A Redação
Goiânia –
A função estratégica das redes sociais para que os governos e seus representantes compreendam melhor as demandas da população e aprofundem a transparência da gestão pública foi tema do papo dos governadores Marconi Perillo e Geraldo Alckmin (SP) com seus seguidores por todo o País. Eles afirmaram que as redes aproximaram os homens e mulheres públicos dos cidadãos. "As redes sociais se incorporaram à vida pública e privada e mudaram o mundo", disse Marconi.
"As redes sociais mudaram o mundo. A Primavera Árabe se deu em função das redes sociais. Mudanças às vezes para melhor, outras para pior, mas o fato é que as redes sociais hoje se incorporaram a toda vida pública ou privada no País e no mundo inteiro. Nos EUA, a eleição do Obama, há 8 anos, aconteceu em função das redes sociais", afirmou. "Descobri isso, em 2010, a importância que a gente teria com a utilização das redes, depois com o Hangout. E eu acho que elas terão cada vez mais importância", completou Marconi.
"Não há dúvida, a tecnologia da informação, as redes sociais, mudaram o mundo – e acho que mudou para melhor. Porque quando mais participação, melhor. Quando mais pudermos interagir, a gente erra menos, acerta mais", ressaltou Geraldo Alckmin.
Entre as questões colocadas em discussão durante a transmissão estavam a eficiência da gestão por meio das organizações sociais (OSs). Marconi lembrou o quanto as unidades estaduais de saúde são bem avaliadas pela população, com índice de satisfação de mais de 90% atribuída pelos usuários. "Copiei o que você começou com o (Mário) Covas e depois o (José) Serra, que foi a universalização dos hospitais públicos, através da gestão das OSs, que melhorou consideravelmente o atendimento a quem precisa, que são as pessoas que procuram os hospitais públicos. Hoje, nossos hospitais estaduais, têm mais de 90% de avaliação positiva, porque atendem bem. E nós temos feito os repasses e temos fiscalizado", afirmou Marconi.
Alckmin afirmou que outros setores da administração em São Paulo estão alcançaram ótimos níveis de performance administrativas porque são geridas por OSs. "Aqui as organizações sociais hoje estão nos hospitais, nos AMEs, na Rede de Reabilitação Lucy Montoro, na aquicultura, Restaurante Bom Prato, com ótima qualidade", enumerou o governador Paulista.
Em Goiás, afirmou Marconi, estão sendo viabilizadas as gestões das primeiras escolas, por meio das organizações sociais. "Meu sonho é levar essa experiência para a Educação. Estamos também em uma batalha, porque tem a coisa ideológica, esse preconceito ideológico. Temos um único objetivo, que é fazer um teste, uma experiência, que tenho certeza que vai ser exitosa. Ela foi exitosa em Massachusetts. A melhor Educação dos EUA, hoje, fica no estado de Massachusetts, porque eles implantaram um modelo de vouchers", apontou.
Os dois governadores falaram aos internautas sobre as maneiras com as quais a classe política poderia melhorar a empatia com a população, face os grandes escândalos de corrupção que têm sido noticiados. Foram unânimes em apontar a reforma política como "o" caminho. "Não sei se o Mário Covas ou o Montouro que dizia que a Reforma Política é a 'mãe' das reformas. E eu compreendo assim", afirmou Marconi, ao comentar a sugestão de Alckmin de estabelecer a chamada cláusula de barreira e do voto distrital misto ou voto distrital puro.
"Eu incluiria o fim das coligações proporcionais. Tenho trabalhado muito junto a parlamentares amigos e acho que essa questão do financiamento público de campanha precisa ser definitivamente esclarecido e resolvido para que não haja mais essas questões como Caixa 2 e outras deformações que existiam até bem pouco tempo na política brasileira. Essas medidas precisam ser adotadas", afirmou Marconi.
