Logo

As telas e a epidemia de doenças mentais

WhatsAppFacebookLinkedInX
08.04.2025 - 11:51:01
Não é nenhum segredo ou controvérsia o fato de que vivemos uma epidemia de doenças mentais. 
 
Segundo a OMS, em seu Informe de Saúde Mental, lançado em 2022, quase um bilhão de pessoas sofrem de algum tipo de transtorno mental, incluindo 14% dos adolescentes no mundo. Em 2019, o suicídio foi causa de 1% das mortes no planeta, e quase 60% deles aconteceram antes dos 50 anos de idade. No Brasil, dados do Ministério da Previdência Social  colocam problemas mentais, como ansiedade e depressão, entre as principais causas de afastamento do trabalho – foram quase meio milhão de pedidos em 2024.
 
As causas dessa epidemia são múltiplas e complexas, mas incluem a dissolução dos laços comunitários em todos os lugares, mas especialmente nas grandes cidades, algo que não teve origem com a virtualização da vida e das relações, mas que é aprofundado e acelerado pelas telas e pelas redes sociais. 
 
A polarização política, que é também uma polarização de identidades, faz igualmente parte desse caldo. Percebemos cada vez menos elementos em comum com nossos vizinhos e colegas e nos voltamos à esfera privada e a identidades grupais e tribais em busca de sentido. Com isso, o ódio e o ressentimento se convertem em afetos sociais dominantes e passam a pautar nossas vidas cotidianas. 
 
No meio de tudo isso, tivemos três anos de uma pandemia, em que todos convivemos de perto com a perspectiva real ou imaginada da morte, e com um distanciamento físico que agravou de forma traumática o isolamento e a anomia.
 
Mas essa epidemia tem a ver também, sobretudo, com a completa reorganização de nossos circuitos neurais de afeto, prazer e recompensas promovida pelos algoritmos das redes e pelo vício em telas, como mostra Jonathan Haidt, professor da Universidade de Nova Iorque, no excelente e fundamental A Geração Ansiosa. 
 
O livro do professor Haidt, que felizmente tem estado entre os mais vendidos desde seu lançamento, é leitura incontornável. Focado no impacto da vida online sobre crianças e adolescentes e embasado em dados sólidos e incontestáveis, aponta que as redes sociais impedem cada vez mais o tipo de atividade e convivência que fomenta um desenvolvimento saudável das crianças. O amadurecimento infantil depende do aprendizado prático e grupal que está deixando de existir quanto mais aumenta o tempo de tela. Sem ele, impede-se inclusive a consolidação de circuitos neurais essenciais a uma vida adulta produtiva.
 
O resultado é uma geração cada vez menos hábil em termos sociais, enormemente ansiosa, menos resiliente, com um tremendo déficit de atenção e idealista no pior sentido que essa palavra pode ter. Pelo contato cada vez mais limitado com o mundo real, nossas crianças idealizam a vida e as pessoas de uma maneira que as condena à perpétua frustração.
 
Não é preciso entretanto demonizar a tecnologia. Desesperar-se tampouco ajuda. Lembro-me sempre de uma fala do falecido filósofo francês Michel Serres em um Roda Viva onde, perguntado sobre os efeitos nefastos da tecnologia, ele respondeu que não os temia porque na história da evolução humana toda mudança pode até trazer efeitos negativos, mas sempre abre também um campo novo de possibilidades. Serres exemplificava isso com a passagem de nossos ancestrais primatas de quadrúpedes a bípedes. Como quadrúpedes, o uso de suas mãos era limitado pela função primordial como apoio do corpo e base do deslocamento. Em consequência, usavam a boca para manipular objetos. Uma vez bípedes, as patas dianteiras puderam tornar-se mãos e permitiram uma sofisticada manipulação do mundo; libertada a boca, surgiu também a linguagem.
 
Portanto, é provável que a generalização do uso das tecnologias digitais e a crescente virtualização da vida tragam novos talentos, habilidades e possibilidades. Não devemos fechar os olhos, entretanto, para o fato de que, ao mesmo tempo, o ambiente real não mudou. Seguimos precisando negociar com ele os caminhos de nossas vidas. Trabalho, relações sociais e amorosas, e a construção da vida em comum não deixam de acontecer nesse real duramente concreto, a despeito de que uma parte cada vez maior de nossas vidas aconteça no mundo virtual. E privar nossas crianças da capacidade de operar nesse mundo inevitável é condená-las a enorme sofrimento e angústia.
 
Em relação às telas, à vida online e a seus efeitos negativos sobre a saúde mental,  há ampla concordância, e um movimento vem acontecendo que precisa ser fortalecido. A aprovação com rara unanimidade entre governo e oposição da Lei no 15.100/2025, que proibiu o uso do celular em escolas, foi um bem vindo indicador e primeiro passo. O mesmo vem ocorrendo em vários países, com igual entendimento político em lugares igualmente polarizados. Movimentos de mães e pais por uma infância livre de celulares também vêm surgindo em toda parte.
 
