José Abrão
Goiânia – A banda cearense Selvagens à Procura de Lei desembarca em Goiânia neste domingo (8/11) com a turnê do novo álbum, “Pivete”. Com 20 faixas, o disco é mais político, mais maduro e mais conceitual, marcando a trajetória da banda que começou em 2011 e passou por uma repaginação e reorganização da formação entre 2024 e 2025. O show será no Shiva Alt-bar, no Setor Oeste. Para o vocalista, guitarrista e tecladista Gabriel Aragão, resume a pegada do disco como a de quem decidiu seguir o próprio caminho: “não tô seguindo cartilha de ninguém”.
“Pivete” é o segundo disco de estúdio da formação reorganizada, depois de “Y”, e a banda ainda registrou um álbum ao vivo nesse período. Para Gabriel, a mudança de elenco foi decisiva. Ele conta que, na formação anterior, a pandemia, o governo Bolsonaro e diferenças de pensamento político abriram um distanciamento entre os integrantes. “Às vezes a galera pensa que a banda se separou só por causa de política. Não só, mas em boa parte também”, afirma.
Com a nova formação, diz ter reencontrado o ritmo que sempre quis. “Eu me senti muito livre para fazer o que eu quero fazer e para colocar para fora as canções de uma maneira mais rápida”, conta. Hoje, todos na banda atuam como produtores. A meta é lançar um álbum por ano, como faziam os artistas dos anos 1960 e como faz, hoje, a banda australiana King Gizzard & the Lizard Wizard, que ele cita como referência. “Eu tenho sentido muita liberdade disso. Tem muito amigo que fala assim ‘Gabriel, tu tá muito workaholic‘”, brinca.
O desejo de autonomia se refletiu no formato de “Pivete”. Gabriel conta que gravadoras, distribuidoras e até produtores consagrados aconselham discos de no máximo meia hora, com cerca de dez faixas e músicas de até três minutos e meio, sob o argumento de que o público não ouve mais que isso. A banda fez o oposto: são 20 faixas, algumas de cinco minutos. “Vou fazer o meu caminho, vou fazer o que eu tô pensando”, diz, citando o exemplo do Radiohead. “E talvez, por isso mesmo, ir na contramão de algumas coisas”.
“Pivete” é também o primeiro passo rumo a um disco mais profundamente conceitual. A narrativa acompanha um personagem que vive em Fortaleza, e cada bloco de cinco músicas representa uma fase da vida: infância, adolescência, juventude, vida adulta e velhice. A faixa “Dia de Rua”, por exemplo, foi pensada de propósito para a fase final da vida do personagem para reforçar a ideia de que é preciso lutar pelos seus direitos por toda a vida.
“Tudo é político”
Admirador declarado de Roger Waters, Gabriel já pensa em um conceito mais amarrado para o próximo trabalho, que ele quer que seja “ainda mais político”. Essa dimensão, diz Gabriel, não se limita a faixas como “Guerra” ou “Dia de Rua”: “Todo disco dos Selvagens é político”, afirma, e, para ele, o álbum inteiro assume esse caráter.
Outra escolha política, segundo ele, foi ambientar o disco inteiro em Fortaleza, da capa às letras. É uma resposta ao que Gabriel descreve como a centralização da indústria musical no Sudeste, de curadorias de festivais e programas a premiações que se apresentam como “da música brasileira”. Ele recorda a ironia atribuída a um músico paraense sobre um palco do Rock in Rio dedicado à música nacional, mas sem artistas do Norte: seria o palco da música “parcialmente brasileira”.
“Isso é uma coisa que eu sinto muito, assim, eu como nordestino e juntamente com a galera do Norte, né? Imagina, cara, eu montar um prêmio aqui de Fortaleza valorizando muito a galera daqui do Ceará, do Norte e Nordeste, e chamar de prêmio da música brasileira. Isso não é tosco? Por que um carioca [se sente no direito] de fazer isso?”, questiona. “A gente não precisa mais ir morar em São Paulo”, resume.
Também por não depender desses filtros que a banda mantém a agenda cheia. Gabriel admite que gosta mais de gravar do que de tocar ao vivo, mas diz amar estar junto dos fãs. “Pivete” nasceu em parte na estrada, durante a turnê de “Y”, o que, segundo ele, explica a urgência do disco. “Em pleno 2026, ainda tem muito preconceito com banda de rock”, afirma, ao comentar as barreiras enfrentadas por artistas nordestinos. Em 2025, o grupo passou por todas as regiões do país e, agora como novo empresário, André Bourgeois, planeja para 2027 a grande turnê do álbum.
O álbum reúne muitos convidados, entre eles Ailton Krenak, Silvero Pereira, Léo Suricate, Soledad e Tatá Aeroplano. Para Gabriel, a coletividade faz parte do conceito, e por isso ele fez questão de creditar como participação especial até quem aparece em backing vocal ou outras gravações. Citando o guitarrista Plínio Câmara, ele se refere ao disco como “galeroso”. “A coletividade faz parte do conceito do disco. Fiz questão de dar esses créditos devidos e não deixar o feat escondido”, explica.
Os ingressos estão disponíveis na Shotgun.