Confira a íntegra do Papo com os governadores Marconi Perillo e Geraldo Alckmin:
REFORMA DA PREVIDÊNCIA
Marconi e Alckmin defendem reforma da Previdência
"Sempre defendi o regime geral de Previdência para todos: para o setor privado e para o setor público, com as mesmas regras", diz Alckmin
"O que se pretende fazer é algo que seja isonômico, que deixe de ser assimétrico entre iniciativa privada e setor público", afirma Marconi
Geraldo Alckmin
Eu defendo a reforma da previdência desde a minha época como deputado federal. Sempre defendi um regime geral da previdência. Porque hoje você tem o cidadão e do INSS, e 70% ganha um salário. A média é 1,7 de salários mínimos, e ninguém ganha mais do que R$ 5 mil. E você tem uma previdência pública, que paga salários de 30, 40, 50 mil reais. Uma coisa totalmente desequilibrada, e ainda financiada por esse trabalhador de baixa renda. Então, eu sempre defendi o regime geral de previdência para todos: para o setor privado e para o setor público federal, estadual e municipal com as mesmas regras.
Marconi Perillo
É, exatamente. Talvez o maior descompasso hoje na administração pública no Brasil seja a previdência. O que nós do PSDB defendemos é uma reforma que seja isonômica entre trabalhadores privados e trabalhadores públicos. Há uma simetria muito grande, e é inconcebível que um estado como Goiás, por exemplo, 7 milhões de goianos trabalhem para pagar 40, 50 mil aposentados e pensionistas. E é uma coisa insustentável. Não é culpa nossa, dos governadores. Quem aprovou essas regras foi o Congresso Nacional lá atrás. Mas o fato é que, em 2014, o déficit previdenciário de Goiás era de R$ 1 bilhão. Pouco depois foi para R$1,2; R$1,6 bilhão, e nesse ano será de 1 bilhão e 950 milhões. Imagina multiplicar isso por quatro anos, que é o tempo de um governador, são R$ 8 bilhões. Isso é dinheiro em qualquer parte do mundo. Dinheiro que poderia ser investido em hospitais, segurança, educação, infraestrutura. Então, isso está tudo errado. A expectativa de vida do brasileiro hoje é muito maior. Graças a Deus o brasileiro vive muito mais, e é preciso corrigir essas falhas, porque não dá para pagarmos salário de 30, 40 mil para alguém que se aposenta com 48 anos no serviço público. Hoje temos muito mais pessoas na inatividade recebendo altos salários do que até mesmo trabalhando. É injusto com o pobre. O que se pretende fazer é algo que seja isonômico, que deixe de ser assimétrico entre as pessoas que trabalham como cobrador de ônibus e outras que trabalham no serviço público e ganham muito mais.
AJUSTE FISCAL
"Marconi fez um trabalho fiscal exemplar no Estado de Goiás", diz Alckmin
"Se não tivéssemos sido rigorosos nas medidas austeridade, Goiás e São Paulo estariam amargando sérios problemas", afirma Marconi
Geraldo Alckmin
Nós tivemos uma queda de arrecadação muito grande nesses últimos três anos. Foi a maior crise talvez dos últimos cem anos do Brasil, e nós reduzimos os gastos. Então, São Paulo não tem déficit, tem até um superávit primário. Goiás, onde o Marconi fez um trabalho exemplar no estado de Goiás. Queria colocar que a economia precisa voltar a crescer. Então é preciso ter políticas públicas para o crescimento. Se a gente for ouvir o jovem hoje ele quer ser empreendedor.
Então o problema dele é que o estado cobra impostos demais, burocratiza, cria problemas para o empreendedor. Nós precisamos no Brasil fazer reformas e tomar medidas para estimular a atividade empreendedora, para o Brasil voltar a crescer e ter emprego e renda. Hoje no mundo inteiro a grande preocupação é o emprego. A tecnologia desemprega, porque você na agricultura mecaniza; na indústria robotiza, e mesmo no setor de serviços. Se você pegar o setor bancário, ele vai ter menos gente. Internet, as pessoas fazem tudo pelo celular.
Então o desafio do futuro não vai ser falta de comida ou de água, porque com energia mais barata da energia solar, você tende a resolver esses problemas. O problema é onde as pessoas vão trabalhar. Então, a gente tem que ter foco na atividade empreendedora. Estimular as pessoas a criarem emprego e montarem seus negócios. Esse é o grande foco. O Brasil é um país vocacionado para crescer.
