Jales Naves
*Especial para o AR
Goiânia – Há exatos 55 anos, no início da noite da quinta-feira, dia 22 de setembro de 1966, acontecia no interior do Colégio Estadual ‘Professor Pedro Gomes’, um dos maiores e mais conceituados da rede pública estadual, um episódio que se revelou trágico e manchou a história desse grande educandário, que nesse ano tinha em torno de quatro mil alunos matriculados, em três turnos. Exatamente às 19h30, quando um grupo de 100 alunos estava deixando suas dependências, na av. Sergipe, entre as ruas Benjamin Constant e Rio Verde, na divisa do bairro de Campinas com a Vila Abajá, foram feitos vários disparos de armas de fogo. Um dos tiros atingiu na boca o cabo PM Raimundo Carvalho de Arruda, goiano de Itaguatins, 27 anos, casado e pai de quatro filhos, que foi levado às pressas para o Hospital Santa Rosa e, horas depois, não resistindo ao ferimento, faleceu.
O tiroteio que se ouviu por toda a região deixou as famílias da vizinhança, diretores, professores, alunos e servidores do colégio num clima de muita tensão e preocupação, diante da rapidez como os fatos se sucederam e da falta de informações. Das frestas das janelas e portas se podia ver a grande e desordenada movimentação de pessoas, em especial de jovens alunos, correndo em busca de abrigo e proteção, em função do caos que se formou naquelas imediações. Uma segunda vítima, o comerciário José Ribeiro de Freitas, que passava nas proximidades em sua lambreta, foi atingido por uma bala na coxa, recebeu atendimento na hora e seu estado não exigiu maiores cuidados.
Goiânia vivia, há três dias, momentos de apreensão em vários locais, em especial nos colégios e nas faculdades, com movimentos de paralisação das aulas. O clima no ‘Pedro Gomes’ era tranquilo e a temperatura esquentou em função da notícia da morte do líder estudantil Tarzan de Castro, que começou sua trajetória no ativismo político na capital goiana e conquistou projeção nacional, e os alunos pretendiam prestar-lhe sua solidariedade. Mais tarde o Consórcio de Empresas de Radiodifusão e Notícias do Estado (CERNE) divulgou nota do Serviço Nacional de Informações (SNI), de Brasília, informando que eram “absolutamente inverídicas e destituídas de fundamento as notícias alarmantes difundidas por algumas estações de rádio local, noticiando o assassinato” dessa liderança política. Acrescentou que ele “encontra-se no momento no gozo de perfeita saúde e que estão sendo tomadas providências visando a punição dos contumazes agentes da agitação e da intranquilidade pública”.
As informações para reconstituição desse triste episódio estão no importante acervo sobre a imprensa goiana mantido pelo Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), no qual estão guardados exemplares de jornais que registram a nossa história. Na edição da “Folha de Goiaz” de 23 de setembro de 1966, uma sexta-feira, foi encontrada extensa reportagem que tratou especificamente do assunto e de questões correlatas, que resultou neste texto que o jornal A REDAÇÃO publica:
Reconstituição
Os rumores sobre a morte do líder estudantil surgiram pela manhã, a partir de quando começaram as articulações e discussões a respeito, com os estudantes querendo a decretação de greve geral. O assunto prosseguiu na tarde e somente no início da noite é que tomaram a decisão. Nesse ínterim, a direção do educandário entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública do Estado, que decidiu enviar um pelotão da Polícia Militar para oferecer segurança e evitar confrontos.
A situação, no entanto, saiu do controle das autoridades. A Polícia Civil, que rondava as adjacências da escola, promoveu um cerrado tiroteio, sob a alegação de estar dispersando “estudantes subversivos”. “Um deles chegou a jogar uma bomba de gás lacrimogêneo no pátio interno do Colégio ‘Pedro Gomes’, quando elementos da PM lá se encontravam os quais ficaram temerosos de serem atingidos por projéteis, vez que se encontravam em frente daquele educandário, completamente a descoberto e completamente às escuras”, descreveu a “Folha de Goiaz”..
Ao Colégio ‘Pedro Gomes’ compareceram naquela noite 1.000 alunos. “O ambiente estava aparentemente tranquilo, vez que o corpo discente daquele estabelecimento não havia até aquele momento participado ativamente do movimento estudantil que há três dias eclodiu nesta Capital”. Ao discutirem em classe a propalada morte do líder estudantil “acordaram em fazer uma greve pacífica, e em sigilo, que seria levada a efeito sem o comparecimento às aulas, até a próxima segunda-feira. Acertada a greve entre as lideranças estudantis, alguns alunos, em número aproximado de 100, resolveram abandonar suas classes e se dirigiram ao portão de entrada do colégio”.
