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As promessas do progresso

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20.03.2024 - 08:45:03
Um tema que divide pensadores é o do progresso. Quando olhamos para trás, para a trajetória das sociedades humanas, será possível falar que progredimos? E, mirando o futuro, dá para acreditar que esse progresso continuará?
 
A discussão é ruidosa. Logo de cara, à ideia de “progresso”, sobrepõem-se duas outras noções que usamos a toda hora: as de “desenvolvimento” e “evolução”. 
 
Para os economistas, durante muito tempo desenvolvimento significou unicamente crescimento econômico medido pelo produto interno bruto ou pela renda per capita.
 
É cada vez mais difícil, entretanto, ver quem empregue essas palavras sem adjetivá-las ou colocá-las entre aspas, exceto talvez nos extremos do espectro político, de um lado e outro, onde os ideais originalmente encarnados por elas ainda fazem algum sentido. Daí que falemos tanto hoje em “desenvolvimento sustentável” ou “desenvolvimento humano”, por exemplo.
 
Embora tenham origens diferentes, essas duas expressões cumprem um papel semelhante. A ideia de “desenvolvimento sustentável” surgiu na década de 1980 no documento “Nosso Futuro Comum”, também conhecido como Relatório Brundtland, produzido pela Comissão das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, coordenada pela ex-primeira-ministra norueguesa Gro Brundtland. É dali que vem a conhecida definição de desenvolvimento sustentável como aquele “que encontra as necessidades atuais sem comprometer a habilidade das futuras gerações de atender suas próprias necessidades”.
 
Constatava-se então que as formas pelas quais produzimos e vivemos poderiam, por comprometerem sua própria base natural de sustentação, não se manter de forma indefinida e, menos ainda, garantir a qualidade de vida desejada no futuro.
 
A noção de desenvolvimento humano, por sua vez, surge na década de 1990 a partir do trabalho do economista paquistanês Mahbub ul Haq e do indiano Amartya Sen, este último um Prêmio Nobel da Economia.
 

Progresso Americano é uma pintura de John Gast (1842-1896) 
que ilustra a conquista do Oeste (Fonte: Wikipedia)
 
Ela parte da constatação de que o crescimento econômico é condição necessária, mas não suficiente, para se falar em desenvolvimento. A partir dessa ideia, ul Haq desenvolveu o Índice de Desenvolvimento Humano, que passou a ser utilizado pela ONU e a servir como base para a comparação das trajetórias de diferentes sociedades. Ele agrega à dimensão econômica, medida pelo PIB e pela renda per capita, um indicador de saúde e dois de educação que, combinados, resultam no IDH.
 
Por trás disso, está a brilhante definição de Amartya Sen do “desenvolvimento como liberdade”, título de um de seus livros mais conhecidos. Para ele, o desenvolvimento deve ser pensado como um processo gradual de ampliação das possibilidades de escolha de que as pessoas desfrutam – como uma trajetória de aumento da liberdade e da capacidade dos seres humanos para fazerem escolhas que levem a uma vida mais plena e significativa. Isto é, o desenvolvimento existe quando há uma condição de autonomia positiva do indivíduo.
 
A genialidade da definição de Sen tem a ver, em grande parte, com seu sentido vago e generalizante. Ela ecoa, de certa forma, a célebre frase atribuída ao também economista holandês Jan Tinbergen, que teria dito que o “desenvolvimento é como um elefante. Ninguém sabe exatamente como definir, mas todo mundo sabe reconhecer quando o vê.”
 
Talvez, entretanto, o que de mais importante a definição do indiano carregue seja sua capacidade de dissolver a imagem de seta unidirecional que impregna o sentido das três palavras citadas no início deste artigo. Afinal, em sua acepção mais comum, desenvolvimento, progresso e evolução nos fazem pensar em uma origem única no passado e um fim pré-determinado em algum momento no futuro.
 
Essa é uma ideia cara à modernidade. Em nossa sociedade e tempo, marcados pela ciência, pela razão e pela técnica, gostamos de nos enxergar como ponto de chegada evolutivo de todas as sociedades. Não à toa, logo após a queda do Muro de Berlim, no final da década de 1980, o cientista político Francis Fukuyama lançava a ideia do “fim da história”. Embora, após muitas críticas, ele tenha tentado suavizar seus argumentos, sugerindo que falava apenas em sentido metafórico, na essência, sua postulação era a de que, com o colapso do comunismo, a história humana teria chegado a um ponto final, onde a democracia liberal se estabelecia como destino de todas as sociedades.
 
Mas faz sentido falar que nossa sociedade, com seu nível de progresso material, mas ao mesmo tempo com toda sua desigualdade, violência e degradação ambiental, seria mais desenvolvida, por exemplo, que uma sociedade como a dos Waurá, no alto Xingu, ou a dos Pirahã, no médio Madeira?
 