Marconi Perillo
Isso é fruto de políticas econômicas desastradas, completamente equivocadas. Nós últimos dois anos e meio o Brasil amargou a pior crise da história do País. O fato é que o Brasil ficou 10% mais pobre nesses dois anos e meio, porque esse foi o tamanho do tombo do PIB, que recuou 10% nesses dois anos e meio. Enquanto a China cresceu 10% ao ano, o Brasil ficou 10% mais pobre, e nós temos que recuperar isso tudo. Qual foi a conseqüência primeira nos governos dos estados? Queda de receita. A receita caiu e tivemos que cortar no custeio, nos investimentos.
Durante dois anos nós tivemos que ter um controle rigoroso em relação às despesas, porque senão poderíamos ter entrado em colapso como outros estados entraram, e certamente quem teria problemas seriam os funcionários e os aposentados, que ficariam sem receber seus salários. Ou as pessoas que dependem do serviço público, de educação, de segurança. Quer dizer, se nós não tivéssemos sido rigorosos nos planos de austeridade, na diminuição do tamanho das máquinas, Goiás, São Paulo e outros Estados que fizeram o dever de casa estariam amargando hoje sérios problemas.
De uma vez só cortei R$ 3,5 bilhões do meu orçamento. Envie para a Assembleia no ano passado um pacote de austeridade. Três projetos de lei foram aprovados. Estamos agora discutindo nessa semana a PEC do teto dos gastos em Goiás e em São Paulo também. Isso tudo foi feito com um objetivo só: acabar com o déficit e ter dinheiro para investir onde é necessário investir. E é nos programas sociais, educação, saúde, infraestrutura, oferecendo serviço de qualidade, como ocorre em São Paulo com o Poupa-Tempo, e em Goiás com o Vapt-Vupt, que foi implantado em 1999.
Por mais esforços que tenhamos feito, se essa questão da previdência não for resolvida, vai chegar um tempo em que não haverá mais o que se fazer. Então, essa questão deveria ser discutida suprapartidariamente, sem essa coisa da emoção, ou do radicalismo ideológico e político. Isso precisa ser discutido por todos porque afeta a todos. Esse tema não pode ser tratado com populismo, com base apenas no corporativismo de algumas categorias. Precisa ser tratado assim: ou a gente faz isso, ou muitos estados brasileiros vão virar a Grécia. Vão quebrar, vão falir. E aí os principais prejudicados vão ser os próprios funcionários. Eu, por exemplo, não sou funcionário público, não tenho plano de aposentadoria, e o governador Alckmin também não tem. Agora, os funcionários é que vão perder. É preciso discutir essa questão à luz da consciência de que esse é o principal tema do país, ao lado da reforma trabalhista.
ATUAÇÃO CONJUNTA DOS GOVERADORES
"Marconi é o grande líder do Brasil Central", diz Alckmin
"Alckmin foi pai que olhou com generosidade para a questão dos incentivos fiscais, que poderia ter agravado a questão do emprego no Estado", afirma Marconi sobre a decisão de Alckmin de assinar pedido de retira de ADI contra incentivos fiscais do Supremo
"Eu posso ser vice do Marconi", afirma Alckmin, ante a pedido de internautas para que se candidate à Presidência da República
Marconi
Quero fazer uma referencia elogiosa ao governador Alckmin porque nós tínhamos um embate anunciado no mês passado que era a análise pelo STF de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade proposta por São Paulo em relação aos incentivos fiscais. Eu conversei com o governador Geraldo, que conversou com sua equipe e tomou a decisão de pedir a suspensão junto comigo dessa ADI até que nós buscássemos um entendimento no Congresso Nacional com vistas à convalidação, à definição de uma regra para a questão fiscal daqui para frente. Então, é impressionante o quanto os empresários goianos ficaram satisfeitos com essa medida sensata e respeitosa do senhor em relação ao Estado de Goiás, e em relação à produção industrial nos estados mais emergentes. Também pudera, a responsabilidade do senhor é muito grande, pois foram os bandeirantes paulistas os primeiros a chegarem ao estado de Goiás. Nosso Anhanguera foi quem foi para lá para civilizar nosso Estado. Então, sua responsabilidade foi responsabilidade de pai, e foi assim que compreendemos. Um pai que olhou com generosidade para um problema grave, que poderia ter agravado a questão do emprego no Estado, e o senhor foi sensato e correto, e estamos juntos agora na busca de uma solução definitiva.
