Sarah Mohn
Goiânia – O endividamento de R$ 23,8 milhões apontado por auditoria do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) na seccional goiana tem como um dos fatores a última edição do Baile do Rubi, tradicional festa da advocacia, que foi realizado em agosto do ano passado pelo ex-presidente Enil Henrique de Souza Filho. O evento, que custou R$ 700.334,84 (setecentos mil trezentos e trinta e quatro reais e oitenta e quatro centavos), deixou déficit de R$ 350.904,84 (trezentos e cinquenta mil novecentos e quatro reais e oitenta e quatro centavos) para a atual gestão pagar.
Os números foram repassados pelo presidente Lúcio Flávio de Paiva com exclusividade ao jornal A Redação. "Eu posso dizer que estamos falando de déficit no Baile do Rubi de mais de R$ 350 mil. Déficit em festa, quando a advocacia está precisando de internet, de computadores novos, de reformas das salas, de equipar as salas com móveis, com servidores. É importante que a advocacia saiba que é chato para o novo gestor ficar recebendo cobrança diária de dívidas feitas na gestão anterior", critica.
De acordo com o presidente, os valores dos serviços contratados para a festa são “exorbitantes” e representam gastos desnecessários. Só de uísque, Lúcio Flávio disse que teve de pagar neste mês de março o total de R$ 25 mil. "Uma dívida que me surpreendeu: o fornecedor do uísque do baile do Rubi veio nos cobrar. E aí nós pagamos, com juros, claro, porque estava atrasado, R$ 25.560,00 (vinte e cinco mil quinhentos e sessenta reais) de uísque para um baile que nunca antes teve esta bebida. Nas edições passadas, cada um levava o seu."
Outros gastos que chamam a atenção no Baile do Rubi de 2015 são o buffett (R$ 281 mil); a decoração (R$ 104 mil); espumantes (R$ 8 mil); o cachê do artista (R$ 68 mil); passagens aéreas para artista e produção (R$ 19 mil); entre outros.
Ex-presidente Enil Henrique dá pontapé inicial em partida nas olimpíadas da OAB (Foto: Arquivo/OAB-GO)
Jogos Olímpicos
Outra conta não paga no ano passado, mas quitada pela atual gestão, é referente aos Jogos Nacionais da Advocacia (Olimpíadas OAB), realizados em setembro, em Goiânia. De acordo com Lúcio Flávio, a dívida do evento ficou para a atual gestão pagar e totaliza R$ 356 mil.
"Fizeram, literalmente, graça com o chapéu alheio. Esta gestão está se virando e apertando o cinto para honrar o supérfluo. Não que esporte não seja importante, mas isso é supérfluo em relação à situação do país. E eu pergunto: se as Olimpíadas da OAB foram em setembro, naquela época será que os gestores da OAB não sabiam da situação de descontrole financeiro?", questiona o presidente.

(Foto: Reprodução/Revista da OAB-GO)
Revista da OAB-GO
A última edição da Revista da OAB-GO, lançada em agosto de 2015, também não foi paga pelo ex-presidente Enil Henrique, como afirma Lúcio Flávio. "Aliás, uma edição totalmente diferente, mas isso é opção discricionária do gestor. A única coisa que não poderia ter acontecido é mandar a conta para a gente. Esta gestão pagou R$ 50 mil em revistas de coluna social que a última gestão resolveu fazer", critica.
Uma das piscinas do Cel da OAB-GO: atraso no pagamento de salva-vidas
Salários dos salva-vidas do Cel da OAB
O presidente da OAB-GO disse também ao AR que, quando assumiu a gestão da Ordem, os salva-vidas do Centro de Cultura, Esporte e Lazer (Cel da OAB-GO) estavam na "iminência" de iniciarem greve para receberem cerca de R$ 30 mil em salários atrasados.
"Apesar de toda a dificuldade, reconhecendo a importância desses profissionais, fomos lá e resolvemos o problema. Estão todos os salários pagos. Neste fim de semana, uma criança de 5 anos teve um mal súbito e começou a se afogar na piscina. O salva-vidas estava lá, fez o salvamento e evitamos uma tragédia. É onde eu falo que a má gestão se torna irresponsabilidade", relata.
Ex-presidente Enil Henrique afirma que não deixou contas para a atual gestão (Foto:Arquivo/OAB-GO)
Por telefone, o ex-presidente Enil Henrique afirmou ao AR que desconhece os valores apresentados por Lúcio Flávio e garante que quitou os acertos feitos na gestão passada.
"O atual presidente está falando muito sobre contas. Ele está falando sobre situações que não espelham a realidade. Tudo que se fala sobre 2015, que as contas ainda não estão fechadas, são especulações. Já fiz duas solicitações à atual diretoria para me passarem os documentos, balanços e balancetes referente ao ano de 2015 e não tive retorno. Eu desconheço esses valores que ele apresenta. Eu quitei todos os acertos relacionados ao baile e às Olimpíadas", disse.
Enil questiona também a auditoria feita pelo Conselho Federal. "Sobre a auditoria do Conselho Federal, eu a vi no portal de transparência e ela nem está assinada. Não posso considerar um documento que nem está assinado. Então, ainda faltam muitas informações antes de dizer se as contas estão fechadas ou não. É muito precipitado o que ele está fazendo."
Ex-secretário da OAB-GO, Julio Meirelles (Foto: Arquivo/A Redação)
O ex-secretário-Geral da OAB-GO, Julio Cesar Meirelles, afirmou ao AR que não tem conhecimento das dívidas deixadas pela gestão de Enil Henrique, pois, quando rompeu com o ex-presidente por discordar de sua forma de administração, parou de ser informado sobre reuniões da diretoria, bem como sobre decisões administrativas que definiam a aplicação de recursos. Ele declarou que o mesmo tratamento de afastamento involuntário foi dado ao ex-vice-presidente, Antônio Carlos, que também compunha a chapa OAB Forte, adversária de Enil.
"Fomos excluídos involuntariamente das reuniões e decisões tomadas pelo ex-presidente. Por meio de diversos ofícios, no ano passado, solicitamos informações sobre as contas da OAB, mas nunca obtivemos retorno. Em janeiro deste ano, encaminhei ao novo presidente e ao Conselho Seccional da atual gestão um documento relatando e comprovando fatos a respeito do completo distanciamento que me foi imposto dos atos de gestão financeira praticados no ano de 2015, sobre os quais, por não ter participado de eventuais reuniões e das decisões tomadas pela diretoria ou presidência em relação aos atos de gestão e direcionamento de recursos financeiros, não posso e não devo responder ou ser responsabilizado, em nenhuma hipótese ou forma", defende.