Comunidade Waurá, na Terra Indígena do Xingu (Foto: Marcelo Novaes).
 
Entre esses indígenas, a expectativa de vida é menor e a renda per capita baixíssima, mas não acontecem, por exemplo, depressão e suicídios. Além disso, ali, cada indivíduo domina todo o conhecimento necessário para sobreviver sem depender de ninguém. Não há ricos, nem afluência material, mas tampouco existem pobres, presídios, hospícios ou tortura. Vivem há alguns milênios usando dos ecossistemas apenas o necessário para que se mantenham íntegros. Desenvolvimento sustentável? Ampla liberdade de escolha? Autonomia do indivíduo?
 
O famoso psicólogo americano Steven Pinker, professor de Harvard, é dos que defendem, num outro viés, a ideia de progresso moral. Com dados e sólidos argumentos, ele afirma, sobretudo em seu best seller Os Anjos Bons de Nossa Natureza, que a violência vem declinando de forma consistente ao longo da história humana. Embora o século 20 tenha, nesse sentido, testemunhado o horror do Holocausto, isso não significaria que, em termos gerais, nossa espécie não venha recorrendo progressivamente menos à violência como forma de resolução de disputas. Para ele, há uma evolução moral inquestionável.
 
Existem os que criticam suas estatísticas e a maneira pela qual Pinker tira conclusões a partir delas – entres eles, especialmente, o ensaísta e estatístico libanês Nassim Nicholas Taleb. A polêmica entre os dois transbordou para um rixa pessoal que já dura uma década.
 
O filósofo e neurocientista americano Sam Harris é dos que consideram excessivas as críticas a Pinker, embora não compartilhe de seu otimismo. Para ele, não apenas em relação à violência é possível falar em progresso moral. Outros dados mostram, de maneira clara, a melhoria da qualidade de vida de uma ampla proporção da humanidade, apesar de que ainda persistam imensas desigualdades.
 
É difícil na verdade fazer afirmações categóricas nesse debate. Outros questionarão o preço a que esse suposto progresso chegou: escravidão, extermínio de povos indígenas, séculos e séculos de guerras – sem contar a epidemia de falta de sentido e doenças mentais que assola as sociedades contemporâneas, mesmo diante de tamanha afluência material.
 
E resta ainda a questão: para os que acreditam no progresso, é possível apostar que ele continuará? Dá para afirmar que os ganhos que recebemos das gerações anteriores se manterão?
 
É dura, mas iluminadora, nesse sentido, a recente conversa entre Sam Harris, em seu podcast, e o  filósofo britânico John Gray. Liberal clássico e pessimista, Gray não acredita em progresso ou na eficácia da moralidade. 
 
Como fez grande parte de seus estudos na década de 1970, em Oxford, Gray formou seu pensamento em uma época da universidade em que a vida intelectual ainda era amplamente livre e diversa. Nesse ambiente, misturavam-se conservadores, liberais e progressistas de todos os matizes – reacionários, direitistas liberais, a esquerda democrática, stalinistas, trotskistas, anarquistas.
 
Naquele tempo, Gray passou a acreditar, como ainda acredita, que a democracia liberal é o melhor sistema político, ao menos entre aqueles conhecidos, para ordenar a vida em nossa sociedade. Mais que isso, ele tomava aquele ambiente e suas liberdades como algo dado.
 
Não obstante, o passar do tempo lhe mostrou que não havia qualquer garantia de progresso e nem mesmo de manutenção das conquistas sociais e políticas de que desfrutava. Não à toa, lembra ele, a democracia ateniense durou menos de 60 anos. Hoje, vemos seus pressupostos questionados e atacados por todos os lados. 
 
Na universidade, o ambiente profícuo e profundamente livre em que Gray se formou é parte do passado. Hoje, predominam a autocensura e a censura coletiva. De forma mais ampla, no Brasil e muitos outros países, onde tomávamos a democracia como um fato dado, a sombra sinistra dos populismos e dos autoritarismos se reergueu – como testemunham os quatro anos de governo Bolsonaro e a infame tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023.
 
É difícil falar em progresso, complicado tomar a noção de desenvolvimento como um ideal e impossível falar em evolução em termos sociais. É mesmo compreensível a insatisfação dos cidadãos com as promessas não cumpridas da democracia. Todavia, se há algo que a história mostra com clareza são os efeitos nefastos das alternativas a ela. 
 
Por isso, o que parece fundamental é, na verdade, que deixemos de entender a democracia como um ideal ou como um conjunto de promessas, e que passemos a entendê-la por seu real valor, isto é, como um feixe de princípios para otimizar hoje as relações em sociedade, que podem ser muito piores sem ela. Deixemos o progresso de lado.
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por Pedro Novaes

*Diretor de Cinema e Cientista Ambiental. Sócio da Sertão Filmes. Doutorando em Ciências Ambientais pela UFG.

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