Ao saírem à rua os alunos foram dispersados pelos agentes da Polícia Civil e do Departamento Federal de Segurança Pública (DFSP), “que usaram suas armas de fogo, sem contudo fazerem vítimas, com exceção de José Ribeiro de Freitas, que passava nas proximidades de lambreta e que nada tinha a ver com o movimento, que foi ferido a bala. Os outros alunos, temerosos de receberem igual tratamento, permaneceram pacificamente em suas salas de aula, juntamente com todo o corpo docente daquele educandário”, completou o jornal.
Nesse momento, chegou ao Colégio ‘Pedro Gomes’ um caminhão conduzindo cerca de 20 soldados da PM, “mandados para garantir a ordem e evitar qualquer perturbação”.
Durante cinco minutos cerrado tiroteio se fez ouvir.
Polícia Civil e tiroteio
Decorridos alguns minutos após esses fatos, ainda se ouvia, nas ruas circunvizinhas, mormente nas que davam acesso à avenida 24 de Outubro, tiros de revólveres, disparados com certa intensidade, de acordo com a reportagem do jornal. “Diante disso, temerosos de que os autores daqueles disparos fossem os estudantes, o comandante do pelotão da Polícia Militar dirigiu-se ao interior do Colégio ‘Pedro Gomes’, acompanhado de soldados e de elementos da Polícia Civil, a fim de solicitar ao QG de sua Corporação o envio de reforços. Concomitantemente, também, após entrar em entendimento com os diretores do educandário, juntamente com o Secretário de Segurança Pública, que para ali se dirigira, passou a polícia a revistar todas as pessoas que se encontravam em seu interior. Não permitiu que de lá qualquer elemento se retirasse, visando a localizar a arma usada contra o cabo Raimundo, e, possivelmente, identificar o autor do disparo que vitimou aquele militar”.
Nas ruas, a Polícia Civil se movimentava, “ostensivamente e de arma em punho, ocasião em que promoveu alguns tiroteios, dirigidos contra grupos de estudantes e curiosos, sem ferir, porém, a qualquer pessoa, pois disparavam suas armas mais para o alto;’. A reportagem da “Folha de Goiaz”, que acompanhava aqueles movimentos policiais, constatou que eles “lançavam também bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral, para dispersar estudantes e curiosos”.
Uma dessas bombas caiu na frente do Colégio ‘Pedro Gomes’, no pátio, próximo ao portão principal, e local onde se encontravam dezenas de soldados da PM, causando entre eles certo temor. Outra bomba foi evitada de ser lançada por um agente da Polícia Civil, “a pedido de nosso repórter, que levou ao seu conhecimento a presença de soldados da PM, fato desconhecido do policial. Este, ao guardar a sua bomba, afirmou: ‘pensei que os estudantes estivessem lá dentro com agitação’”.
“O policiamento ostensivo da Polícia Civil continuou Campinas afora, no intuito de dispersar grupos de pessoas, estudantes ou não, sendo que várias foram as bombas de gás lacrimogêneo lançadas, algumas das quais em plena av. 24 de Outubro, pondo o povo para correr”.
Revólver e prisões
“Após demorada busca por todas as dependências do ‘Pedro Gomes’ foi encontrado um revólver calibre 22, por alguém deixado num canto qualquer do barzinho. A Polícia Militar foi bastante feliz nas diligências que procedeu em seguida, vez que conseguiu identificar o proprietário da arma, a qual, segundo consta, estaria com uma cápsula deflagrada. Trata-se do jovem estudante Melquíades Honório dos Santos, que foi incontinenti preso”, registrou o jornal.
Após a chegada do reforço da PM, que mandou para o ‘Pedro Gomes’ duas centenas de soldados, “ali também se fez presente o coronel Odin Barroso de Albuquerque, comandante daquela corporação, acompanhado de alguns oficiais superiores. Tão logo se inteirou dos acontecimentos aquela autoridade se dirigiu ao interior do colégio, a fim de, pessoalmente, entender-se com a sua diretoria e resolver a situação. Antes, porém, deu instruções aos seus comandados, recomendando que agissem com cautela e prudência, somente fazendo uso de seus fuzis em caso da agressão armada, partisse ela de quem fosse”.
Outros estudantes que se encontravam no interior do ginásio foram presos ou detidos – “Washington Martins, Eurípedes dos Santos e João Eliziário de Araújo. Ao encerrarmos esta reportagem não sabemos se foram eles mandados para o DOPS ou se postos em liberdade. Outras pessoas também foram presas, como Misael Francisco e Osvaldo de tal, que estavam “paqueirando” nas proximidades”.