Alckmin
Marconi é o grande líder do Brasil Central e pode dar a experiência dele. Eu morei em Goiás. Eu fiz o Projeto Rondon e fiquei 40 dias em Itauçu, quando era estudante de Medicina. E hoje está lá duplicada a rodovia, uma beleza. Me lembro que fui num final de semana visitar a Cora Coralina, à cabeceira da ponte do Rio Vermelho, em Goiás. Ela me disse na saída: "Todos estamos matriculados na escola da vida, onde o professor é o tempo". O tempo nos ensina. Goiás é um Estado progressista, o Brasil precisa é crescer, ter emprego, o jovem precisa ter oportunidade. E o mundo que cresce tem política fiscal rigorosa, tem que baixar impostos, o governo tem que ser mais eficiente, ter política monetária com juros baixos e não pode ter os maiores juros do mundo, e política cambial. Essa é a fórmula para o Brasil voltar a crescer. Eu fui prefeito na década de 1970 na minha cidade natal e o Brasil crescia 10%, 12% ao ano. É preciso voltar às políticas de crescimento.
Marconi
Em relação a essa experiência dos governadores, nós constituímos, há 3 anos, o Fórum dos Governadores do Brasil Central, e o governador Geraldo já nos deu o prazer de comparecer a duas reuniões nossas. O Fórum se tornou o embrião para o Fórum de Governadores do Brasil. Nós temos nos reunido permanentemente e temos sido solidários aos colegas que eventualmente têm enfrentado problemas conjunturais que já vêm de muito tempo. E uma outra coisa bacana é que nós temos nos preocupado com as pautas uns dos outros e com as experiências exitosas dos outros colegas, independentemente de serem de partido A ou B, serem base ou situação. Essa é uma experiência exitosa, que tem colaborado muito com os nossos Estados. O governador Geraldo tem sido um player nessa questão da solidariedade com os nossos colegas.
Alckmin
Temos até um grupo no Whatsapp de todos os governadores e a gente conversa todo dia, trocamos experiências todos os dias sobre como superar a crise. Eu posso ser vice do Marconi. Até os 17 anos de idade morei na fazenda, porque meu pai era veterinário e a gente morava na fazenda que ele trabalhava, onde ele era funcionário. O Brasil tem a agricultura mais eficiente do mundo. Nós vamos ter uma safra recorde neste ano. O clima ajudou. Você, Marconi, estimulou muito o setor de cana-de-açúcar em Goiás, que está indo muito bem, assim como (a produção de) laranja, de grãos. Na carne houve um problema pontual, mas o governo respondeu rápido, praticamente já superado, já voltou a crescer e nós somos o maior exportador (de carne e derivados) do mundo. O agronegócio ajuda a indústria de máquinas. Houve uma feira agora em Não-Me-Toques, no Rio Grande do Sul, em que cresceu 15% a venda de máquinas neste ano em comparação com as vendas do ano passado. Então, a agricultura vai bem e vai ajudar o setor de serviços e a indústria, o que é muito bom.
