Logo
(Foto: Caroline Morais/Ministério da Saúde)

Canetas emagrecedoras: entenda quando o uso pode fazer mal à saúde

Sbem alerta para mercado ilegal e doenças como pancreatite

WhatsAppFacebookLinkedInX
26.04.2026 - 10:50:38

Brasília – A diretoria-colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) discute esta semana uma proposta de instrução normativa sobre procedimentos e requisitos técnicos relacionados a medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP 1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras.

A popularização das canetas emagrecedoras, que podem ter diferentes princípios ativos, incluindo a semaglutida, a tirzepatida e a liraglutida, ampliou o uso indiscriminado e o mercado ilegal desse tipo de medicamento que, atualmente, só pode ser adquirido por meio de receita médica.

Em razão dos riscos à saúde da população, a Anvisa vem tomando uma série de medidas para coibir o comércio ilegal, que inclui versões manipuladas sem autorização. A agência também criou grupos de trabalho para dar suporte à atuação da autarquia no controle sanitário e garantir a segurança de pacientes.

Também este mês, o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF), junto à própria Anvisa, assinaram uma carta de intenção com o objetivo de promover o uso racional e seguro de canetas emagrecedoras.

A proposta é prevenir riscos sanitários associados a produtos e práticas irregulares, além de zelar pela saúde da população brasileira.

“A Anvisa e os conselhos propõem uma atuação conjunta baseada em troca de informações, no alinhamento técnico e em ações educativas”, informou a agência.

Em entrevista à Agência Brasil, o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), Neuton Dornelas, avaliou que o uso de canetas emagrecedoras para tratar a obesidade e o diabetes figura como uma espécie de revolução, mas que o uso indiscriminado do medicamento preocupa.

“São medicamentos muito bons, eficazes, potentes, que abriram realmente um grande horizonte para o tratamento, sobretudo para pessoas que vivem com obesidade. São medicamentos que revolucionaram sob essa perspectiva. Tudo o que a gente já teve pra tratar obesidade tinha resultado menos potente, menos eficaz e eu diria até menos seguro.”

“Pra quem vive com uma doença que é crônica, ter a promessa, a expectativa, a esperança de um tratamento, a longo prazo que seja, mas que funcione abriu um horizonte. Esses medicamentos são importantes, ajudam muito não apenas na perda de peso e no controle da glicose, mas, sobretudo, para diminuir o risco cardiovascular”, completou.

Dornelas destacou levantamento recente feito pela Anvisa, segundo o qual a importação de insumos farmacêuticos para a manipulação de canetas emagrecedoras tem sido incompatível com o mercado nacional. Os dados mostram que, apenas no segundo semestre de 2025, foram importados mais de 100 quilos de insumos, quantidade suficiente para a preparação de aproximadamente 20 milhões de doses.

“Quando se fala em 20 milhões de doses, é um número chamativo, mas mais do que isso: eles apreenderam 1,3 milhão de medicamentos por algum grau de ilegalidade ou irregularidade, seja pelo transporte, pelo armazenamento”, lembrou.

“Isso é estarrecedor. É assustador. A Sbem já vem alertando há muito tempo sobre isso. Para que as pessoas não consumam medicamentos de fontes que não são legais, medicamentos que não são registrados. Isso é altamente preocupante. Além disso, ter uma medicação que é aprovada para duas doenças crônicas, diabetes e obesidade, e as pessoas usarem de maneira indiscriminada realmente é condenatório.”

Bloqueio da manipulação
Dornelas destacou ainda que apoiou, junto a outras entidades, a decisão da Anvisa para que farmácias e drogarias passassem a reter as receitas de canetas emagrecedoras desde junho do ano passado. “O consumo desenfreado, eu diria, vem do mercado paralelo”.

“Hoje, diante desse boom, desse exagero que estamos vendo, talvez valesse a pena a Anvisa bloquear por três meses, por seis meses ou até por um ano qualquer manipulação de qualquer uma dessas drogas injetáveis para o tratamento da obesidade”, defendeu.

“Não se tem estrutura, na agência, suficiente para fiscalizar e fazer tudo isso com um volume de 20 milhões de doses. Então, num ponto crítico como esse, eu defenderia o bloqueio da manipulação, nem que seja por um período transitório, até que se tenha outras medidas mais cabíveis pra isso.”

Benefícios x riscos
Ao comentar os benefícios das canetas emagrecedoras para pacientes com obesidade e diabetes, o médico explicou que os medicamentos atuam por meio de três mecanismos de ação: ajudam no controle da glicose; retardam o esvaziamento do estômago ou esvaziamento gástrico, fazendo com que a pessoa mantenha uma plenitude alimentar mais prolongada; e atuam no cérebro, reduzindo o apetite por meio do aumento da saciedade.

“Com isso, eles promovem uma menor ingesta de alimentos e, por meio de mecanismos fisiológicos e da interrelação com outros hormônios, eles promovem uma perda de peso bastante substancial. A semaglutida, por exemplo, tem uma média de 15% de perda de peso e a tirzepatida pode chegar a 22% ou 25%, variando de pessoa para pessoa, dependendo da dose, do acompanhamento de um profissional, além da adesão a outras medidas, como mudança de estilo de vida e melhoras na alimentação.”

Dornelas destacou que todo medicamento pode apresentar efeitos colaterais e que, no caso das canetas, os principais efeitos são náuseas, vômitos e demais sintomas gastrointestinais.

“Com o uso indiscriminado, comprando de fontes não seguras medicamentos não bem armazenados ou transportados, esses riscos aumentam muito”.

