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Aventura da vida

03.11.2024 - 08:27:54
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O corpo se esfaz na terra:
 
O sopro que Deus lhe dera 
 
Está livre como o vento.
 
 
 
Nunca pensou que pudesse
 
Andar por tantas lonjuras
 
Como anda o pensamento
 
 
 
Mas não era de turismos…
 
 
 
Voltou, ficou por ali…
 
Leu o resto de uma página
 
Que deixara interrompida…
 
 
 
Sentou no topo da escada.
 
Sentou na beira da estrada.
 
Morte ____ que grande estopada!
 
 
 
Até que um Anjo Glorioso
 
Passou 
 
Olhou
 
Não viu nada
 
 
 
…um anjo tão esplendente
 
que a própria luz o cegava!
 
(Mário Quintana)
 
 
Atravessando o mês de Outubro e adentrando o de Novembro, onde, no entremeio, há duas celebrações peculiares: Halloween (ou dia das bruxas) e Finados (ou dia dos mortos), nos deparamos abruptamente com a legítima atmosfera escorpiana.
 
Notamos na erudição dos versos de Quintana, que ele traduz um requinte fugaz da morte. Andar na lonjura dos pensamentos vai além de andar a turismo. 
 
Em "Ideias para adiar o fim do mundo", Ailton Krenak enfatiza o turismo sem proposito:
 
"Em diferentes lugares do mundo nos afastamos de uma maneira tão radical dos lugares de origem, que o trânsito dos povos já nem é percebido. Atravessamos continentes como se estivéssemos indo ali do lado. Se é certo que o desenvolvimento das tecnologias eficazes nos permite viajar de um lado para o outro, que as comodidades tornaram fácil a nossa movimentação pelo planeta, também é certo que essas facilidades são acompanhadas por uma perda de sentido dos nossos deslocamentos".
 
O estoico, Marco Aurélio, tem um célebre pensamento sobre a comodidade: "O conforto é o pior dos vícios". Refletir sobre o nosso precioso tempo nesta aventura do viver é caminhar por entre sombras e luzes, bruxas e fadas, o confortável e o desconfortável, o topo da escada e a beira da estrada.
 
Os escritores, os filósofos e as crianças sabem disso como ninguém. Vivem intensamente suas imaginações, suas criações e a celebração do dia como se fosse o último: carpe diem.
 
Não é sobre viver como um turista ao léu, ou um bêbado deslumbrado, ou ainda como um ninfomaníaco à espreita, mas um entregar se à aventura com sentimentos verdadeiros, pensamentos sinceros, palavras gentis e de gratidão.
 
Concluindo a vibe escorpiana, na passagem astral de Marte em Câncer, onde a força bruta do fazer confronta com o lado sensível do afeto, encontramos no parecer do estoico Sêneca, um alento, um conselho, ou quem sabe, o décimo primeiro mandamento: "tota vita discendum est mori", a vida toda é um aprender a morrer.
 
Na beira da estrada
Registro em Pirenópolis

 

Poema de Mario Quintana

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por Tatiana Potrich

*José Abrão é jornalista, mestre em Performances Culturais pela Faculdade de Ciências Sociais da UFG e doutorando em Comunicação pela Faculdade de Informação e Comunicação da UFG

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