DESENVOLVIMENTO REGIONAL
"Sem uma política regional de desenvolvimento que supere as desigualdades, País não avança", diz Marconi
"Se o século 19 foi o século dos impérios e o século 20, o dos países, o século 21 é das cidades, dos municípios", afirma Alckmin
Marconi
Tivemos na semana em Rio Verde a Tecnoshow Comigo, que é semelhante à Agrishow de Ribeirão Preto, estive lá, e é impressionante a vitalidade desse setor. Havia a expectativa de se comercializar R$ 1,3 bilhão e a feira chegou a quase R$ 2 bilhões em comercialização de máquinas e equipamentos e é impressionante o quanto as novas tecnologias colaboraram com a agronegócio. Hoje não há a necessidade de se desmatar uma árvore, porque nós estamos com um alto grau de tecnologia, com competitividade e alta produtividade, e ainda temos as terras degradadas que podem ser reutilizadas para a produção de alimentos. Hoje não há mais aquela preocupação tão grande com o meio ambiente, porque não há mais a necessidade de se atacar o meio ambiente, as florestas, porque as tecnologias colaboraram muito. Aqui em São Paulo vocês têm a experiência de um parque de manejo particular. Nós acabamos de criar em Niquelândia, com o Grupo Votorantim e com a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) um parque com 6,5 milhões alqueirões goianos para preservação ambiental e manejo. É um projeto interessantíssimo, nós adotamos a estratégia do seu governo em Goiás e somos o segundo Estado a fazer isso.
Voltando à questão dos juros, nós fizemos um cálculo que mostra que, se a Selic fosse hoje de 3% ao ano, nós economizaríamos com o pagamento de juros (da dívida) R$ 2 bilhões. São Paulo economizaria também uma fortuna, porque nós pagamos nossas dívidas com base em Selic e TJLP. Então, Selic e Previdência, especialmente os juros altos, além de infelicitarem as pessoas e atrapalharem os negócios e os empregos prejudicam os Estados. O governador Geraldo Alckmin tem toda razão quando aborda essa questão dos juros altos. Em 1998, Goiás precisa de 3,6 anos para pagar sua dívida externa. Desde então, nossa trajetória é decrescente e, com 0,99 da arrecadação a gente paga a dívida externa. Isso é um avanço muito grande para uma situação fiscal que era completamente desequilibrada no passado. Isso demostra a responsabilidade muito grande que você teve, que nós tivemos lá, que é atacar a questão estrutural do forte endividamento que tínhamos à época.
Alckmin
O Brasil se chama República Federativa do Brasil. Nós somos uma federação, o que é muito bom, porque um país continental como o Brasil tem de ser federativo. A América Espanhola se dividiu em "n" países, a América Portuguesa se manteve unida em um país continental. Nós temos vários Brasis no Brasil, com realidades completamente distintas. Então, nós temos de fortalecer os governos locais, o governo municipal. Se o século 19 foi o século dos impérios e o século 20, o dos países, o século 21 é das cidades, dos municípios. Eu sou um ardor defensor do Federalismo. Precisamos fortalecer governo local, fortalecer os Estados e as regiões do Brasil para o seu desenvolvimento e descentralizar. No Brasil, você liga a televisão e é o dia inteiro, Brasília, Brasília, Brasília. É muito centralizado. Nós precisamos descentralizar para facilitar a vida das pessoas. Precisamos desburocratizar, chamar a iniciativa privada para facilitar a vida econômica.
Marconi
Apesar de sermos uma federação, há uma forte concentração da arrecadação na União, que fica com mais de 70% de todas as receitas do Brasil. Sobram pros Estados cerca de 28%, 14% para os Estados e 14% para os municípios. E os problemas todos estão conosco. Quem tem a obrigação de cuidar da saúde das pessoas são os Estados e municípios, a Segurança Pública é responsabilidade só dos governadores, a Educação é compartilhada entre Estados e municípios, a manutenção de estradas e as políticas de saneamento básico são de responsabilidade dos Estados.
Ocorre que o dinheiro não fica com a gente e as decisões, muitas vezes unilaterais tomadas em Brasília e que eventualmente nos prejudicam, também não são tomadas por nós. Quando se fala que governo tal entrou em colapso, muitas vezes a responsabilidade não é do Estado, porque, em muitos a culpa não é dos governos, porque em muitos casos as decisões são tomadas de cima para baixo e apenas os Estados e os municípios tem a obrigação apenas de cumprir o que foi decidido em Brasília.