“A Anvisa começou a registrar efeitos colaterais mais severos, como a pancreatite. A gente que é médico, que avalia, sabe que a pancreatite já é uma doença, infelizmente, muito frequente. No Brasil, são em torno de 40 mil internações por ano. Mas ela habitualmente é causada por dois grandes fatores: bebida alcoólica em exagero ou pedras na vesícula.”

“Esses medicamentos, por si só, quando se faz o retardo do esvaziamento gástrico, eles promovem uma maior parada do líquido que fica dentro da vesícula biliar. E o fato desse líquido, utilizado no processo da digestão, ficar mais tempo parado dentro vesícula pode facilitar a formação de cálculos. Isso poderia aumentar o risco, para algumas pessoas, de pancreatite. Esse é o maior risco hoje.”

Pilares da segurança
O presidente da Sbem descreveu ainda o que os médicos chamam de quatro pilares da segurança e da responsabilidade em meio ao uso de medicamentos:

Utilizar um produtor seguro e legal, com registro no Brasil;
Ter a prescrição de um médico com registro e que faça, inclusive, o acompanhamento adequado, desde o diagnóstico;
Saber quem está vendendo, preferencialmente farmácias e drogarias em que a compra possa ser feita com segurança;
Usar doses corretas, seguindo a orientação médica, além de nunca comprar em mercados paralelos.
“Quando a gente fala de efeitos colaterais, não significa que é pra pessoa sentir isso. Náuseas, por exemplo, podem ocorrer entre 30% e 40% dos casos, mas, em tese, não é para acontecer. Então, se a pessoa está usando a medicação e não há efeito colateral, isso é muito bom. Não significa que a medicação não esteja atuando. Entre 60% e 70% das pessoas não sentem nada.”

“Mas náuseas mais intensas, vômitos e, principalmente, dor abdominal importante que não melhora – a dor é o sinal de alerta. Se há dor importante na parte superior do abdômen, temos que pensar na possibilidade, ainda que rara, de uma pancreatite. A dor é o mais preocupante”, concluiu. (Agência Brasil)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Taíssa Gomes

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Saúde
08.10.2026
Vírus respiratórios ainda estão em alta no país, alerta Fiocruz

Brasília – Os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) por vírus respiratório demonstram que o rinovírus, o metapneumovírus e o Sars-CoV-2 apresentam tendência de aumento em nível nacional. Porém, novos casos semanais de SRAG por covid-19 estão baixos no país. O alerta está no boletim semanal InfoGripe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado nesta quinta-feira […]

Saúde
07.10.2026
Saúde especializada de Aparecida faz mais de 240 mil atendimentos em oito meses

A Redação Goiânia – A rede de atenção especializada da Secretaria Municipal de Saúde de Aparecida de Goiânia (SMS) realizou mais de 240 mil atendimentos entre janeiro e agosto de 2026. O resultado reúne serviços do Centro de Especialidades Municipal (CEM), do Ambulatório Multiprofissional de Aparecida de Goiânia (AMAG) e do Serviço de Atenção Domiciliar (SAD), […]

Saúde
02.10.2026
HMAP alcança 100% de conformidade em avaliação nacional de segurança do paciente

A Redação Goiânia – O Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia Iris Rezende Machado,  (HMAP) unidade da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), construída pela Prefeitura e administrada pelo Einstein, recebeu o certificado de Alta Conformidade na Avaliação Nacional das Práticas de Segurança do Paciente concedido pela Secretaria de Estado da Saúde de Goiás com base […]

SAÚDE
01.10.2026
Campanha ‘Goiás Todo Rosa’ reforça prevenção e diagnóstico precoce de câncer de mama

A Redação Goiânia – Em 2025, Goiás realizou 100.379 procedimentos registrados nas categorias mamografia e mamografia bilateral para rastreamento, segundo dados da Produção Ambulatorial do Sistema Único de Saúde (SUS). O número integra as ações do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (SES), que amplia, durante a campanha Outubro Rosa, […]

Futuro cooperativo
30.09.2026
Cooperativas de saúde de Goiás avançam na adoção de IA e ampliam tempo para cuidado com pacientes

Adriana Marinelli Goiânia – Enquanto grande parte do mundo ainda debate se a inteligência artificial (IA) vai substituir empregos, organizações dos mais variados segmentos já superaram essa etapa da discussão. Para elas, os esforços estão concentrados no que fazer com o tempo que a tecnologia está devolvendo à rotina. É o caso da Uniodonto Goiânia, […]

Imunização
30.09.2026
Aparecida inicia vacinação com Pneumo 20 para pessoas com 85 anos ou mais

A Redação Goiânia – A prefeitura de Aparecida de Goiânia inicia a vacinação com a Pneumo 20 para pessoas com 85 anos ou mais, nesta quinta-feira (1º/10). O imunizante amplia a proteção contra 20 sorotipos do Streptococcus pneumoniae, bactéria associada a doenças graves, como pneumonia e meningite. Nesta primeira distribuição, o município recebeu 710 doses […]

Saúde
30.09.2026
Anvisa aprova medicamento para tratar esquistossomose em crianças

Brasília – A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta quarta-feira (30) o registro do medicamento Farmanguinhos Arpraziquantel, indicado para o tratamento da esquistossomose causada pelo parasita Schistosoma mansoni ou Schistosoma haematobium em crianças de 3 meses a 6 anos. A resolução foi publicada no Diário Oficial da União. Em nota, a Anvisa destacou […]

Saúde
30.09.2026
Mudanças na emissão e no controle de receitas médicas entram em vigor

Brasília – A partir desta quarta-feira (30), o Sistema Nacional de Controle de Receituários (SNCR) da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) passa a disponibilizar funcionalidades específicas para a emissão e o controle eletrônico de receitas médicas. Em nota, a Anvisa destacou que a mudança não significa o fim das receitas em papel nem a obrigatoriedade […]