Logo

Caminhos do desenvolvimento sustentável

WhatsAppFacebookLinkedInX
26.05.2023 - 12:13:43

Neste início das gestões na União e nos estados, bem como da legislatura do Congresso Nacional, é oportuno que os governantes e parlamentares, incluindo os prefeitos e vereadores dos municípios brasileiros, deem atenção à Nova Agenda Urbana do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), que ganhou versão completa em português no final de 2022. Sua análise permite inferir com clareza como o nosso país, ao longo de décadas, se distanciou em relação às políticas públicas unanimemente recomendadas para o planejamento urbano e a qualidade da vida nas cidades.
 
O documento, de modo lúcido, enfatiza que a urbanização é uma das ferramentas mais importantes para orientar a agenda de desenvolvimento sustentável. “Entretanto, quando não planejada ou malfeita resulta em desordem econômica, manifestações populares, congestionamento e degradação ambiental, bem como no aumento e na expansão de favelas”. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência. Um país com uma das maiores populações do planeta não foi capaz de criar políticas públicas urbanísticas que conciliassem sua expansão demográfica com a construção de suficientes unidades habitacionais, preservação do verde e dos mananciais, oferta de transportes, saneamento básico, serviços de saúde e educação e oportunidades de trabalho/inclusão socioeconômica.
 
Ademais, nossa legislação ambiental tornou-se excessivamente restritiva e de resolutividade lenta, dificultando e tornando morosos projetos sustentáveis e adequados. Ao mesmo tempo, porém, por força do alto crescimento populacional e forças migratórias e da incapacidade do Estado de atender a essa demanda habitacional, observa-se complacência com o uso e ocupação ilegal do solo, inclusive em locais de preservação e terrenos localizados em locais de risco. Em decorrência, assiste-se à proliferação de moradias precárias, suscetíveis a desmoronamento de encostas e enchentes, sem água, esgotos, escolas, hospitais, comércio e, o mais grave, excluídas da presença do Estado e expostas às “leis” do crime organizado. Avaliando-se as quatro dimensões-chave da sustentabilidade constantes da Nova Agenda Urbana, é possível verificar com mais clareza os gargalos do desenvolvimento das cidades brasileiras e o que poderia ser feito para corrigir os problemas, bem como mitigar as consequências de décadas seguidas de equívocos.
 
O primeiro eixo é o social, no qual se recomenda que as cidades sejam inclusivas e busquem atender às necessidades de todos os habitantes. O segundo é o econômico, com a promoção do emprego decente para todos, oportunidades de progresso e empreendedorismo e posse segura da terra. O terceiro é o meio ambiente, com o fomento da energia limpa, uso sustentável do solo, proteção dos ecossistemas e da biodiversidade, em harmonia com o conforto humano.
 
A quarta dimensão do documento do ONU Habitat refere-se à sustentabilidade espacial, mais diretamente ligada aos preceitos do planejamento urbano, que “pode aumentar o poder das cidades de gerar valor e bem-estar social, econômico e ambiental”. A principal tese, com a qual concordamos, diz respeito ao desenvolvimento compacto e adensamento. Como exemplo, é apresentado o estudo “Os Imperativos da Renovação Urbana de Santiago: os custos da expansão”, referente à capital do Chile.
 
A conclusão é de que a prestação de serviços e infraestrutura para empreendimentos de habitação social localizados na periferia era quase 18 vezes mais caro do que alocar os recursos em perímetros com infraestrutura e acessibilidade existentes. Nas regiões consolidadas, o custo médio de adutoras de água, esgoto, redes de energia elétrica, vias de acesso e circulação, equipamentos de saúde e educação, vigilância policial, mobiliário esportivo e recreativo para cada unidade habitacional foi de 363 dólares, ante 6,38 mil em áreas de expansão.
 
O modelo ideal, portanto, é o maior adensamento de moradias em áreas já consolidadas. Porém, para viabilizá-lo no Brasil seria necessário flexibilizar as normas relativas ao número de andares dos prédios, criar incentivos fiscais e monetários e recuperar e reurbanizar áreas centrais das grandes cidades, que, em sua maioria, estão deterioradas, desperdiçando-se, assim, imenso potencial para redução do déficit habitacional, estimado em cerca de sete milhões de unidades no País.
 
