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Carro alegórico da escola Dragões da Real (Foto: reprodução/X)

Carnaval de SP: 1º dia de desfiles exalta o poder feminino, a luta pela terra e a força dos orixás

Sete escolas cruzaram a avenida na sexta-feira (13/2)

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14.02.2026 - 08:24:56

São Paulo – O Grupo Especial deu início os desfiles no Sambódromo do Anhembi com uma primeira noite marcada pela diversidade temática, que vai do protagonismo feminino à ancestralidade, passando por lutas sociais, astrologia e espiritualidade.

Com noite de tempo firme e arquibancadas cheias, todas as escolas conseguiram cumprir o tempo máximo regulamentar e finalizaram os desfiles dentro de 1h10.

Força das mulheres negras abre o Carnaval de São Paulo 2026
“Delírio!”, “sonho se tornando realidade”. Foi assim que integrantes da estreante no Grupo Especial, Mocidade Unida da Mooca, descreveram o momento histórico vivido no desfile. “Desde que a escola existe, todo mundo está esperando esse momento, e chegou!”, celebrou Eduardo Okamoto, diretor artístico da agremiação.

Inspirado nas sociedades tradicionais africanas, a escola da zona leste apresentou o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, guardiãs da sabedoria e do equilíbrio. O desfile prestou homenagem às mulheres que transformam e sustentam comunidades com força espiritual, intelectual e cultural.

 

A Mooca abriu a noite com uma representação do Orixá Exu pisando primeiro na avenida, desta vez, interpretado por uma mulher. A escola encantou o público e exaltou as origens afro-brasileiras com representações e homenagens as Yabás, Orixás femininas.

Também estreante no carnaval de São Paulo, Conceição Evaristo, desfilou pela escola e destacou a importância do tema apresentado na avenida. “Pra mim foi uma honra, sair do Rio e vir experimentar o Carnaval de São Paulo com esse enredo que é uma lição. O carnaval é uma aula pública e dar essa aula falando do Gèlèdés e de Sueli Carneiro, é estar representando mulheres negras”, disse.

Colorado do Brás exalta o poder místico das mulheres
Com o enredo “A Bruxa Está Solta! Senhoras do Saber Renascem na Colorado”, a Colorado do Brás exaltou o conhecimento ancestral e o protagonismo feminino. A escola ressignificou a figura da “bruxa”, a transformando em símbolo de sabedoria, resistência e conexão com a natureza.

Logo no abre-alas, a agremiação denunciou a tortura e o silenciamento de mulheres, com as alas seguintes marcadas por um visual envolto em misticismo, magia, cura e espiritualidade dando o tom do desfile.

 

Mais do que o estereótipo comumente associado às bruxas, a escola também apresentou personagens famosas da cultura popular como a Bruxa do 71, a Cuca e Úrsula, vilã da Pequena Sereia, que apareceram em um carro alegórico dedicado à elas.

A atriz Fabi Bang cruzou a avenida no carro caracterizada como Glinda, personagem que vive na versão brasileira do musical Wicked.

Nas arquibancadas, a torcida acompanhou em coro o samba-enredo e vibrou com a evolução da escola, que concluiu sua passagem pela avenida com tranquilidade.

Dragões da Real leva guerreiras da floresta para o Anhembi

Com o samba-enredo na ponta da língua e a comunidade confiante no título, a Dragões da Real levou à avenida o primeiro enredo de temática indígena de sua história. Inspirada nas lendárias guerreiras da Amazônia, as Icamiabas, a escola apresentou “Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência”.

 

Carro alegórico da escola Dragões da Real (Foto: reprodução/X)

Com carros de grande impacto visual, alguns com efeitos de movimento, luz e fumaça, como o dragão de 9 metros que marcou o abre-alas, a Dragões da Real apostou em uma narrativa conduzida pela força das imagens. Alegorias inspiradas na fauna e na flora amazônicas atravessaram a avenida integrando o enredo.

Ao longo do desfile, a escola desenvolveu um discurso sobre coragem, liberdade e protagonismo feminino, exaltando a ancestralidade e a força dos povos originários.

Márcio Santana, Diretor-Geral de Carnaval se emocionou ao finalizar a passagem pela pista e classificou o desfile como um dos maiores da história da agremiação. “Cada um desses três mil componentes deu a vida, sangue e suor, as lágrimas, em prol desse desfile. Todo mundo está saindo daqui realizado”, disse.

Tatuapé planta poesia para colher reflexão sobre a terra e a desigualdade

Em “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra!”, a Acadêmicos do Tatuapé transformou o chão do Anhembi em campo fértil de debate social.

O enredo tratou da luta pela reforma agrária e da dignidade do trabalhador rural em um desfile de tom político e poético, com alegorias que exaltaram o campo, a coletividade e a esperança.

