Samuel Straioto
Goiânia – Candidata ao governo de Goiás, Luciana Amorim (UP) defende a desmilitarização da Polícia Militar do Estado, dos Colégios Estaduais e a interrupção do processo de militarização das Guardas Civis Metropolitanas. As propostas foram apresentadas durante entrevista ao jornal A Redação nesta segunda-feira (17), na abertura da série de sabatinas com os candidatos ao governo, que segue até a próxima sexta-feira (21).
Segundo a candidata, a desmilitarização da PM não significa o fim da corporação, mas a criação de mecanismos de fiscalização sobre a atuação policial. Ela citou a resistência ao uso de câmeras corporais como exemplo do problema que pretende enfrentar: “quando, na verdade, é exatamente esse o problema, não se quer nem mostrar o que a polícia está fazendo”, argumentou a candidata.
Luciana também associou o modelo atual a um crescimento nos números de violência contra a mulher, mesmo com aumento de investimento em armamento e equipamentos: “a gente vê todos os dias mulheres morrendo”, afirmou, questionando se o reforço do aparato policial tem se traduzido em segurança para a população.
A candidata analisou que a atuação da polícia varia conforme o bairro e o perfil da população abordada. Segundo ela, jovens e moradores de periferia vivem sob constante vigilância: “uma pessoa negra, uma criança, um adolescente negro, ele tem medo, ele tem que andar pensando, eu tenho que ter até o documento da bicicleta, a nota fiscal”, declarou.
Para Luciana, essa lógica de repressão não se repete em bairros de classe alta, e a reforma proposta dependeria de adesão popular para ser implementada: “o povo no poder” seria, segundo ela, condição para viabilizar as mudanças no modelo de segurança.
Colégios cívico-militares
A candidata estendeu a proposta de desmilitarização às escolas estaduais, defendendo o fim do modelo cívico-militar na rede pública. Para ela, a lógica da caserna é incompatível com o ambiente escolar: “os colégios não são quartéis e as crianças, os adolescentes não são soldados”.
Luciana também apontou cobranças de mensalidade, matrícula, uniforme e formatura em escolas cívico-militares como uma forma de seleção que fere o caráter público do ensino: “se a pessoa não consegue pagar aqueles valores, ela é expulsa”. Segundo a candidata, o modelo defendido por sua gestão seria o de “uma escola gratuita, que seja uma escola sem militarização”.

Reestatização da Celg
Durante a entrevista, a candidata também defendeu a reestatização da Celg, privatizada em gestões anteriores, e a manutenção da Saneago sob controle público, sem avanço de processos de privatização.
Luciana argumentou que há dados apresentados por trabalhadores da companhia que mostram que a estatal não opera no vermelho. Para a candidata, o objetivo de uma empresa pública não deveria ser o lucro, mas a qualidade do atendimento à população — padrão que, na sua avaliação, já vem sendo cumprido pela companhia, com atuação em praticamente todo o território estadual.
A candidata contestou o argumento de que a privatização de serviços públicos resulta em preços menores e melhor atendimento. Como contraponto, citou a experiência da distribuição de energia, hoje controlada pelo grupo Equatorial, com relatos de falta de luz no bairro onde mora, em Goiânia: “lá em casa, por exemplo, no Jardim Guanabara, vive acabando a energia”.
Segundo ela, o processo de privatização também costuma resultar em demissões, o que atribuiu à priorização do lucro em detrimento do interesse público.
Questionada sobre como se daria, na prática, a reestatização da Celg — se por recompra ou outro mecanismo —, a candidata afirmou que o modelo será definido ao longo da gestão, caso seja eleita: “vai ser trabalhado juntamente no governo, quando a gente chegar lá, a gente vai administrar, vai ver a melhor maneira”. Ela reafirmou, no entanto, o compromisso com a reestatização da distribuidora de energia.
A candidata
Luciana Amorim tem 54 anos, é servidora pública federal — analista judiciária da Justiça Federal em Goiás — e se define como militante do movimento de mulheres e filiada à Unidade Popular. Esta é sua terceira disputa eleitoral: foi vice em 2022 (governo estadual) e em 2024 (eleição municipal), concorrendo agora pela primeira vez como cabeça de chapa.
Segundo a candidata, a diferença em relação às candidaturas anteriores está no grau de responsabilidade: “o desafio é muito maior agora”, afirmou, atribuindo a indicação a um “acúmulo” de atuação no partido desde 2022.
Luciana resumiu como eixos de sua candidatura a defesa do serviço público, a reestatização de empresas privatizadas e o combate à violência contra a mulher, citando o feminicídio como um problema persistente mesmo em cenário de queda geral da criminalidade.
Para a governadoriável, a disputa de 2026 não se resume ao resultado nas urnas, mas à construção de um contraponto a práticas políticas tradicionais. Ela classificou a candidatura como alternativa à “política de conciliação de classes” e a uma agenda de “retirada de direitos dos trabalhadores”, defendendo o que chamou de posição intransigente em defesa da classe trabalhadora.

Vice na chapa
O candidato a vice-governador na chapa é Caymmi Henrique, de 37 anos, natural de Goiânia. Trabalhador de call center desde os 19 anos, é formado em Direito e cursa pós-graduação. Filiado à Unidade Popular desde 2023, integra o Movimento Luta de Classes (MLC-GO) e a Frente Negra Revolucionária (FNR). Esta é sua primeira candidatura em Goiás pelo partido.
Acompanhe a agenda

A entrevista com Luciana Amorim abre a série de sabatinas do jornal A Redação com os candidatos ao governo de Goiás. Nos dias seguintes, passam pela mesma entrevista Luis Cesar Bueno (PT), nesta terça-feira (18); Marconi Perillo (PSDB), na quarta-feira (19); Daniel Vilela (MDB), na quinta-feira (20); e Wilder Moraes (PL), encerrando o ciclo na sexta-feira (21). Todas as entrevistas têm início às 9h.
