Logo

Biografia de Elis Regina, ‘Nada Será Como Antes´ é lançada em SP

WhatsAppFacebookLinkedInX
17.03.2015 - 11:04:02

São Paulo – Gênios incontestes, Tom Jobim e Hermeto protagonizaram dois dos mais emblemáticos encontros com Elis Regina (1945-1982). O primeiro, em 1973, resultou no mais incensado álbum da música popular brasileira de todos os tempos. Com inteira, total justiça. O segundo, ao final de um show de Elis no Festival de Jazz de Montreux na Suíça, também nos anos 70. O bruxo albino improvisou como nunca ao acompanhá-la em três canções que ela conhecia bem demais, Corcovado, Garota de Ipanema e Asa Branca.

Os acordes de passagem, as modulações inesperadas, as bruscas "viagens" sonoras fora do script a deixaram em pânico. Empate técnico. Se nas gravações em Los Angeles de Elis & Tom o casal Elis-César adentrou o estúdio pela porta dos fundos diante do grande compositor brasileiro amigo e parceiro de Sinatra, no final quem os reverenciou foi Tom. Em compensação, Hermeto deu um raro nó nela em Montreux.

Em ambos os episódios, salta à vista aquela que é possivelmente a característica mais constante da personalidade da maior cantora que este país já viu: uma insegurança atroz, no nível pessoal e afetivo, que se esparramava pelos palcos e estúdios. Isso fazia dela uma pessoa difícil.

Para muitos, mau-caráter; para os próximos, apenas insegura, incapaz de aceitar uma rejeição, por menor que fosse. "Por trás da artista livre e senhora de seus atos", escreve Julio Maria em Nada Será Como Antes, biografia da cantora que será lançada nesta terça-feira, 17, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, "por mais inconsequentes que parecessem, havia uma mulher que começava a se perder dentro de si". Jamais viveu sem um guru pessoal/artístico. A lista, longa, começa como Ronaldo Bôscoli, César Camargo Mariano e Samuel MacDowell entre os fixos, e por rápidos romances com Nelson Motta, Guilherme Arantes, Fábio Jr. (com quem quis gravar; sabiamente, ele se recusou), até mergulhar num guru letal, a cocaína, em seus últimos dez meses de vida.

Queria ser reconhecida a todo momento como inigualável, a maior de todas as cantoras. Sabia disso, mas agia como principiante, afastando qualquer um em quem enxergasse ameaça potencial. Por que brigou tanto ao longo de sua vida? Por que criou tantas inimizades, barrou tantas colegas de ofício (como Nana Caymmi, Nara Leão, Maysa, entre tantas)? Milagrosamente, apesar desse imenso desequilíbrio, Elis Regina conseguiu construir uma obra artística sem paralelo.

Desenvolveu um faro incrível para descobrir novos compositores, detectar já na primeira audição que uma canção era essencial, como no caso de As Aparências Enganam, de Tunai, quando, para colocá-la no disco no último minuto, descartou uma de seu querido amigo Paulo César Pinheiro. Tecnicamente, era outro milagre. A afinação espetacular, as transmutações que sabia operar no timbre de sua poderosa voz de contralto, o fraseado impecável, as dinâmicas sutis.

Tamanhos apetrechos técnicos fizeram com que, até meados de sua carreira, parecesse mais uma Ella Fitzgerald; a última década, porém, a dos shows conceituais como Falso Brilhante e Saudade do Brasil, viu emergir uma Billie Holiday brasileira. Não porque tivesse algo a ver com Lady Day, mas pela intensidade visceral que punha em cada verso, cada palavra, cada inflexão. Julio Maria esmiúça com paciência de ourives e prosa aguçada do melhor jornalismo Elis Regina de corpo inteiro. Pela primeira vez, esquadrinha-se a vida e carreira de Elis em sua complexidade.

Julio Maria foge dos elogios fáceis como o diabo da cruz. Prefere buscar a descrição mais fiel possível de cada evento, ouvindo todos os envolvidos. Mais de uma centena de entrevistas e um mergulho na imprensa da época revivem lances hoje anedóticos, como a malfadada guerra entre as guitarras elétricas e a "pura" MPB, mera estratégia de marketing da TV Record. A certa altura, Julio diz que Elis era para iniciados e Roberto Carlos para principiantes: "O grau de dificuldade que procurava nas composições lhe daria vitórias entre os entendidos e derrotas entre os iniciantes. Gostar de Elis não era tão simples quanto se apaixonar por Roberto Carlos".

