Logo

Barracas que alimentam histórias: famílias que ninguém vê

10.10.2025 - 20:22:01
WhatsAppFacebookLinkedInX

Imagine que, por onze anos, você acorda cedo todos os dias, trabalha sob o sol e a chuva e, com o fruto desse esforço, mantém sua casa, paga as contas, alimenta seus filhos e constrói, com dignidade, uma vida honesta. Agora imagine que, de repente e sem aviso prévio, o poder público determina o fim do espaço onde você sempre garantiu o sustento da sua família.
 
É o que muitos trabalhadores de Goiânia estão vivendo após a Prefeitura iniciar a remoção dos tradicionais quiosques de água de coco dos parques da cidade, como o Vaca Brava, sob o argumento de “regularizar” as áreas públicas.
 
E um desses trabalhadores é o seu João, um homem simples, nascido em Jaupaci (GO), que passa os dias vendendo água de coco em uma barraca que existe há mais de três décadas no Parque Areião, o seu segundo lar. Ele chega antes das sete da manhã e só vai embora quando o sol se despede, quase sempre sozinho, com o mesmo sorriso que o tornou conhecido entre os frequentadores. É dali que tira o sustento, o alimento e, como gosta de dizer, “a alegria de conversar com o povo”. Aquele espaço, que para muitos é lazer, para ele é vida e dignidade.
 
Mas agora, o que era rotina virou incerteza. Seu João teme perder o ponto que garante o pão de cada dia. Ficou sabendo, por amigos do Parque Vaca Brava, que as barracas estão sendo notificadas pela Prefeitura e que podem ser retiradas em breve. Desde então, vive com medo, medo de perder o trabalho, de ficar sem sustento, medo de ser esquecido por uma cidade que ele ajuda a manter viva.
 
Nos últimos meses, a Prefeitura de Goiânia iniciou uma série de notificações a vendedores e ambulantes dos parques, alegando irregularidades na ocupação de áreas públicas. A justificativa é o cumprimento do Código de Posturas, que proíbe estruturas fixas sem licitação. Ao mesmo tempo, circulam informações sobre um projeto de concessão à iniciativa privada, que promete “melhorar” a manutenção e o ordenamento desses espaços.
Mas a pergunta que ecoa entre os trabalhadores é simples: melhorar pra quem?
 
Por trás do discurso de modernização, há uma realidade que parece invisível, a dos homens e mulheres que vivem do trabalho informal, que não têm garantias, que constroem suas vidas à beira dos parques, e mantêm vivas as relações humanas que tornam o espaço público realmente público.
 
A retirada dessas barracas representa mais que uma mudança visual. Representa o rompimento de vínculos, a extinção de histórias e o apagamento de pessoas que encontraram no parque sua forma de dignidade. Muitos, como o seu João, não teriam outra chance de recomeçar, pela idade, pelas limitações físicas ou simplesmente pela falta de oportunidade em um mercado que já fecha portas para quem mais precisa.
 
Enquanto isso, os parques seguem enfrentando problemas estruturais sérios, como árvores caídas, falta de manutenção e segurança precária, situações que, ao que tudo indica, não receberam a mesma urgência que a retirada dos pequenos comerciantes.
 
É impossível não enxergar o contraste: de um lado, o poder público falando em eficiência e requalificação; de outro, trabalhadores que pedem apenas o direito de continuar sobrevivendo.
 
Se o objetivo é melhorar os parques, que se comece pelas pessoas, e não pela exclusão delas.
Porque cidade bonita não é a que esconde os humildes, mas a que os acolhe.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Lara Serapião
Postagens Relacionadas
Ricardo Menegatto
17.02.2026
Prejuízos causados por eventos climáticos: quais são os direitos do consumidor?

Os alertas da Defesa Civil sobre tempestades severas tornaram-se parte da rotina de moradores de São Paulo e de diversas capitais brasileiras. Com eles, cresce também a apreensão quanto à possibilidade de quedas de energia elétrica e aos prejuízos que podem atingir residências, comércios e até a saúde de pessoas que dependem de equipamentos essenciais. […]

Carla Conti
14.02.2026
Educar com consciência planetária é um compromisso com a vida

A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e pelo […]

Anna Carolina Cruz
13.02.2026
O tempo que não temos

Há dias em que a alma pede silêncio. Não o silêncio da ausência de barulho, mas o silêncio da consciência que desperta. Tenho pensado muito na forma como estamos vivendo. Corremos como se houvesse um incêndio permanente, como se cada mensagem ou e-mail não respondido fosse o fim do mundo, como se cada prazo fosse […]

Bruno D´Abadia
12.02.2026
Gestão de dados fortalece operadoras de saúde

O setor de saúde suplementar vive uma transição decisiva. Transparência, integridade da informação e precisão técnica deixaram de ser apenas exigências regulatórias e passaram a influenciar diretamente a sustentabilidade e a credibilidade das operadoras. Em um ambiente cada vez mais monitorado, dados corretos não são apenas números enviados à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). […]

Ralph Rangel
12.02.2026
O Homo Instagramabilis: O crepúsculo da inteligência

Houve um tempo em que o ser humano era definido pela sua capacidade de busca: a busca pelo abrigo, pelo fogo, pela forma de armazenar o alimento, pela verdade, pelo conhecimento profundo, enfim, éramos buscadores. Hoje, essa trajetória evolutiva parece ter sofrido um curto-circuito. Estamos testemunhando a ascensão de um novo tipo de pária social: […]

Luciana Brites
11.02.2026
Por que as crianças estão perdendo habilidades motoras na era digital?

O aumento do uso de tablets e celulares reduz o tempo de brincadeiras físicas, prejudicando o desenvolvimento motor e cognitivo. Por este motivo, temos notado que muitas crianças estão perdendo habilidades motoras. As atividades para coordenação motora são essenciais para desenvolver a integração de movimentos e a precisão no controle muscular. A coordenação motora global […]

Mardonio Pereira da Silva
10.02.2026
Quando o ódio invade a sala de aula: violência, feminicídio e a negação do Direito em um Estado Democrático

A morte brutal da Professora de Direito e policial civil, Juliana Santiago, assassinada dentro da sala de aula por um aluno do 5º período, não é apenas um crime hediondo: é um ataque frontal ao Estado Democrático de Direito. A barbárie ocorrida no ambiente universitário rompe todas as fronteiras do aceitável e impõe uma reflexão […]

Renato Gomes
10.02.2026
A qualidade da saúde começa na gestão

Durante muitos anos, quando se falava em qualidade na saúde, o debate quase sempre se concentrava no ato assistencial. O olhar estava voltado para o médico, o hospital, a tecnologia, os equipamentos. Tudo isso é, sem dúvida, essencial. Mas, após mais de 25 anos de atuação em gestão, consultoria e educação em saúde, cheguei a […]