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‘Caipirinha’ alcança R$ 57,5 milhões e Tarsila já é a artista mais cara do Brasil

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17.12.2020 - 22:35:49

São Paulo – Tarsila do Amaral (1886-1973) já é a artista mais cara do Brasil. O leilão de sua tela modernista Caipirinha, de 1923, cujo lance inicial era de R$ 47,5 milhões, fez sua cotação disparar, na noite de quinta-feira (17/12), no pregão da Bolsa de Arte comandado por Jones Bergamin. A tela, vendida para um colecionador brasileiro, foi disputada por três pessoas, teve 19 lances e alcançou o estratosférico valor de R$ 57,5 milhões, inferior ao seu recorde no exterior, o da tela A Lua (1928), vendida para o Museu de Arte Moderna de Nova York no ano passado por US$ 20 milhões (valor aproximado de R$ 100 milhões). Nunca uma obra de arte brasileira alcançou esse preço.

Os maiores valores registrados até hoje foram de obras assinadas por Guignard e Lygia Clark. O primeiro alcançou R$ 5,7 milhões com Vaso de Flores, em 2015. Lygia Clark teve sua Superfície Modulada Nº 4, arrematada por R$ 5,3 milhões em 2013 (valores não corrigidos pela inflação). Mais recentemente, uma tela menos conhecida de Tarsila, também do período modernista, foi colocada à venda por US$ 7 milhões (cerca de R$ 36 milhões), numa feira online internacional.

Desde 1995 sua cotação no mercado não parou de subir. Naquele ano, o empresário argentino Eduardo Costantini comprou a mais conhecida tela de seu período antropofágico, Abaporu (1928), por US$ 1,3 milhão durante um leilão em Nova York. A pintura foi vista pela última vez no Brasil na exposição Tarsila Popular, no Masp, que recebeu 400 mil visitantes. Depois de percalços jurídicos, o leilão de Caipirinha (um óleo de 60 cm x 81 cm) foi afinal realizado, mas não sem tumulto.

A pintura é alvo de uma disputa judicial entre Carlos Eduardo Schahin, filho do empresário Salim Taufic Schahin, envolvido na operação Lava Jato, e os 12 bancos credores a quem seu pai deve. A venda do quadro ajudaria a pagar essa dívida. No entanto, Carlos Eduardo alega que a obra foi vendida a ele pelo pai em 2012, por R$ 240 mil. Os credores questionaram a legitimidade da operação, justificando que a obra nunca chegou a sair das mãos de seu pai. O advogado de Carlos Eduardo Schahin, Márcio Casado, entrou com uma medida cautelar para impedir o leilão. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou a liminar que pedia sua suspensão.

Apesar de ter sido mantido o leilão, o ministro Moura Ribeiro estipulou duas condições para a sua realização: o valor obtido não irá imediatamente para os bancos credores, mas será guardado numa conta específica até o fim do processo judicial envolvendo a obra. O fato de o comprador ter de depositar o dinheiro um dia depois da compra afastou possíveis interessados estrangeiros a participar do leilão, segundo informou a assessoria da Bolsa de Arte. A segunda condição: o comprador precisa ser notificado de que o julgamento final pode reverter o entendimento atual do Tribunal de Justiça de São Paulo de que o quadro pertence a Salim e, portanto, pode ser vendido para ajudar a quitar sua dívida com os bancos credores.

O advogado Márcio Casado entrou, no dia do leilão (17), com uma petição nos altos do processo, em São Paulo, argumentando que os bancos credores, cientes da decisão do STJ, não deram publicidade à medida do ministro Moura Ribeiro, o que é contestado pela Bolsa de Arte. "A petição é despropositada e ignora as condições fixadas pelo Poder Judiciário para a venda, inclusive recente decisão datada de 14 de dezembro que já havia rejeitado exatamente a mesma alegação do filho do devedor.

Todas as condições exigidas pela lei e pelo Poder Judiciário, que reconheceu a validade do certame, foram respeitadas", segundo a assessoria da Bolsa de Arte. Sob a guarda inicial de dona Olívia Guedes Penteado, primeira proprietária da tela e mecenas dos modernistas, a pintura foi herdada por sua filha, Carolina Penteado da Silva Teles e, posteriormente, foi comprada pelo empresário Salim Taufic Schahin.

Há poucas obras do período modernista de Tarsila disponíveis no mercado e poucos colecionadores têm uma tela da artista de importância histórica comparável à pintura, realizada em Paris um ano após a Semana de Arte Moderna de 1922. Registrado no catálogo raisonné de Tarsila do Amaral, é um quadro considerado pela artista uma de suas melhores pinturas do período modernista.

Tarsila, em 1923, estudava pintura com os cubistas em Paris – e Caipirinha reafirma a influência de Léger na composição – quando escreveu uma carta aos pais comunicando sua intenção de registrar numa tela suas lembranças de infância na fazenda. "Quero, na arte, ser a caipirinha de São Bernardo, brincando com bonecas no mato, como no último quadro que estou pintando". (Agência Estado)

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por Jessica Torres

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