É possível
Sem bater na eterna tecla da nostalgia de tempos idos e defuntos, não há como não derramar uma lágrima pensando que já houve época em que músicos e cantores deste quilate ocupavam o horário nobre da televisão. Tempos em que canções como Upa Neguinho, O Bêbado e a Equilibrista ou Alô, Alô Marciano eram marteladas nas rádios. É esta saga magnífica que Julio Maria conta nos mínimos detalhes.

Um momento tão brilhante, na música brasileira, quanto a do badaladíssimo período de ouro da canção norte-americana entre as décadas de 1920 e 1950. Afinal, Elis foi o mais precioso e raro diamante vocal que o País já teve. Merecia uma biografia como esta. (Agência Estado)

compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Yuri Lopes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Música
25.09.2026
Jorge Vercillo apresenta o show “Intimista” em Goiânia

A Redação Goiânia – O cantor Jorge Vercillo apresenta o show “Intimista” em Goiânia. A apresentação será no dia 14 de novembro. A venda de ingressos está disponível no site BaladApp. Mantendo  o  repertório  que  reúne  alguns  dos  maiores  sucessos  de  sua  trajetória,  o  artista revisita  canções  que  marcaram  gerações,  como  “Final  Feliz”,  “Monalisa”,  “Que  […]

Cultura
25.09.2026
Academia Pirenopolina de Letras comemora recebimento de livros com ampla programação cultural

Jales Naves Especial para o jornal A Redação Goiânia – A Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música recebeu livros doados pela família do pirenopolino Antônio Geraldo de Oliveira e decidiu comemorar nesta sexta-feira (25/9), a partir das 19h, em sua sede, na antiga Casa de Câmara e Cadeia (Rua Beira Rio, 6), no centro […]

Cultura
25.09.2026
Confira a programação do 26º Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros

A Redação Goiânia – A Vila de São Jorge, na Chapada dos Veadeiros, recebe o 26º Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, entre os dias 6 e 17 de outubro, em Alto Paraíso de Goiás. O evento reúne mestres, mestras, quilombolas, indígenas e artistas de diferentes regiões do país. O Encontro de Culturas faz parte […]

Arte
25.09.2026
Goiânia recebe a exposição ”Tessituras: Histórias de Bá”

A Redação Goiânia – A capital goiana recebe a exposição ” Tessituras: Histórias de Bá”, dedicada à trajetória de Maria Abadia Haich, neste sábado (26/9), às 10h, no Armazem AZ . A mostra reúne fotografias, documentos, depoimentos, peças de design, roupas e objetos pessoais para contar uma história em que vida familiar e atuação profissional […]

Literatura
25.09.2026
“Um palmo ou dois acima do chão” é o novo romance do autor goiano Edival Lourenço

A Redação Goiânia – O autor goiano Edival Lourenço lança seu mais novo romance: “Um palmo ou dois acima do chão”, uma obra de autoficção ambientado no sertão goiano. O protagonista da história é um menino, que reconstrói a infância vivida com os pais em fazendas do interior. A obra escrita por Edival Lourenço mergulha […]

'Sertanejo Série A'
25.09.2026
Maiara & Maraisa, Fred & Fabrício e Naiara Azevedo se apresentam em Goiânia em dezembro

A Redação  Goiânia – Goiânia recebe, no dia 12 de dezembro, três nomes do sertanejo em uma mesma programação. Maiara & Maraisa, Fred & Fabrício e Naiara Azevedo se apresentam no Festival Sertanejo Série A, que retorna à capital goiana em formato de festival. Os ingressos já estão à venda pelo site Meu Bilhete. A […]

Música
25.09.2026
Banda ‘Quem é Você, Alice?’ se apresenta em Goiânia pela primeira vez

José Abrão Goiânia – A banda gaúcha ‘Quem é Você, Alice?’ desembarca em Goiânia pela primeira vez para um show no Shiva Alt-Bar, no Setor Oeste, no dia 11 de outubro. A programação começa às 16h e ainda terá apresentação da banda goiana Synx. Autodenominada uma banda de “rock triste”, a ‘Quem é Você, Alice?’ […]

HUMOR
24.09.2026
Serginho Lacerda apresenta comédia ‘Vida de Pai’ em Goiânia

Caroline Louise  Goiânia – O comediante Serginho Lacerda apresenta o espetáculo “Vida de Pai” em Goiânia no dia 3 de outubro, no Teatro Agostiniano. O show terá duas sessões no sábado, às 17h e às 19h30, e promete transformar situações cotidianas da paternidade em humor para toda a família. Os ingressos estão à venda no […]