O Brasil é um país de diferentes problemas, é um país extremamente assimétrico, e o Brasil não tem, Geraldo – e isso talvez seja uma responsabilidade futura sua – uma política nacional de desenvolvimento regional. Nós somos um país de muitas desigualdades sociais e de muitas discrepâncias regionais. Alguns Estados mais desenvolvidos, uns menos desenvolvidos. Goiás está experimentando uma fase de forte crescimento e desenvolvimento industrial, mas temos de ter uma visão de País por igual. O governador Geraldo tem toda razão em bater nessa tecla de apoio aos municípios. Por isso eu recebi todos os 246 prefeitos para celebrar convênios, para que eles possam definir como eles vão investir os recursos.
Acabei de lançar um programa de investimentos, que é o Programa Goiás na Frente, um programa logo depois dessa superação da crise, de R$ 9 bilhões. Três bilhões em saneamento e energia, com recursos privados, e outros R$ 6 bilhões em parcerias com a União e também com receitas nossas, que já estão viabilizadas. É uma forma que a gente encontrou de garantir os investimentos, a melhoria da qualidade de vida e também a volta da geração de empregos. Sei que você aqui também tem um plano ousado de investimentos.
ESTÍMULO AOS INVESTIMENTOS DO SETOR PRIVADO
"Marconi colocou bem: R$ 3 bilhões de investimento privado: O governo não tem recurso para tudo", afirma Alckmin
"É importante acabar com esse preconceito ideológico em relação à privatização", diz Marconi
Alckmin
Marconi colocou bem: R$ 3 bilhões de investimento privado. O governo não tem recurso para tudo. A grande reforma do Estado é o governo deixar de ser provedor de tudo – porque não tem dinheiro para tudo – e executor de tudo. É muito grande. Deve-se fazer um princípio de subsidiariedade. Aqui nós fizemos agora em março, Marconi, na Bovespa, a primeira concessão rodoviária do ano, com 131% de ágio. E tiramos a exigência de atestado técnico. Então já não é mais um negócio de construtoras e empreiteiras. Ganhou o Fundo Pátria de Investimentos. Pagou quase R$ 1 bilhão de ônus de concessão e vai investir R$ 4 bilhões em duplicação de rodovias.
Em março, ainda, fiz cinco aeroportos. Fizemos a concessão dos aeroportos de Jundiaí, Bragança, Ubatuba, Itanhaém e Campos dos Amarais, em Campinas. Dia 25 de abril, agora, vamos fazer a concessão da chamada Rodovia dos Calçados. E, como você fez à Celg lá em Goiás, temos programada a privatização da Cesp, aqui em São Paulo. Esse é o bom caminho. Trazer a iniciativa privada para investir, porque o Brasil precisa de investimento, porque isso é emprego, renda e infraestrutura. Rodovia, ferrovia, hidrovia, aeroportos, são exemplo.
Uma linha de metrô aqui em São Paulo, a Linha 5, estamos empregando hoje 5,4 mil pessoas em obra, nos vários canteiros. Então o setor de infraestrutura gera muito emprego, que é o que nós precisamos.
Marconi
E é importante acabar com esse estigma, com esse preconceito ideológico, em relação à privatização. Havia uma guerra em relação à privatização da Celg. Ocorre que nós temos demandas reprimidas extraordinárias que indústrias e do agronegócio que precisa de energia. Só que o Estado e a União, sócia da Celg, não tinham dinheiro para fazer investimentos. R$ 100 milhões, 200, 300, no máximo, por ano. A Enel, gigante italiana, Geraldo, que arrematou com ágio de 28% a Celg, vai investir em dois anos US$ 800 milhões em novas subestações, linhas de transmissão, linhas de distribuição, além do recurso que ficou para o Estado fazer também investimentos, que foi o fruto da privatização.
É uma política de "ganha-ganha". Além de a população ganhar com uma energia melhor, com mais qualidade, com mais investimentos, o Estado também terá condições de fazer mais pela população.