 

O abre‑alas mostrou o Deus Tupã conectando a mitologia à vida e à produção agrícola. Atrás dele, alas representaram milho, café, algodão além de animais como abelhas e joaninhas, todos presentes na agricultura brasileira, amplamente representada na avenida.

Eduardo dos Santos, um dos presidentes da escola, destacou a importância dos componentes que conduziram a escola cantando alto o samba-enredo e afirmou estar contente com as escolhas e com o desenvolvimento da escola. “Fizemos o trabalho de um ano inteiro com muito sacrifício e luta mas com o mesmo objetivo: fazer mais uma vez o desfile da vida. O que vai acontecer daqui pra frente depende de muitos detalhes mas temos certeza que fizemos um grande desfile, essa emoção é o maior sintoma disso”.

Rosas de Ouro mira o céu e faz do universo o seu destino
Com o enredo “Escrito nas Estrelas”, a atual campeã, Rosas de Ouro, apresentou uma viagem pelo cosmos, costurando astrologia, espiritualidade e o desejo humano de compreender seu lugar no universo. A escola manteve o brilho característico: entre constelações, signos e sonhos, transformou o sambódromo em uma galáxia em tons de rosa.

A agremiação já iniciou o desfile com uma punição de 0,5 ponto, aplicada pela Liga das Escolas de Samba de São Paulo por atraso na entrega das pastas técnicas.

De acordo com a avaliação da presidente Angelina Basílio, a penalidade não abalou a energia da comunidade durante o desfile. “A escola estava impecável, os carros todos em ordem, as alas evoluindo dentro dos limites, tudo certo. As expectativas para terça-feira são de boas energias”, afirmou.

O desfile, inicialmente programado para 3h20 começou com quase uma hora de atraso. Além dos pequenos atrasos deixados pelas agremiações anteriores, a Roseira precisou aguardar a limpeza da pista para iniciar sua passagem em busca do bicampeonato consecutivo.

Vai-Vai reconta a saga cultural e social da comunidade de São Bernardo
A tradicional Vai-Vai apresentou “A Saga Vencedora de um Povo Heróico no Apogeu da Vedete da Pauliceia”, enredo que homenageou a força histórica e cultural da comunidade de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, a partir da trajetória da companhia cinematográfica Vera Cruz.

 

Já a luz do dia, cerca de uma hora após o previsto, o desfile levou à avenida referências à produção artística, ao cinema nacional e ao orgulho de um povo que transformou a arte em resistência.

“Foi o desfile das nossas vidas! Aqui na pista é procurar errar menos e eu espero que tenhamos errado menos e que possamos conseguir nosso objetivo de conseguir nossa décima sexta estrela para esse grande pavilhão”, avaliou Clarício Gonçalves, presidente da agremiação ao fim do desfile.

Encerrando a noite, a Barroca Zona Sul desfilou “Oro Mi Maió Oxum”, homenagem à orixá das águas doces, da fertilidade e do amor, celebrando a religiosidade afro-brasileira com cores, rituais e símbolos.

O abre-alas dourado, com espelhos e bolhas de sabão pefumadas encantou o público. O desfile que encerrou o primeiro dia de apresentações trouxe referências à Orixás como Xangô, Oxóssi e Logunedé.

 

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Veja a ordem dos desfiles e os enredos
Sexta-feira (13 de fevereiro)

23h – Mocidade Unida da Mooca (enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”)
0h05 – Colorado do Brás (enredo – “A Bruxa está solta – Senhoras do Saber renascem na Colorado”)
1h10 – Dragões da Real (enredo – “Guerreiras Icamiabas – Uma lendária história de força e resistência”)
2h15 – Acadêmicos do Tatuapé (enredo – Plantar para colher e alimentar)
3h20 – Rosas de Ouro (enredo – Escrito nas estrelas)
4h35 – Vai-Vai (enredo – “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia”)
5h30 – Barroca Zona Sul (enredo – Oro Mi Maió Oxum)

Sábado (14 de fevereiro)

22h30 – Império de Casa Verde (enredo – “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”)
23h35 – Águia de Ouro (enredo – “Mokum Amsterdã – O voo da Águia à cidade libertária”)
0h40 – Mocidade Alegre (enredo – Malunga Léa, Rapsódia de uma Deusa Negra)
1h45 – Gaviões da Fiel (enredo – “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”)
2h50 – Estrela do Terceiro Milênio (enredo – “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”)
3h55 – Tom Maior (enredo – “Chico Xavier. Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”)
5h – Camisa Verde e Branco (enredo – Abre caminhos) (Agência Estado)

 

 

 

 

 

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por Adriana Marinelli

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