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As imaginaturas de Isabel

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23.05.2017 - 11:57:44
À Alice Martins, esta-sempre-protagonista. À profa. Leda Guimarães, que vem-me ajudando tão generosamente a entranhar tais-bonitas cartografias. À escritora Maria Valéria Rezende, pela fazeção literária e pelo nosso Mulherio das Letras. E a quatro das muitas parceiras-amigas, fazedoras de sentidos: Helena Frenzel, Lisa Alves, Alda Alexandre e Larissa Mundim.

 
 
— Pois-gente, de arremedos a invencionices, nós todos, jeito ou outro, podemos criar as nossas imaginaturas com a linguagem…

Foi o que Isabel deu como primeira resposta àquele mundaréu de olhinhos curiosos, e ela já na porta para entrar em casa, sacolaiada doida na mão voltando do mercado, plena segunda-feira, vrom-vrom se acumulando na rua, obrigações se renovando — o chão, o céu, semana inteira pela frente.

E justo àquela altura do dia, sol em situação difícil de conter, “tanta coisa ainda por dar conta, deusdocéu…”.

Era mesmo um mulherio danado que vinha-vindo pela avenida central, umas confirmando com outras onde ficava a residência da moça, que também queriam “participar da reunião”, de então que seguiam atoleimadas de perguntas zanzando na cabeça, contornando a pracinha, e lá na porta da casa dela: que ninguém nem-não arredaria o pé dali, agudizava mais ainda a dona Vanda, enquanto não obtivessem “uma explicação plau-sí-vel” para aquela estranhez toda imaginada pela moça.

Tinha mais: que “onde já se viu gente de vida ordinária como a delas”, “a Alzira, por exemplo, cozinheira de famílias”, “ou a dona Beatriz, com os estudos parados pelo terceiro ano primário”, “e mesmo a Iolanda, professora de versos, com uns aqui-ali, mas nada assim…”, como é que iriam concordar serem capazes de imaginar as coisas também-elas, e “sassenhora!, imaginar daquela forma, com aquele intento?”.

A ideia de Isabel pressupunha que as mulheres da cidade pusessem vista nos acontecimentos, no dia a dia, no que quisessem, “suas experiências de viver”, como se diz, e depois criassem imagens, “como se fazendo fotografias”. A desavença, em tão logo, ficava por conta de não ser com máquina de tirar foto, não. Pelo menos não-em-princípio. Nem com telefone, nem com aparelhagem nenhuma, e sim…

— Isabel, mas com palavra? Como é que se faz imagem com palavra, criatura?

— Ora, Joana, é palavra-estoriando, de tudo quanto é jeito, aglutinando coisas, fazendo até imagem, você sabe… — pois saber, saber mesmo… ela fazia que sim, que sabia, mas depois, repassando em pensamento, via que não, despressentia- pendendo para desentender. Seguiam, mesmo assim, e assim mesmo. Na peleja:

— É como falar do que a gente vê? Ou do que desvê? Ã-rã, ou os dois juntos…

— Gente, fazemos isso o tempo todinho. Digo: ficar de fazeção, em narrativas.

— Se a gente for pensar… nesse mundo, menina… é preciso construir histórias.

— Que vão servir depois para alguém ver. Que seja só olhando de volta, né?

Debatiam. Quando muito, quando pouco, e fim das contas:

— Olha, se é para cada uma enredar sua própria versão, não temos de decidir pelo menos o que mostrar dentre essa coiserama toda da-gente-aqui, né-não?

Iam chegando quase-já a um consentimento. E, enfim, delimitaram: situações, o que não podiam deixar de fora, como articular isso, como representar aquilo.

No afinal mesmo: alguém, visse de menos perto aquela combinação delas, pensaria facilzinho que sorocavam, “quanta sandice!”. Mas se sim ou se não-sim, fato é que passaram a sorocar juntas. Uma vez por semana, de princípio. Reuniam-se, cada delas levava um de comer ou beber para a hora da merenda, arrelientas-que-só, e se organizavam de modo a visualizarem juntas as-todas imagens produzidas.

Depois, ocorreu de se reunirem duas, depois três, depois quatro vezes na semana. Estavam, dali a pouco, se encontrando mais dia no dia. Mesmo quando não…

— É que vai surgindo tanta possibilidade, e mais outra, e outras… difícil dar conta de vez só — ponderava uma, entre si discordavam, às vezes até se anuindo.

Ao final de meses, já tinham feito tantos inventários — que primeiro chamaram invencionices e, tão logo, ficaram sendo mesmo imaginaturas — de sem fim de acontecimentos. Pois foi assaz-assim, a propósito, que pensorresolutaram, em um dos dias, que imagem também valia, já que era coisa de visto-dito, igual palavra, ora…

— A Catarina mesma — argumentavam-se — gosta de palavra-desenhando. E a Alice, que fica de letripulia com música, retrato, até filmagem?…

De certo, elas-ali: bem no des(curso) dos quais “cotidianos”, por assim pensar… Uma palpitava com a outra, e outra-lá, e a outra-cá de novo… Tinha hora que nada salvava, conflituavam-se muito. Parecendo, até-muitas-vezes, que a combinação delas não ia nem-mais adiante.

E bem-foram, assim, se entregando ao interminável, pondo sentido no que não podiam mais parar de trans(vi)ver, ou imaginar…
 
 

 


*Esta estória-de-Isabel introduz o projeto de doutoramento — (as outras fazedoras de sentidos) Dicionário de imaginaturas e letripulias com a linguagem — que estou desenvolvendo, desde o iniciozinho de 2017, na Faculdade de Artes Visuais da UFG, sob orientação da profa. Alice Martins. E eis que: vencida a etapa de seleção do doutorado, esta narrativa marca, também e tão afetivamente, o meu retorno ao jornal, como colunista. Daí que: eu-cá, em alegrias-além!

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por Carol Piva

*Carol Piva é doutoranda em Arte e Cultura Visual na UFG e uma das editoras-fundadoras do jornal literário "O Equador das Coisas". Servidora do TRT de Goiás, tradutora e ficcionista.

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