.2026
Fim da escala 6 por 1: Prosperidade e Inclusão

A escala 6 por 1 – seis dias de trabalho para um de descanso – sempre cronometrou a semana de 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros sem se importar com o quanto de vida sobrava depois do expediente. Quase nada. José Mujica, o presidente uruguaio que se tornou símbolo mundial de humildade, simplicidade e humanidade, costumava […]

José Ricardo Caixeta Ramos
29.10.2026
Educação sanitária, um dos pilares da defesa agropecuária em Goiás

Nos últimos três anos, a Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) passou por uma transformação relevante em sua cultura organizacional. Tradicionalmente vista com receio pelo produtor rural, que associava a chegada de nossas equipes a possíveis multas e sanções, a Agência reinventou sua maneira de atuar. Hoje somos uma instituição parceira, que prioriza a orientação […]