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Rimene Amaral

Da personalidade ao Jogo do Bicho, a cobra e suas representações

| 02.04.25 - 17:16 Da personalidade ao Jogo do Bicho, a cobra e suas representações (Foto: divulgação)
Aldenor deu até um pulo da cama quando despertou de um sonho perturbador com Tereza Temístocles, amiga de uma amiga de faculdade, com quem já havia confraternizado muito, mas não a via há mais de uma década, no mínimo. Foram dois sonhos com a professora de História em menos de uma semana. Sempre que sonha, ele faz questão de saber como está a personagem do sonho. E só fica em paz depois de notícias. Desta vez não foi diferente. 
 
Aldenor é formado em Relações Públicas e Administração. Trabalhou muito tempo no serviço público. Na época em que se conheceram, Tereza Temístocles havia sido despejada da casa dos pais quando chegou, à noite, e, descuidada como sempre, deixou cair no meio da sala, bem na hora do Jornal Nacional, um exame positivo de gravidez. A mãe chorou horrores e o pai ameaçou bater. Depois de alguns longos minutos de arranca-rabo, Tereza Temístocles colocou as roupas numa mala de rodinha, juntou alguns pertences numa mochila e obedeceu à ordem do pai conservador: “Vá embora daqui!”. 
 
Linete, a amiga de faculdade, era o elo entre ela e Aldenor. Tereza era levada quase arrastada para todos os lados e para todas as farras de Linete com os amigos de faculdade. Aprendeu até as gírias da turma. Mas não só por isso, Linete a chamou para passar uns tempos em sua casa, já que a amiga não tinha um teto para se proteger, uma parede para escorar. A hóspede ficou por lá até o nascimento da filha. E foi por causa dessa aproximação entre as duas, que Aldenor ligou para Linete, assim que pulou da cama pela terceira vez, após mais um sonho com Tereza Temístocles. 
 
Apesar de se falarem pouco, Aldenor e Linete não faziam qualquer cerimônia. Ainda que passassem anos sem se falar, quando um ligava pro outro era como se tivessem numa continuação do último assunto, quando havia fofoca sobre mais algum personagem da faculdade. Assim que ela atendeu ao telefone, Aldenor cumprimentou rapidamente a amiga com um “bom dia” e já foi direto à questão: “Linete, você tem encontrado a Tereza Temístocles? Sabe dela? Que fim levou? Sonhei com ela três vezes nos últimos dias”, relatou com um tom curioso. “Cobra!”, exclamou Linete. Não entendi e questionei novamente. Ela explicou: “Não sei se você sabe, mas eu jogo no bicho. Vou jogar na cobra hoje. Sonhar três vezes com a Tereza Temístocles… não dá outra: é cobra”. Sem esboçar qualquer reação, Aldenor só pensou que deveria cobrar 50% do prêmio, caso a cobra fosse o bicho sorteado no dia. Era merecedor.
 
A verdade, segundo o resumo da história de quase uma hora contada por Linete, é que a professora teria ignorado a mãe da amiga, quando a encontrara num café, algum tempo atrás. Depois, quando a mesma Tereza Temístocles negou ajuda ao irmão de Linete que precisava de uma vaga para o filho na escola onde ela trabalhava. “Morou quase um ano aqui em casa e depois finge não conhecer ninguém? É muita ingratidão!”, falava um indignadíssima Linete, leonina-raiz que se irrita facilmente com tudo que é relacionado à falta de reconhecimento, não dá o devido valor e com a falta de reciprocidade.
 
Também indignado com a ingratidão da amiga da amiga, Aldenor ficou do lado de Linete e concordou com a observação. “Quem poderia imaginar. Ela parecia sua irmã”, comparou Aldenor antes de mudar de assunto para saber mais detalhes sobre o Jogo do Bicho. Ele não tinha noção de como e/ou onde poderia ver o resultado. Enquanto se falavam, ele descobriu com uma rápida procura no computador que o número da cobra era o 9, que o sorteio era feito pela Loteria Federal e questionou a si mesmo, em voz alta: “Mas não é uma contravenção?! Como a Loteria Federal sorteia o Jogo do Bicho?”. Linete ouviu e não respondeu. 
 
Aldenor acordou cedo no dia seguinte e foi tratar de saber qual tinha sido o bicho sorteado. Cobra! Estava lá. Seus olhos brilharam e Aldenor sorriu sozinho escancaradamente. Agradeceu à Tereza Temístocles e se indignou com a atitude dela. Pegou o telefone e procurou as últimas ligações. Mas antes de completar a chamada, pensou em como deveria ser a abordagem a Linete. “Vai pagar o jantar e o vinho? Bom dia”, disse assim, na bucha e em tom de brincadeira. Linete se fez de desentendida. Aldenor a questionou sobre o prêmio que havia ganhado no Jogo do Bicho, já que a cobra, bicho sugerido por ele ao sonhar com a amiga da amiga, tinha sido sorteada. Linete desconversou: “Uma ninharia”, desdenhou a amiga. Aldenor insistiu: “Quanto você ganhou?”. Linete contou uma longa história e, no final, disse que o valor daria para pagar a cerveja do fim de semana. 
 
O papo demorou mais de hora, até que Aldenor conseguiu da amiga a promessa de uma garrafa de “um bom vinho. No mínimo, reserva”. E começou a se movimentar para que o encontro acontecesse o quanto antes. Na próxima sexta-feira, após o expediente, foram matar as saudades dos tempos da faculdade e tomar uma gelada – por conta de Linete, é claro. Mas o chope amargou muito quando a amiga colocou uma bolsa novinha em cima da mesa do bar, ainda sem perceber, com a etiqueta: R$1.239,90! 
 
Aldenor voltou a questionar a amiga sobre o quanto teria recebido pelo acerto com a cobra, no Jogo do Bicho. E mandou uma incisiva: “Só acho que mereço uma porcentagem, já que o palpite do bicho foi meu”. Linete levou na brincadeira e desconversou. Aldenor, novamente, tomou o controle da situação e da conversa, e voltou ao assunto do Jogo do Bicho. Foi quando, enfim, a amiga revelou o valor: “5 mil reais”. Cinco mil reais?! Aldenor se sentiu aviltado, olhou fixamente para Linete e sugeriu: “Isso tudo! Eu acho que mereço parte desse prêmio”. E ela sugeriu: “Vamos jantar no melhor restaurante, com o melhor vinho, por minha conta”. Aldenor sorriu e virou o chope, como faziam, na época da faculdade, quando abriam os trabalhos e bebiam o primeiro chope no vira para matar a sede. Depois começava a parte séria. Olhou fixamente para ela e tratou de lembrar do vinho que já havia prometido antes. Aldenor achou por bem aceitar e dar por encerrada a resenha do Jogo do Bicho. O resultado do jantar é uma história à parte.
 
*Rimene Amaral é jornalista, radialista e fotógrafo

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