A Redação
Goiânia – Julho marca o início da alta temporada no rio Araguaia, um dos principais destinos turísticos de Goiás durante as férias. Para muitos goianos, a chegada deste período traz à memória o clássico jingle que ecoava nas televisões e rádios alertando para a preservação ambiental e pedindo ao “bicho homem” que não sujasse o meio ambiente porque “essa beleza é pra todo mundo”. Décadas depois, a mensagem continua atual e ganha força por meio da ciência.
É justamente neste mês de julho que o Programa Araguaia Vivo 2030 completa três anos de existência e apresenta um balanço expressivo de produção científica, mobilização social e geração de informações estratégicas sobre a Bacia do Araguaia/Tocantins. Ao longo das expedições e ações de campo, o programa consolidou uma das maiores bases de dados já produzidas sobre o rio Araguaia, reunindo informações sobre biodiversidade, qualidade da água, turismo, pesca, saúde ambiental, comunidades ribeirinhas, educação ambiental e uso do território.
A iniciativa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), tem como missão promover a conservação dos recursos naturais da bacia hidrográfica do Rio Araguaia e garantir a sustentabilidade ambiental, econômica e social da região.
Três anos de ciência e monitoramento ambiental
Considerado o maior estudo de bacias hidrográficas em desenvolvimento no Brasil, o programa reúne mais de 300 pesquisadores e estudantes de diferentes áreas do conhecimento, distribuídos em 23 instituições públicas e privadas de pesquisa. Com investimentos superiores a R$ 15 milhões da Fapeg, o Araguaia Vivo 2030 é coordenado pela professora e bióloga Dra. Mariana Pires de Campos Telles, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) e da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Mariana Telles revela que os resultados mostram que o Araguaia ainda conserva uma biodiversidade extraordinária, mas também apontam sinais de alerta. Segundo ela, o programa identificou pressões relacionadas à perda de vegetação, alterações na qualidade da água, poluição microbiológica em determinados pontos, impactos associados ao uso desordenado do território e riscos vinculados à contaminação por mercúrio. “Essas informações são fundamentais porque permitem sair da percepção geral sobre os problemas do rio e avançar para diagnósticos baseados em dados científicos”, afirma.
Para a pesquisadora, uma das contribuições mais importantes do programa foi transformar esses dados em instrumentos de apoio à gestão ambiental. Entre os produtos desenvolvidos está um índice de saúde hídrica para a Bacia do Araguaia, em desenvolvimento para apoiar o monitoramento contínuo do rio e subsidiar respostas mais rápidas a situações como mortandade de peixes, contaminações, alterações na qualidade da água e outros impactos ambientais. Mariana Telles também destaca a realização de análises de balneabilidade e de coliformes fecais, com potencial para orientar ações de segurança voltadas a banhistas, turistas e comunidades locais.
Meio ambiente e saúde pública caminham juntos
Outro resultado relevante apontado pela pesquisadora foi a integração entre meio ambiente e saúde pública. Pesquisadores mapearam ilhas de calor associadas ao desmatamento por meio de drones termais e identificaram relações entre perda de cobertura vegetal, aumento de temperatura local e incidência de dengue. Também estão sendo analisados milhares de mosquitos coletados ao longo da bacia para rastreamento de potenciais zoonoses.
“Isso mostra que conservar o Araguaia não é apenas uma agenda ambiental, mas também uma questão de saúde, qualidade de vida e planejamento territorial”, afirma.
Além de ser um amplo projeto científico, o Araguaia Vivo 2030 é uma força conjunta de ação ambiental, social e educacional. A proposta é ambiciosa: criado em julho de 2023 pela Aliança Tropical de Pesquisa da Água (TWRA), o programa busca preservar a saúde ambiental da bacia do Araguaia, restaurar ecossistemas do Cerrado, preencher lacunas de conhecimento científico, antecipar e preparar para futuras mudanças ambientais, formar novos pesquisadores e fornecer subsídios para a elaboração de políticas públicas mais eficientes.
O programa conta ainda com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e projetos associados, entre eles o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio Araguaia), executado pela PUC Goiás, e o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Ecologia, Evolução e Conservação da Biodiversidade (INCT EECBio), coordenado pelo pesquisador Dr. José Alexandre Felizola Diniz Filho.
Tecnologia
Do ponto de vista científico, o Araguaia Vivo aplicou tecnologias avançadas para compreender melhor a saúde ambiental do rio e sua biodiversidade. Foram realizadas análises de DNA ambiental em lagos, riachos e amostras de solo, permitindo identificar espécies a partir de vestígios genéticos presentes no ambiente, sem necessidade de captura direta de animais, plantas e microrganismos. Também foram feitas análises de mercúrio ao longo da cadeia trófica, envolvendo sedimentos, plantas, peixes e invertebrados.
Foram registradas mais de 2 mil espécies de plantas, aves, mamíferos, anfíbios, répteis e fungos. Durante as expedições, também foram avistados cerca de 350 botos, registradas mais de 600 espécies de aves e mais de 1.500 espécies de plantas.
O programa percorreu, em três grandes expedições, cerca de 3.500 quilômetros de rio na bacia, amostrou 150 lagos para análises de água, coletou material biológico em outros 150 lagos para estudos de fitoplâncton, zooplâncton e DNA ambiental, além de amostrar diversos grupos biológicos em 74 riachos ao longo da bacia.
