Logo

As murderselfies

WhatsAppFacebookLinkedInX
28.08.2015 - 12:13:56

Goiânia – Quando menino, não havia internet. Telefone móvel era coisa dos Jetsons. Câmeras GO Pro? Talvez alguma ideia de lunático aficionado em ficção científica. Era um mundo bem diferente.

 
Naquela época em que era apenas aquele menino feio que veio do século passado, havia uma série escondida nas estantes das locadoras de VHS (mais pistas de tempos remotos) chamada “Faces da Morte”. Proibida, mais fácil era levar para casa um filme para adultos. Porém, sempre havia o locador pronto para burlar as leis e fornecer o material – muitas vezes camuflado nas caixas de coisas inofensivas, tipo Goonies e E.T (pesquise no Google, caro leitor com menos de 35 anos).
 
Em casa, longe dos olhares vigilantes dos adultos, a meninada se juntava para assistir aos filmes proibidos. Confesso que só tive estômago para uns poucos 20 minutos de exposição de cadáveres mutilados por acidentes automobilísticos, assassinatos cruéis, espancamentos fatais… E sangue, muito sangue. Mas a adrenalina da turminha ia aos picos com aquilo.
 
Felizmente, as coisas mudaram. A internet e os aparelhos móveis estão aí, onipresentes, e o acesso à informação atinge níveis opressores. As velhas locadoras estão em extinção, e tudo que queremos está ao alcance de um clique.
 
Algumas coisas, contudo, não mudam. E a atração pela violência, forjada por nossos antepassados nas savanas africadas há milhares de anos, segue atávica.
 
Quando ela, a violência, não nos atinge diretamente nas ruas, nos chega no horário das refeições em família pelos telejornais. Milhares de câmeras de segurança espalhadas pelas ruas, casas e empresas fornecem material farto para a audiência. Daí nosso olhar fica dividido entre o bife acebolado e a arma apontada para a cabeça do vizinho.
 
No bolso, portamos pequenos Coliseus, que ora fornece mensagens edificantes, ora sacia nosso sadismo com o corpo transfigurado do ídolo sertanejo.
Bryce Williams e Estado Islâmicos são exemplos acabados de inserção nessa sociedade em rede. Ambos sabem que não basta atirar e degolar para ter a atenção de uma audiência sobrecarregada de estímulos.
 
Na sociedade narcísica das redes sociais, compartilhar as murderselfies é a ordem natural das coisas.
compartilhar
WhatsAppFacebookLinkedInX
por Rodrigo Hirose

*Jornalista com especialização em Comunicação e Multimídia

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Postagens Relacionadas
Noite e Dia
14.10.2026
Convidados prestigiam abertura de exposição de Kdu dos Anjos em Goiânia; veja fotos

Carolina Pessoni Goiânia – O Centro Cultural UFG (CCUFG) recebeu, na terça-feira (13/10), a abertura para convidados da exposição “Memórias, Imagens e Arquiteturas da Permanência”, de Kdu dos Anjos. Na exposição apresentada em Goiânia, o artista reúne trabalhos das séries “Sentinelas — Carrancas Pinceladas”, “Nóis que Ficamo” e “Cidade de Deus”. Sua pesquisa parte de fotografias, […]

LABORATÓRIO PÚBLICO - CIÊNCIA, POLÍTICA E MEIO AMBIENTE
13.10.2026
Votemos, então

A vida me proporcionou exercer ofícios muito diferentes até aqui, ocupar portanto lugares e perspectivas distintas na sociedade. Por isso, me sinto numa responsabilidade múltipla diante do segundo turno da eleição presidencial. Primeiro, antes do trabalho, por caminhos tortuosos, a vida me tornou radicalmente democrata. Isso é, em grande medida, herança do meu pai, Washington […]

Noite e Dia
12.10.2026
Famílias aproveitam o primeiro final de semana da reabertura do Mutirama; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Após obras de recuperação e melhorias na estrutura e na segurança, o Mutirama voltou a receber o público a partir deste sábado (10/10). No domingo, famílias aproveitaram para curtir o parque e antecipar as comemorações do Dia das Crianças. Com 22 atrações recuperadas, estão disponíveis ao público a roda-gigante, telecombate, autopista, […]

CURADORIA AFETIVA
11.10.2026
CoCriar

Poucas mulheres na história da Humanidade conseguiram um feito tão nobre quanto o de Indra Devi (1899-2002). Natural da atual Letônia, usou do poder de sua diplomacia cultural para conseguir ser aceita como aluna no Palácio de Mysore, na Índia e aprender os segredos do yoga, até então apenas praticado por homens. Submetida à rígidas […]

Noite e Dia
09.10.2026
Curso de Jornalismo da UFG lança Cordel em comemoração aos 60 anos; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – Em celebração aos 60 anos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás (1966-2026), foi lançado nesta quinta-feira (8/10), às 10h30, no Pátio das Humanidades, no Câmpus Samambaia da UFG, o Cordel da Fundação do Curso de Jornalismo da UFG. O Cordel foi composto e impresso no Ateliê Tipográfico da […]

Joias do Centro
09.10.2026
Monumento à Paz Mundial celebra união dos povos em Goiânia

Carolina Pessoni Goiânia – “A terra é um só país e os seres humanos são seus cidadãos.” A frase de Bahá u lláh, fundador da Fé Bahá’í, inscrita no monumento de concreto na região central de Goiânia convida à reflexão sobre a existência humana. A citação é parte do Monumento à Paz Mundial, localizado no […]

Noite e Dia
07.10.2026
Galeria Léo Romano recebe exposição “Dinheiro Vivo”, de Vik Muniz; veja como foi

Carolina Pessoni Goiânia – A capital recebeu, nesta terça-feira (6/10), a abertura da exposição “Vik Muniz – Dinheiro Vivo”, na Galeria Léo Romano, no Setor Sul. A visitação é gratuita e segue até 31 de janeiro de 2027. Com curadoria de Daniel Rangel, a exposição reúne 13 trabalhos da série iniciada por Vik Muniz em […]

Noite e Dia
06.10.2026
Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição de Vik Muniz; veja como foi a abertura

Carolina Pessoni Goiânia – A Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia, abriu, nesta segunda-feira (6/10), a exposição “Vik Muniz – REVER: imagem e reflexão”. Considerado um dos artistas brasileiros de maior reconhecimento internacional, Vik Muniz ocupa a Grande Sala da Vila Cultural Cora Coralina para apresentar, em Goiânia, um conjunto de 60 fotografias produzidas ao longo […]