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Vanderlan, Gracinha e Zacharias (Foto: reprodução)

Base de Caiado adota candidaturas múltiplas ao Senado como estratégia de articulação; entenda

Mudança de rota ocorre após frustração da aliança com o PL e pressão de lideranças internas

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09.03.2026 - 08:13:35

Samuel Straioto

Goiânia – A base liderada pelo governador Ronaldo Caiado em Goiás abandonou a tese que defendeu por dois anos e voltou a admitir candidaturas avulsas ao Senado Federal. O movimento foi desencadeado pelo fim da aliança com o PL e pela pressão de lideranças internas que reivindicavam espaço na majoritária. Com duas vagas em disputa em outubro e ao menos cinco nomes ativos no campo governista, as negociações avançam em ritmo de afunilamento. Os últimos movimentos já deixam rastro: Zacharias Calil se filiou ao MDB, Vanderlan Cardoso encaminhou acordo para disputar a reeleição pela base, e o grupo chega a três pré-candidatos confirmados ao Senado, considerando também a primeira-dama Gracinha Caiado (UB).

A lição de 2022 e a tese dos dois nomes

Por dois anos, o grupo que controla o Palácio das Esmeraldas trabalhou com uma premissa clara: não repetir o “erro” de 2022. Naquele pleito, a base caiadista lançou três candidatos ao Senado — Delegado Waldir (União Brasil), Alexandre Baldy (PP) e Vilmar Rocha (PSD) — e perdeu as duas vagas.

A leitura interna foi direta: a fragmentação dos votos governistas abriu caminho para a vitória de Wilder. A tese dos dois nomes tornou-se posição oficial. “Candidaturas avulsas dividem a base e todo mundo perde”, afirmou a primeira-dama Gracinha Caiado (União Brasil), pré-candidata a uma das vagas e principal defensora da concentração. Caiado endossou o raciocínio e, durante dois anos, o grupo trabalhou para conter os postulantes dentro dessa lógica.

Gracinha Caiado (Foto: divulgação)

Para o cientista político Rodrigo Andrade, a experiência de 2022 explica diretamente a postura adotada pelo grupo. “Há uma leitura de que a fragmentação trouxe custos. A direção inicial clara foi de buscar maior unificação como forma de reduzir riscos”, afirma.

O colapso da aliança com o PL

O plano tinha uma peça-chave: a aliança com o PL. O acordo previa que o partido de Wilder Morais integraria a chapa majoritária, com o deputado federal Gustavo Gayer como candidato ao Senado. Com o PL dentro do guarda-chuva governista, o grupo poderia apresentar dois nomes ao Senado — Gracinha e Gayer — sem abrir espaço para candidaturas próprias da base. Nesse cenário, Vanderlan Cardoso ficaria de fora, e chegou a ser cortejado por Marconi Perillo (PSDB).

O anúncio da pré-candidatura de Wilder Morais ao governo do Estado pelo PL encerrou esse arranjo. Sem o acordo, a vaga que seria de Gayer deixou de existir, e os nomes que aguardavam uma definição dentro da coalizão voltaram à disputa. Lideranças que estavam contidas pela perspectiva do acordo passaram a pressionar por espaço. Diante do risco de ver aliados migrarem para o campo de Wilder ou de Marconi Perillo, a cúpula do governo flexibilizou a posição. “Diante do novo cenário, não se pode mais descartar candidaturas avulsas”, admitiram interlocutores governistas ouvidos pela reportagem.

Gracinha mantém sua posição contrária à pulverização, mas o governador teria dado aval à ampliação das conversas para, ao menos por enquanto, segurar os insatisfeitos. Se antes a ordem era impedir candidaturas avulsas, agora não há mais restrição.

Em público, a primeira-dama sinalizou disposição para acatar o que o grupo decidir. “Eu sou mulher de equipe e de trabalhar junto. Então, estou aí com Daniel e Ronaldo. O que for decidido, eu estou aqui firme para trabalhar junto”, afirmou.

Zacharias: de quase ruptura a pré-candidato pelo MDB

Zacharias Calil protagonizou o primeiro movimento concreto do afunilamento. Após um período de turbulência, que incluiu aproximação com o PL de Wilder Morais e com o PSDB de Marconi Perillo, e a consequente exoneração de nove comissionados indicados por ele em cargos de assessoria no governo, o parlamentar decidiu permanecer na base e se filiou ao MDB ao lado de Daniel Vilela.