O programa também teve forte impacto social e educativo. Foram realizadas capacitações regionais com professores das redes pública municipal e estadual, ações com escolas, criação de Clubes de Ciências, atividades com comunidades ribeirinhas e indígenas e iniciativas de valorização do conhecimento local. Para a professora Mariana Telles, um dos produtos mais simbólicos é o livro Plantas e Peixes, produzido em coautoria com guias de pesca da região, integrando conhecimento científico e saber tradicional.
Turismo sustentável
Outro destaque é o documentário Turismo de Natureza no Araguaia, que evidencia a força do rio como patrimônio natural, cultural e econômico. “O trabalho com guias de pesca, piloteiras, comunidades ribeirinhas e atores locais cresceu muito ao longo do programa e possibilitou a capacitação de cerca de 50 guias de pesca em cientistas-cidadãos”, destaca Mariana. Mais de mil turistas foram entrevistados sobre suas percepções do Araguaia, mais de duas mil pescarias foram registradas no banco de dados do programa e mais de oito mil peixes foram contabilizados.
“Essas informações ajudam a compreender a dinâmica da pesca e do turismo e podem subsidiar estratégias mais sustentáveis para a região, com dados inéditos produzidos no contexto do projeto”, explica a pesquisadora.
Na comunicação pública da ciência, o Araguaia Vivo consolidou uma frente estratégica de grande alcance, transformando os resultados das pesquisas e a vivência nos territórios em narrativas capazes de aproximar a sociedade da conservação do rio. O documentário Expedição Araguaia foi selecionado para 17 festivais e mostras nacionais e internacionais, chegando a oito países, e recebeu prêmios no Brasil e no exterior. “Esse resultado mostra que o programa conseguiu transformar ciência em narrativa pública, ampliando o debate sobre conservação para além da universidade e dos órgãos técnicos”, ressalta Mariana.
O programa também teve participação de destaque em duas edições consecutivas do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), na cidade de Goiás. Em 2025, foi lançado no festival o documentário Expedição Araguaia, que retrata uma das grandes expedições científicas realizadas na bacia. Além disso, também foram exibidas as animações Florinha do Cerrado e Vétera. Em 2026, a presença do programa foi ampliada com a segunda edição da sessão “Araguaia Vivo”, que reuniu a exibição do documentário Mulheres da Pesca no Araguaia, da animação O Mundo Aquático de Micra e o lançamento do novo documentário Turismo de Natureza no Araguaia. “As produções reforçam o papel do audiovisual como ponte entre ciência, território e sociedade, valorizando os saberes locais, o turismo de natureza, a pesca sustentável, a educação ambiental e a urgência de conservar um dos principais patrimônios naturais de Goiás”.
A comunicação pública da ciência também esteve presente na imprensa. O programa teve ampla veiculação em jornais e canais de comunicação, ampliando o alcance dos resultados científicos e aproximando a sociedade dos temas ligados à conservação do rio.
Produção acadêmica
Além das ações de campo, educação ambiental e comunicação pública, o Araguaia Vivo também consolidou uma produção acadêmica expressiva. Ao longo do primeiro ciclo, foram publicados dezenas de artigos em periódicos científicos internacionais, ampliando a visibilidade dos dados gerados sobre a Bacia do Araguaia/Tocantins e fortalecendo a presença da ciência goiana em redes nacionais e internacionais de pesquisa.
Os resultados do programa também foram apresentados em diversos congressos científicos no Brasil e no exterior, contribuindo para divulgar metodologias, diagnósticos e soluções desenvolvidas no âmbito do projeto.
Cooperação interestadual
O fortalecimento institucional do Programa Araguaia Vivo 2030 também tem despertado o interesse de outras unidades da federação. Recentemente, o presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat), Marcos de Sá da Silva, visitou a Fapeg para conhecer mais sobre as ações desenvolvidas pelo programa e demonstrou interesse em contribuir com a iniciativa, especialmente por meio do compartilhamento de dados e do desenvolvimento de pesquisas relacionadas à área da bacia do Rio Araguaia localizada em Mato Grosso.
Segundo a coordenadora-geral do programa, o diferencial da iniciativa está na integração entre diferentes áreas do conhecimento. “Trabalhamos integrando conhecimentos das ciências naturais, sociais e econômicas para enfrentar os desafios complexos que afetam o Araguaia. A ideia é garantir não apenas a conservação ambiental, mas também o desenvolvimento humano, econômico e sustentável da região”, afirma.
Legado
Os impactos do programa permanecerão por muitos anos. Entre os legados estão a formação de novos mestres e doutores, a publicação de artigos científicos em periódicos internacionais, a descoberta de novas espécies da fauna e flora, o preenchimento de importantes lacunas de conhecimento sobre a biodiversidade regional e a consolidação de ferramentas para a gestão sustentável dos recursos naturais.
Além de gerar conhecimento científico, o Araguaia Vivo 2030 traça um modelo replicável de gestão sustentável de bacias hidrográficas no Brasil, integrando ciência, poder público e sociedade.
Ao completar três anos justamente no mês em que milhares de turistas voltam seus olhos para o Rio Araguaia, o programa reforça uma mensagem que continua tão atual quanto o antigo jingle das temporadas passadas: preservar o rio é responsabilidade de todos. Afinal, essa beleza continua sendo para todo mundo.
