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Beijo entre Bial e Galvão não foi desnecessário

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30.04.2015 - 15:00:59

 
Sarah Mohn
 
Goiânia –
Quando vi a imagem, no início desta semana, dos jornalistas Pedro Bial e Galvão Bueno se beijando num programa especial sobre os 50 anos da Rede Globo, tive a certeza de que aquilo daria pano para manga. Era meio óbvio que o matiz da intolerância em defesa da tradicional família brasileira iria invadir todos os possíveis canais de internet, apedrejando a ludibriosa e satânica empresa televisiva e os inconsequentes jornalistas apologistas da homossexualidade.

Dito e feito. Imediatamente após à aparição da cena na TV aberta, pipocaram nas mídias digitais as críticas ofensivas, as piadas infames e as escancaradas demonstrações de fanatismo. Nada novo, portanto, diante do que temos visto rotineiramente nesse planeta.
 
Todavia, o que mais me chamou a atenção foi a postura disfarçadamente neutra de quem declarou não ser homofóbico, mas achar "desnecessária" a atitude das duas celebridades globais. Argumentações como "não sou contra o beijo, mas acho que não havia motivo para aquilo" ou ainda "não sou contra o beijo, mas para que provocar gratuitamente?" foram algumas das frases que li e ouvi ostensivamente.
 
Em algumas ocasiões, tentei contra-argumentar. Em outras, me vali de uma excelente tática que criei para ignorar pessoas e situações absurdas: ao me deparar com opiniões de intolerância vindas da boca de gente que não vale a pena, forço por dois segundos um sorriso esticado que esconda os dentes e, em seguida, saio de perto, coloco um fone de ouvido ou mudo de assunto. Ignorar é um exercício infalível para evitar um infarto precoce.
 
Mas não é sempre que devemos fingir desconhecer intransigências, especialmente relativas à homofobia. E foi exatamente isso que Pedro Bial e Galvão Bueno fizeram. Estrategicamente pensado e acordado, o beijo entre os dois, veiculado sem cortes em horário nobre na televisão aberta, tinha como principal intenção romper paradigmas e colaborar com a luta contra o preconceito homossexual. Dois amigos se beijando carinhosa e amigavelmente, como se fosse algo natural, objetivava exatamente isso, ser algo natural.
 
No entanto, a reação da parcela social dita tolerante provou que o buraco é mais embaixo. Definir o beijo como "desnecessário" é corroborar com a repulsa cultural a que somos condicionados socialmente. É atestar a ideia de que pessoas do mesmo sexo se beijando ou abraçando em locais públicos ainda não é apropriado, porque causa estranhamento. É  corroborar com bochichos dentro da família, quando se descobre que uma prima é lésbica ou o ex-namorado da irmã se assumiu gay. É manter uma postura passiva e dar corda a boatos que envolvam a sexualidade alheia.
 
Por isso, parabenizo meus colegas de profissão. Me sinto por eles representada. A atitude afirmativa e corajosa dos dois é profundamente cabível no contexto atual de extremismo e inclemência social. Totalmente oportuna. Completamente legítima.
 
Enquanto estranharmos e nos incomodarmos com cenas de amor e afetividade entre pessoas do mesmo sexo, sejam elas homo ou heterossexuais, atestaremos nosso preconceito enraizado. Assumiremos nossa parcela de intolerância. Espancaremos pai e filho que se abraçam na rua, por confundi-los com casal gay. Levaremos à morte filhos de casais homossexuais, após espancá-los dentro de escolas. E trataremos como notícia fatos completamente desimportantes para o noticiário jornalístico, como um beijo entre duas pessoas. Reflitamos.

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por Sarah Mohn

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