Alckmin
Traz investimento privado, gera emprego, reduz custo Brasil, melhora infraestrutura, essa é a agenda positiva, Marconi. Nós universalizamos, em São Paulo, o Ensino Fundamental. Tivemos até as melhores notas do último Ideb. Qual desafio hoje? É universalizar o ensino infantil, que é a criança de zero até cinco anos de idade. Isso é prefeitura, responsabilidade do município. Fizemos um programa aqui, Marconi, chama "Creche Escola". Já entregamos 210 Creches-Escola, e vamos entregar mais 400. Tem a creche e tem a EMEI. A gente entrega para a prefeitura pronta, mobiliada para o município administrar.
EFICIÊNCIA DO SETOR PÚBLICO
"Hospitais estaduais melhoraram muito e têm mais de 90% de avaliação positiva, porque atendem bem", diz Marconi
"Estamos investindo da creche à universidade", afirma Alckmin
Alckmin
No Ensino Fundamental, estamos caminhando para a Escola em Tempo Integral e o técnico e tecnológico. O Emprego muda muito depressa. Então nós criamos, por exemplo, uma Fatec com o curso de Tecnólogo e Mecânico de Agricultura de Precisão. Porque essas máquinas têm muita computação embarcada. Acabamos de criar um curso chamado Big Data do Agronegócio, porque é tanta informação que você precisa ter gente especializada para computar tudo isso. São cursos inovadores. Ou seja, vão desde a creche até a universidade.
Marconi
Criamos em Goiás um programa chamado Goiás Mais Competitivo e Inovador. Detectamos que um dos principais gargalos à competitividade e, principalmente, a melhoria dos indicadores em algumas áreas, tem haver com o acesso à Educação Infantil. O que nós fizemos? Juntamos os 24 prefeitos das cidades maiores e que representam 70% destes gargalos. Eu os levei ao ministro da Educação, Mendonça Filho, propondo um pacto para nós avançarmos na oferta de escolas, de creches, de CMEIs, com apoio do governo do Estado. Identificamos que 37 municípios ainda não tinham creches. Imediatamente, começamos a propor as parcerias nesse sentido.
Tanto São Paulo, quanto Goiás, avançaram muito nos últimos anos nos indicadores do Ideb. Somos 1º no Ensino Médio, em 2013. Em 2015, ficamos em 2º. No Fundamental, ficamos em 1º também. Nós avançamos muito.
Mas há uma luta minha lá, Geraldo, é para fazer na Educação o que nós conseguimos fazer na Saúde. As OSs. Eu copiei o que você começou com o Covas e depois o Serra, que foi a universalização dos hospitais públicos, através da gestão das OSs, que melhorou consideravelmente o atendimento a quem precisa, que são as pessoas que procuram os hospitais públicos. Hoje, nossos hospitais estaduais, têm mais de 90% de avaliação positiva, porque atendem bem. E nós temos feito os repasses e temos fiscalizado.
Agora, meu sonho é levar essa experiência para a Educação. Estamos também em uma batalha, porque tem a coisa ideológica, esse preconceito ideológico. Temos um único objetivo, que é fazer um teste, uma experiência, que tenho certeza que vai ser exitosa. Ela foi exitosa em Massachusetts. A melhor Educação dos EUA, hoje, fica no estado de Massachusetts, porque eles implantaram um modelo de vouchers.
Então, estamos nessa batalha para melhorar. Até porque a gente tem muitas dificuldades financeiras para fazer mais do que nós já estamos fazendo. Então é preciso simplificar as coisas e gastar menos com mais qualidade. E é o que estamos procurando fazer. Eu já falei isso muitas vezes contigo. Vamos ver se a gente consegue, esse ano, deslanchar essa ideia.
Alckmin
Aqui as organizações sociais hoje estão nos hospitais, nos AMEs, na Rede de Reabilitação Lucy Montoro, na aquicultura, Restaurante Bom Prato, com ótima qualidade. Todos em parceria com organizações sociais.