Como exemplo dessa ineficiência urbanística, tomemos o centro da cidade de São Paulo. Há décadas, planos para melhorias são discutidos, mas sem consenso entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Quando o município de Santana do Parnaíba quis incentivar seu desenvolvimento, criou alíquotas diferenciadas de ISS. Foi o suficiente para atrair, durante anos, bilhões em investimentos e se transformar radicalmente, criando renda, arrecadação e empregos. Na Riviera de São Lourenço, em Bertioga (SP), após 42 anos de seu desenvolvimento, continua a política de descontos no preço do lote para quem construir sua residência em até 60 meses. Os resultados são centenas de casas em obras. Isso mostra com clareza que, incentivando a iniciativa privada, conseguimos, rapidamente, promover mudanças.
 
A Nova Agenda Urbana do ONU-Habitat contém subsídios consistentes no sentido de contribuir para que o Brasil corrija equívocos históricos no processo de crescimento das cidades, equacione os problemas relativos às habitações precárias e ocupação ilegal e desordenada do solo e passe a realizar políticas habitacionais e urbanas em linha com os mais contemporâneos e sustentáveis modelos. Para isso, temos de ser mais práticos e menos ideológicos. Já sabemos quais são os nossos problemas e quais são as respostas corretas. Só temos de pôr a teoria em prática. Afinal, a qualidade da vida é a grande prioridade da população.
 
*Luiz Augusto Pereira de Almeida é diretor da Sobloco Construtora e membro do Conselho Consultivo do SECOVI.
 
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Luiz Augusto Pereira De Almeida

*

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Edemundo Dias de Oliveira Filho
17.10.2026
Voto nulo

O voto nulo não é fuga. É declaração. Em um sistema que transforma a urna em ritual obrigatório de adesão, recusar-se a escolher entre as opções apresentadas constitui um exercício lúcido de soberania individual. Não se trata de indiferença, mas de recusa consciente a legitimar o que se considera ilegítimo ou impróprio. A democracia moderna, […]

Marcelo Traldi
16.10.2026
Inovar hoje para nutrir o amanhã

Neste 16 de outubro, data em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação (World Food Day), a comunidade internacional é convocada a refletir sobre o tema central de 2026: “Inovar hoje. Nutrir o amanhã”. Esta máxima não é apenas um lema comemorativo, mas um chamado urgente à ação para líderes, indústrias, governos e consumidores. […]

Tânia Queiroz
15.10.2026
Quando a ansiedade decide o que comemos e o que tomamos

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado em 16 de outubro, o debate costuma girar em torno do acesso e da qualidade dos alimentos. Há, porém, uma pergunta menos discutida, e que ouço todos os dias no consultório e na sala de aula: por que comemos e o que buscamos além do prato? Para muitos brasileiros, […]

Frederico Moraes Xavier
15.10.2026
Educação exige continuidade, não soluções milagrosas

Neste 15 de outubro, celebramos o Dia dos Professores. Data importante para reconhecer o trabalho de profissionais que exercem uma das funções mais importantes da sociedade, mas também discutir as condições trabalho e os caminhos necessários para melhorar a educação brasileira. Na medicina, assim como em tantas outras profissões, sabemos que a formação de um […]

Domingos Quirino
14.10.2026
A saúde não pode envelhecer

A sociedade civil está envelhecendo em ritmo acelerado. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, o país chegou a 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais em 2022, crescimento de 57,4% em comparação com 2010. Esse cenário impõe uma reflexão urgente: se o perfil do paciente mudou, a forma de cuidar também precisa mudar. […]

Chrissia Bandim
13.10.2026
Antes da ferramenta, a gestão do escritório

Na advocacia, o assunto mais recorrente entre os integrantes dos escritórios é saber qual ferramenta de inteligência artificial contratar para elaborar as melhores petições e fazer as melhores intervenções processuais. A discussão é salutar. Mas, qualquer que seja a ferramenta, eficiência e resultado só se conquistam com organização. Quem faz o quê, em quanto tempo, […]

Leonardo Chucrute
13.10.2026
O impacto de um líder vai além dos resultados

Todo líder deixa um rastro. A questão central não está apenas nos resultados entregues, mas no impacto gerado nas pessoas que caminham ao seu lado. Em um ambiente empresarial cada vez mais voltado para performance e crescimento acelerado, é comum associar liderança exclusivamente ao cumprimento de metas, indicadores e resultados de curto prazo. No entanto, […]

Maria Clorinda Soares Fioravanti
09.10.2026
Educação superior, ciência e tecnologia no Brasil: de onde viemos, onde estamos e que futuro queremos?

A Medicina Veterinária, a docência e a pesquisa são dimensões indissociáveis da minha trajetória. Ao longo desses anos, acompanhei períodos de expansão, fortalecimento institucional, restrições orçamentárias e ameaças à autonomia universitária. Essa experiência consolidou minha convicção de que a educação pública de qualidade é um dever do Estado e investir em ciência e tecnologia é […]