Haidt e seus colegas sumarizam em quatro princípios as mudanças que precisam acontecer e que podem servir de orientação para famílias, escolas e para a ação política:
 
Norma 1: Sem smartphones antes do ensino médio (ou dos 14 anos)
 
O grande dilema e dificuldade dos pais nesse contexto está na pressão sofrida quando seus filhos são os únicos sem celular na escola. Como aponta Haidt, entretanto, isso é um clássico problema de ação coletiva que pode ser resolvido se pais começarem a conversar entre si e a se juntarem para agir. Se a questão é a necessidade de se comunicar com a criança, ele sugere dar um celular antigo sem acesso à internet.
 
Norma 2: Sem redes sociais antes dos 16 anos  
 
O pior de tudo é a exposição intensa e frequente aos algoritmos das redes, estruturados para recompensar uma atenção flutuante e o vício, além de exporem as crianças continuamente a conteúdos obviamente inadequados e ao assédio de pessoas mal intencionadas. A Austrália foi o primeiro país a enfrentar o lobby das big techs e a estabelecer os 16 anos como idade mínima legal para criar perfis em redes sociais. 
 
Norma 3: Escolas sem celulares  
 
Esse é um ponto em que já avançamos no Brasil. O principal mérito da iniciativa é estimular a sociabilidade e as brincadeiras nos intervalos, quando antes todos corriam para os celulares ao soar do sino.
 
Norma 4: Mais independência, brincadeira livre e responsabilidade no mundo real  
 
Como insiste Haidt, é durante a infância que desenvolvemos as habilidades necessárias para lidar com um mundo altamente complexo, e esse aprendizado é essencialmente prático e experimental. 
 
Até recentemente, nossas crianças se educavam para a vida nas ruas, quintais e pátios de escolas por meio de brincadeiras e da experimentação e interação em grupos de indivíduos de idades próximas. É um processo de desafios, tentativa e erro, onde lidam com o medo e a curiosidade em uma dinâmica que efetivamente molda o cérebro humano, estabelecendo circuitos neurais que serão fundamentais para uma vida adulta produtiva e saudável. Estamos perdendo isso. Precisamos devolver nossas crianças ao mundo.
 
A boa notícia, como dito, é que há ampla concordância em torno do problema e de suas soluções. O maior obstáculo reside no poder das big techs que não têm nenhum compromisso com a saúde mental das crianças e possuem enorme influência sobre os legisladores.
 
Todavia, trata-se de um tema que, diferente de outros, não polariza o debate e tem enorme potencial para galvanizar a ação e impulsionar a carreira de políticos atentos e com um mínimo de sensibilidade para a angústia contemporânea das crianças e das famílias.
 
Para quem domina o inglês, Jonathan Haidt e alguns colegas mantêm um excelente Substack cotidianamente atualizado com novos resultados de duas pesquisas e conselhos práticos para a ação. Há também uma recente e ótima entrevista sua ao podcast do jornalista Ezra Klein, do The New York Times.
 
 
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]

Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]

Meia Palavra
06.10.2026
Primeira temporada de ‘Lanternas’ entrega uma competente trama de detetive com um tempero de super-herói

Terminou neste domingo, na HBO Max, a primeira temporada de Lanternas, uma ousada reimaginação mais madura para os Lanternas Verdes, basicamente os policiais cósmicos do universo DC, muito conhecidos pelos leitores, mas não tão conhecidos pelo grande público. Nesta nova DC cinematográfica capitaneada por James Gunn, havia a dificuldade de introduzir esses personagens sem sobrecarregar […]

Noite e Dia
05.10.2026
André Rocha é reconduzido à presidência da Fieg; veja como foi o evento

Carolina Pessoni Goiânia – A Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) realizou nesta segunda-feira (5/10) a eleição de sua Diretoria Executiva para o quadriênio 2027-2030. O pleito confirmou a recondução do empresário e engenheiro civil André Luiz Baptista Lins Rocha à presidência da Federação. Com foco voltado ao aumento da competitividade da indústria […]

Joias do Centro
02.10.2026
Estádio Olímpico: há 85 anos palco de celebrações do esporte em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – Localizado na Avenida Paranaíba, bem no Centro de Goiânia, está o estádio de futebol mais antigo da capital. Fundado em 1941, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira, mais conhecido apenas como Estádio Olímpico, é parte da história da capital e cresceu junto com ela, fazendo parte de sua trajetória no esporte […]

Noite e Dia
30.09.2026
Basileu França abre exposição e apresenta espetáculo musical em Goiânia; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A Escola do Futuro de Goiás (EFG) em Artes Basileu França abriu, na última segunda-feira (28/9), a exposição “Cidades: Entre Memórias, Sonhos e Futuro”, na Galeria de Arte da instituição, em Goiânia. No mesmo dia, o Teatro Escola recebeu o espetáculo “A Noite do Rei”. A programação reúne trabalhos de estudantes de […]

Meia Palavra
30.09.2026
‘Unabomber’ não fica à altura de um dos crimes reais mais curiosos dos EUA

Estreou na Netflix Unabomber, um novo filme que tenta recontar a história fascinante do assassino e terrorista doméstico Ted Kaczynski, o titular Unabomber, que apavorou os Estados Unidos com atentados a bomba por várias décadas antes de finalmente ser capturado em meados dos anos 1990. Infelizmente, apesar de seus méritos, o filme não consegue ficar […]