O jornal não conseguiu identificar os autores de disparos feitos da rua contra o caminhão de soldados da PM e que resultaram na morte do militar. “Todavia, duas versões corriam ontem à noite em Campinas. Uma afirmava serem os estudantes que haviam saído do colégio os culpados, enquanto outros garantiam a participação de elementos da Polícia Civil, que ignorava tratar-se de militares, impossibilitados também de serem identificados, pois no local onde desceram do caminhão estava completamente escuro e sem nenhuma possibilidade de se distinguir um civil de um militar. Contudo, os militares que foram recebidos a bala afirmam que os disparos contra eles dirigidos vieram dos estudantes”.
“Não era boa a tensão no interior do Colégio ‘Pedro Gomes’, que passou ontem a pior noite de toda a sua história, mormente quando se anunciou a morte do cabo Raimundo Arruda, pois passaram os alunos ali retidos, em número superior a 700, a sofrerem forte pressão policial, que a custo queria descobrir entre eles o autor ou autores dos disparos. Diretores e professores chegaram a rezar e a chorar”, anotou o jornal.
Movimentações e protestos
A “Folha de Goiaz” registrou que a manhã daquela quinta-feira foi movimentada, informando que os alunos da Faculdade de Direito da Universidade de Goiás (Católica) decretaram greve geral por 72 horas, em sinal de protesto às arbitrariedades policiais e à prisão do universitário Atanagildo José de Souza. Por outro lado, os alunos do Colégio Estadual de Goiânia também decretaram greve geral, vez que o presidente do Grêmio estudantil daquele educandário, Dorival Melo Sobrinho, encontrava-se preso desde o dia anterior.
Os estudantes, em número aproximadamente de 500, reuniram-se no prédio da Faculdade de Ciências Econômicas, na praça Universitária, onde realizaram uma Assembleia Geral de protesto contra as prisões de estudantes e a violência da polícia. Incontinenti, soldados da PM se deslocaram até as proximidades do prédio da Reitoria, bloquearam a passagem e impediram que os estudantes saíssem em grupo pela rua 10. “Nessa oportunidade foram presos três estudantes, inclusive um que também é jornalista e trabalha no Serviço de Imprensa da Prefeitura”. Tratava-se do jornalista Wandell Seixas, que já estava dentro do carro da polícia quando — por interferência de seus colegas — foi posto em liberdade. Os outros presos foram os estudantes Hugo Walter Frota Filho e Eduardo Ramos Jordão. O primeiro foi posto em liberdade algumas horas depois, enquanto o segundo foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional e ainda se encontrava detido, à disposição do DFSP.
“Por outro lado – numa tentativa de cercear a liberdade de imprensa – policiais tentaram prender nosso companheiro Haroldo Bastos, fotógrafo da “Folha de Goiaz”, quando em pleno exercício de sua profissão. O ato arbitrário somente não se consumou em virtude da interferência de colegas de trabalho, inclusive do nosso redator-chefe, que se encontrava presente”.
O advogado Rômulo Gonçalves, contratado para fazer a defesa dos estudantes Atanagildo José de Souza, Dorival Melo Sobrinho e Eduardo Ramos Jordão, afirmou, em entrevista, que não lhe foi dado condições de fazer a defesa de seus constituintes, pois não lhe permitiram ver o processo e nem apreciar as provas, nem arrolar testemunhas, não havendo direito de defesa. Afirmou, ainda, que já comunicara o fato à Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de Goiás, “e hoje mesmo serão feitas comunicações ao Presidente da República, ao Ministro da Justiça, ao Chefe do Departamento Federal de Segurança Pública e ao Delegado do DFSP em Goiás”.
Na manhã daquele dia foram presos os estudantes Eduardo Ramos Jordão (de Filosofia), José Geraldo de Andrade Neto (ex-sargento do Exército e aluno da Esefego – Escola Superior de Educação Física do Estado de Goiás), e Cláudio José Péclat Saldanha Linhares. Foi preso também, sendo posteriormente posto em liberdade, o chacareiro Luiz Antônio Lange Mena Barreto.
IPM
Esses acontecimentos, que culminaram com a morte do Cabo da PM, provocaram a instauração de Inquérito Policial Militar, presidido pelo major Eurides Curvo, do 10º Batalhão dos Caçadores, de Goiânia. Ele chegou à Secretaria de Segurança, para tomar as primeiras providências, às primeiras horas da madrugada de sexta-feira.
O secretário de Segurança Pública, Gonzaga Jaime, acompanhado de auxiliares, permaneceu até alta madrugada em seu Gabinete. Em declarações à imprensa disse lamentar “profundamente o incidente ocorrido, pois o que mais temíamos aconteceu. Através da “Folha de Goiaz” faço um veemente apelo à população goianiense, no sentido de que confie na ação da Justiça. Esse apelo dirijo, especialmente, aos estudantes, para que meditem sobre os lamentáveis acontecimentos do Colégio ‘Pedro Gomes’ onde um jovem militar foi morto, deixando na orfandade quatro crianças”.