O ato contou com a presença do presidente da Assembleia Legislativa, Bruno Peixoto, que declarou apoio e se referiu a Calil como seu “pré-candidato ao Senado”. Até então no União Brasil, Zacharias havia chegado a cogitar o PSDB de Marconi Perillo e o próprio PL, o que representaria rompimento definitivo com o grupo governista.

O parlamentar afirmou que se sentiu excluído depois que Caiado descartou a chance de ele ser candidato ao Senado no grupo, o que motivou sua aproximação com a oposição. A exoneração dos comissionados foi a resposta do governo a esse movimento. A filiação ao MDB encerrou um imbróglio que durou semanas e que chegou perto de resultar em uma rachadura na base.

Zacharias Calil se filiou ao MDB, em articulação para disputar vaga ao Senado. Foto: Divulgação.

Vanderlan encaminha acordo, mas desconfiança persiste

No mesmo dia da filiação de Zacharias, Vanderlan Cardoso encaminhou acordo para ser candidato à reeleição pela base. Em reunião com Caiado e Daniel Vilela, o senador teve garantido espaço para tocar seu projeto eleitoral — que sempre foi concorrer novamente ao Senado. Nas tratativas internas, Vanderlan passou a defender o filtro para dois nomes — ele e Gracinha — e acenou com a manutenção de Pedro Chaves (MDB) como suplente dele.

A reaproximação, no entanto, não está isenta de desconfiança. A esposa de Vanderlan, Izaura Cardoso (PSD), é suplente de Wilder Morais e comemorou publicamente o lançamento de sua pré-candidatura ao governo. Em conversas com governistas, o senador tem dito que não há vinculação entre as duas situações. Com Zacharias e Vanderlan confirmados, a base já chega a três pré-candidatos ao Senado — somados a Gracinha Caiado.

Vanderlan Cardoso tentará reeleição pela base governista. (Foto: divulgação)

Os demais postulantes

Além do trio confirmado, dois nomes seguem em aberto. Alexandre Baldy (PP), presidente da Agência Goiana de Habitação (Agehab), mantém pré-candidatura ativa e não fez gestos de rompimento com o governo. Baldy tem histórico de abrir negociações com múltiplas frentes até o período das convenções. Em 2022, disputou o Senado pelo PP. Nos bastidores, a aposta é de que ele toparia uma suplência, embora se apresente como postulante à vaga.

Gustavo Mendanha (PSD), ex-prefeito de Aparecida de Goiânia, também aparece no radar, mas deixou claro sua preferência. “Só penso num projeto majoritário”, afirmou. Mendanha é cotado para a vice na chapa de Daniel Vilela ao governo, e sua candidatura ao Senado segue como possibilidade apenas caso não avance nessa disputa.

A largada em Jaraguá

No dia 14 de março, a base do governo realiza em Jaraguá o primeiro grande ato político de 2026, com presença esperada de prefeitos, deputados e lideranças aliadas. A ideia é apresentar, já nessa ocasião, uma aliança robusta com os nomes apoiados ao Senado — o que torna o evento um prazo informal para que as negociações ainda em aberto ganhem contornos mais definitivos. As convenções partidárias, entre 20 de julho e 5 de agosto, são o prazo formal. Mas o afunilamento já está em curso.

O fator TSE

Há ainda uma variável jurídica em jogo. O TSE analisa consulta sobre a obrigatoriedade de partidos coligados para o governo repetirem a mesma aliança na disputa ao Senado — questão que, dependendo da decisão, pode obrigar reformulações nas chapas.

Para o advogado eleitoralista Henrique Farias, o ponto central é a segurança jurídica. “Quando não há um critério bem definido, surgem questionamentos no registro das candidaturas e ações após a eleição. Isso fragiliza o processo e gera instabilidade”, alerta. Em 2022, o tribunal vedou as chamadas coligações cruzadas por quatro votos a três. Com nova composição do plenário e duas vagas em jogo em 2026, a questão ganha nova dimensão. O prazo para registro das candidaturas vai até meados de agosto, logo após as convenções.

 

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por Samuel Straioto

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