REFORMA POLÍTICA E REDES SOCIAIS
"As redes sociais se incorporaram a toda vida pública ou privada no País e no mundo", diz Marconi
"A tecnologia da informação e as redes sociais, mudaram o mundo, mudaram para melhor", afirma Alckmin
Alckmin
Há uma falência do modelo político brasileiro. Falência completa. Temos o melhor sistema de apuração eleitoral, com identificação biométrica. Termina a eleição às 5 da tarde às 10 da noite você sabe quem venceu a eleição. Não há no mundo um sistema eletrônico com essa competência. Por outro lado, um dos piores sistemas político-eleitorais. Então há um esgotamento.
Não pode ter 35 partidos e mais 35 pedindo registro. Então, temos defendido cláusula de barreira, para ter menos partidos, e mais programáticos; defendo voto distrital misto, ou voto distrital puro, mas voto proporcional. Imagina um deputado fazendo campanha como se fosse governador, no estado inteiro. É uma coisa impossível. O vínculo entre o eleitor e seu representado é muito fraco, muito frágil. É necessário um conjunto de reformas.
Precisamos trazer o jovem para participar da vida pública. O futuro começa hoje e ele se chama: Juventude. Então, trazer a pior política é a omissão. Trazer as mulheres, trazer os trabalhadores, os jovens, para participar da vida pública.
Marconi
Essa questão da reforma política, muitos dizem que deve ser a primeira de todas as reformas. Não sei se o Mário Covas ou o Montoro que dizia que a Reforma Política é a "mãe" das reformas. E eu compreendo assim. O governador Geraldo já falou aqui de algumas facetas dessa reforma da legislação eleitoral e eu incluiria o fim das coligações proporcionais, que tem haver também com a cláusula de barreira.
Aliás, Geraldo, quando eu era deputado federal, há mais de 20 anos atrás, aprovamos a legislação estabelecendo a cláusula de desempenho, que era a cláusula de barreira, para vigorar 10 anos depois. Infelizmente, o Supremo Tribunal Federal, dez anos depois, declarou inconstitucional essa legislação. Hoje já ouvi de alguns que até se arrependeram. Acho que seria o começo da mudança desse sistema eleitoral atrasadíssimo lá atrás. De qualquer forma, acho que a gente tem tudo para definir essa reforma para agora, nesse ano. Eu torço muito para que isso ocorra, tenho trabalhado muito junto a parlamentares amigos e acho que essa questão do financiamento público de campanha precisa ser definitivamente esclarecido e resolvido para que não haja mais essas questões como Caixa 2 e outras deformações que existiam até bem pouco tempo na política brasileira. Essas medidas precisam ser adotadas.
Quanto ao uso das redes sociais, acho que elas mudaram o mundo. A Primavera Árabe se deu em função das redes sociais. Mudanças às vezes para melhor, outras para pior, mas o fato é que as redes sociais hoje se incorporaram a toda vida pública ou privada no País e no mundo inteiro. Nos EUA, a eleição do Obama, há 8 anos, aconteceu em função das redes sociais. No Brasil, na última eleição, sobretudo também.
Eu descobri isso, em 2010, a importância que a gente teria com a utilização das redes, depois o Hangout. Mas o Obama ganhou a eleição com base a um forte trabalho na redes. Aqui, em 2014, quase que a gente vence as eleições no segundo turno, por conta das redes sociais. E eu acho que elas terão cada vez mais importância.
Fico muito feliz de estar conversando com esse ídolo que eu tenho, que é o governador Geraldo Alckmin, um grande brasileiro, um homem corretíssimo, gestor competentíssimo, como tantos brasileiros de Goiás, de São Paulo e do Brasil. Um abraço a todos os internautas.
Alckmin
Agradeço o Marconi pelo convite aqui do Papo com Governador. Gostei muito. Transmitimos, Dona Lu Alckmin e eu, um grande abraço à Dona Valéria. Um abraço a todos os goianos, paulistas, a todos os irmãos brasileiros. Não há dúvida, a tecnologia da informação e as redes sociais, mudaram o mundo – e acho que mudou para melhor. Porque quanto mais participação, melhor. Quanto mais pudermos interagir, erramos menos, acertamos mais. Então, é uma grande alegria estarmos aqui. Um grande abraço e um bom domingo a todos.