José Abrão
Goiânia – Neste 23 de abril, Dia Mundial do Livro, vale lembrar que em uma recente polêmica envolvendo a reforma tributária, a Receita Federal publicou um documento no dia 7 de abril em que argumenta pela fusão dos impostos PIS/Cofins e afirma que os livros podem perder a isenção tributária: o órgão declarou que eles são bens elitizados, apenas consumidos pela faixa mais rica da população, com renda superior a 10 salários mínimos.
O argumento gerou alvoroço na internet, porém, em meio a tal polêmica, o mercado editorial brasileiro segue em crise: um grupo pequeno de grandes editoras controla a maior parte das publicações ao passo em que o modelo de livrarias megastore deu errado, com a saída da FNAC do Brasil e a crise financeira da Livraria Cultura e da Saraiva.
Paralelo a tudo isso, como fica, de fato, a leitura? Em Goiás, longe do eixo Rio-São Paulo e do meio mainstream literário, autores, editoras e livrarias tentam se virar e apostam em rotas alternativas para ler e ser lido.
Foi neste espírito que a jovem escritora Giovanna Lobato lançou o projeto Leia Centro-Oeste: uma comunidade on-line com o objetivo de mapear e reunir escritores e divulgar seus trabalhos. A ideia surgiu com base nas próprias experiências da autora. “Eu comecei a escrever quando morava no Mato Grosso do Sul, e me mudei pra Brasília pra fazer faculdade. De lá pra cá, eu sempre percebi que aqui na região faltavam eventos literários e outros incentivos à literatura”.
Seu primeiro livro foi publicado com uma editora do Rio de Janeiro porque não encontrou nenhuma aqui. Todas as oportunidades pareciam estar no eixo Rio-São Paulo e, quando não, em algum outro lugar do Sudeste ou do Sul. “Comecei a perceber que os autores nacionais conhecidos eram sempre do Sul ou do Sudeste, e isso começou a me incomodar porque eram inclusive esses autores que eu mesma conhecia, e eu morava no Centro-Oeste!”.
Através principalmente do Twitter, o Leia Centro-Oeste busca levar os autores da região para todo o Brasil. Lobato avalia que, embora seja uma iniciativa muito recente, está dando resultado.
O caminho mais comum – e muitas vezes o único caminho – para autores da região tem sido a auto publicação, seja ela através de e-books e ferramentas digitais, ou por editoras e gráficas convencionais. “Podemos aproveitar os meios que ela nos dá e mostrar a cena cultural do Centro-Oeste, sem precisar ficar esperando uma entrada no mercado editorial do eixo, que pode nunca acontecer”, afirma.
A autora avalia que falta incentivo à leitura, começando pelo fato de que nem todo livro precisa ser comprado: não há qualquer estímulo pelo acesso e preservação das bibliotecas. “Se tivéssemos incentivo à leitura, poderíamos estar divulgando as bibliotecas, fazendo ações que levem os livros até as pessoas, porque livros mudam vidas e realidades. Todo mundo tem o direito de ler se quiser, e muita gente que quer ler, mas não consegue chegar até os livros”, resume.

Embora discorde da visão da Receita Federal, Lobato afirma que ler ainda é um privilégio no Brasil e ser lido é ainda mais difícil: “os livros são caros e as pessoas ainda estão se acostumando com a ideia de e-books. Se tivéssemos incentivo, as pessoas saberiam que podem ir à uma biblioteca e ler vários livros de graça!”.
Dayse Dantas é uma autora goiana que foi publicada por uma editora grande ligada aos grupos editoriais do Sudeste. Seu romance focava no grupo infanto-juvenil e sua experiência lhe permitiu perceber que existe, sim, uma grande porcentagem de jovens que querem ler, mas não sabem como. “A melhor solução é a solução mais óbvia: mais investimentos em bibliotecas públicas, não só em grandes centros, mas em bairros mais afastados e em cidades do interior”, defende.
Sobre a crise no mercado editorial, ela avalia que nem mesmo as grandes editorias parecem saber bem no que querem investir e preferem apostar em títulos estrangeiros do que em novos nomes nacionais. “Me parece que os profissionais não estão conseguindo entender o que os leitores querem consumir, e ainda se veem muito dependentes dos burburinhos do mercado estadunidense, que pode ser até popular, mas não necessariamente é o que mais conversa com a nossa cultura”, explica.
Assim como Lobato, Dantas vê as plataformas digitais independentes não apenas como a melhor saída para novos autores, mas como ponto de encontro com o público jovem, sedento por histórias que conversem com a realidade brasileira e se afastem do modelo enlatado que vem de fora. “Publicações independentes estão ganhando cada vez mais espaço. E é essa área que realmente me mostra o grande interesse que jovens têm pela leitura”, comenta.
"O mercado editorial está falido"
Na linha de frente das publicações independentes e experimentais em Goiás desde o começo da década passada, Larissa Mundim é categórica: “o mercado editorial brasileiro está encurralado. As notícias não são boas, e estão piorando”. Ela conta que o imposto pode não subir, mas imprimir um livro está cada vez mais caro, com reajustes altos nos insumos, sem uma contrapartida nas vendas. Mundim conduz a Nega Lilu Editora, que atua de ponta a ponta na cadeia produtiva. A editora já fez livros, editou coletâneas físicas, fez um mapeamento de autores e tem uma revista digital.
O grande desafio da Nega Lilu Editora, enquanto iniciativa independente, é amenizar a invisibilidade de quem produz fora do eixo Rio-São Paulo. Mundim defende que parte do aprendizado da editora pode ser aplicado em escala nas editorias comerciais. “Primeiro aprendemos a fazer livros bonitos, com o desejo de surpreender leitores e leitoras, depois aprendemos que fazer só livros bonitos era insuficiente”, conta, “foi quando a NegaLilu Editora se jogou nas ações de base: de um lado, estímulo à leitura e formação de leitores, do outro, estratégias alternativas de circulação da produção”.

Mundim salienta que o argumento da Receita Federal é falacioso, tendo como base a quinta edição da Pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, publicada em setembro de 2020, que aponta uma grande diversidade no público-leitor brasileiro, especialmente fora das classes A e B e através dos meios digitais.
Fundamental nesse papel estão as publicações e editoras independentes. “Sem as pequenas editoras, o mercado editorial fica menos representativo da autoria dos grupos diversos e subrepresentados: mulheres, negros, indígenas, LGBTQIs, idosos e pessoas com deficiência”, argumenta. Para Mundim, “as práticas das grandes editoras não dialogam com o nosso tempo e vivem repetindo erros do passado. Os modos do mercado editorial estão falidos”.
Para a autora, é preciso reinvenção, pois os preços de capa dos livros permanecem inacessíveis, mesmo com as editoras tendo alto custo e baixa lucratividade. O principal caminho, ao seu ver, é através do incentivo à leitura, especialmente por parte do Estado, para formar uma nação leitora, mas isto não parece estar nos planos: “projetos de governo que não têm interesse nesta construção, naturalmente vão propor taxação e não isenção de impostos para o livro”.